“Para quem quer viver de cinema, a regra é uma só: não desistir. Porque uma hora a oportunidade chega”.
A fala feita ao final de uma entrevista à Todavia é do diretor de cinema, Júnior França, e uma das cabeças por trás do filme “O pescador – Lenda do Cabeça de Cuia”, filme com previsão de lançamento para o final deste ano de 2026 e que trará uma nova interpretação para a lenda piauiense de mesmo nome. O longa-metragem, financiado pela Lei Paulo Gustavo, através da Secretaria de Estado da Cultura do Piauí (Secult), foi selecionado pelo streaming Amazon para uma coprodução e a expectativa é de que também será exibido na plataforma.
“Eu trabalho no audiovisual há 20 anos, mas há cerca de 10 me dedico exclusivamente ao cinema, com força total. Nesse período, busquei formação, novos conceitos, novos equipamentos, tudo o que fosse necessário para evoluir. Só agora a gente conseguiu, de fato, fazer cinema. Ainda falta muito, precisamos de mais leis de incentivo, de mais confiança das pessoas, de mais público. Existem pequenos festivais em Teresina que quase ninguém conhece, pouca gente frequenta. O cinema local evoluiu, mas ainda precisa amadurecer”, completou Júnior França.

Segundo o diretor, o projeto chamou a atenção do streaming justamente por fugir do eixo tradicional Rio–São Paulo. O público em geral tem demonstrado interesse em ver novas paisagens. O premiado “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça, que deu um Globo de Ouro de Melhor Ator para Wagner Moura foi gravado em Recife e, além do cenário também mostra o folclore regional, com a lenda da “perna cabeluda” como parte da narrativa. Já o filme “O Último Azul”, foi gravado no Amazonas, com Rodrigo Santoro, mas boa parte do elenco local, e venceu o Urso de Prata em Berlim e também tenta uma vaga no Oscar.

Júnior França pontuou ao boletim brio que as conversas estão em andamento e envolvem diferentes possibilidades de parceria, que vão desde apoio estrutural até aporte financeiro. Ele ainda adiantou que o objetivo é lançar o primeiro trailer do filme até o mês de maio.
“O processo com a Amazon começou a partir do roteiro do filme, que foi selecionado para uma possível coprodução. Pelo que sabemos, foi o único projeto do nosso nível escolhido nesse processo. Desde então, estamos em contato com a plataforma para viabilizar uma coprodução parcial, seja ainda durante a etapa de produção ou após o filme finalizado, além da possibilidade de exibição no streaming. A proposta da Amazon é justamente sair do eixo Rio–São Paulo e ampliar o olhar para produções do Nordeste, inclusive com interesse crescente em séries. Para a gente, é uma oportunidade de mostrar as lendas, a cultura e a identidade do Piauí”, explicou.
A lenda do Cabeça de Cuia, do folclore piauiense, narra a história de Crispim, um jovem que, após uma briga com a mãe, acaba provocando sua morte e é amaldiçoado por ela. Transformado em um monstro aquático com a cabeça em formato de cuia, ele passa a vagar pelos rios Parnaíba e Poti, condenado a se libertar apenas ao devorar sete mulheres virgens chamadas Maria. O mito é tão famoso que ganhou uma estátua no Encontro dos Rios, no bairro Poti Velho, na capital.
Inspirado na lenda, o filme acompanha a investigação de uma série de assassinatos de mulheres encontradas às margens desses rios. A detetive Helena (Catarina Saibro), marcada por traumas do passado e pela perda de sua parceira, se aprofunda nos casos e descobre que as mortes estão diretamente ligadas à antiga lenda, que parece ainda assombrar a cidade. À medida que a investigação avança, o filme vai buscar tensionar os limites entre mito e realidade, usando o terror e o suspense.
Para Júnior, o filme usa a lenda do Cabeça de Cuia como metáfora para discutir feminicídio, violência contra a mulher e a forma como a sociedade normaliza essas violências.
“A gente escolheu a lenda do Cabeça de Cuia porque entendeu que ela se alinha muito com os problemas sociais de hoje. O filme fala de feminicídio, da violência contra a mulher em várias escalas dentro de casa, no trabalho e também da violência simbólica, quando a sociedade fecha os olhos e normaliza certas situações. É uma releitura da lenda para dialogar com o presente e provocar reflexão”, disse.



“As pessoas ainda acham que fazer filme é coisa de gente que trabalha na Globo“
Também entrevistado pela Todavia, o jornalista e realizador audiovisual Thiago Furtado, natural de Araioses-MA, mas radicado em Teresina, ajuda a entender como o cinema piauiense tem se construído insistência. Responsável pelo filme “A Cigana”, com Benício Bem, ele venceu o prêmio de melhor filme, segundo o júri técnico, de longa metragem brasileiro no 14º Festival Internacional Rio LGBTQIA+, em julho de 2025, e acumula outras obras com 25 prêmios nacionais na área de cinema.
O longa-metragem documental apresenta o compositor e intérprete Benício Bem. No decorrer da narrativa, o público é conduzido à localidade de Poção, no interior do município de Brasileira (PI), onde Benício cresceu e teve seus primeiros contatos com o povo cigano, influência marcante na arte feita por ele. O filme apresenta depoimentos de familiares e amigos, como o humorista João Cláudio Moreno, além de artistas como Solange Almeida e Chico César. Com 1h15 de duração, o longa mergulha na trajetória de um artista múltiplo, revelando sua profundidade e complexidade.
Ele contou à coluna que o primeiro contato dele com o audiovisual não veio de uma escola formal de cinema, mas da vivência prática, ainda no início da década de 2010, dentro de uma produtora local, com o cineasta Dougla Machado. “Eu sempre gostei muito de filme, de histórias e tudo mais. Eu gostava muito de escrever, só que eu nunca tinha me atinado pra escrever filme. E aí eu comecei a ver, assim, dentro da vivência do trabalho, que o cinema podia ser uma forma de mostrar sua visão para o mundo. Como você enxerga o mundo, o cinema te proporciona isso. Então, pra mim, foi uma virada de chave”, relembrou.
Produzir no Piauí, segundo ele, sempre foi um desafio, que passa pela escassez de financiamento e por uma percepção equivocada sobre o fazer cinematográfico. Ele relatou que, no início, chegou a receber declarações desmotivadoras sobre fazer filmes.
“Produzir aqui ainda hoje é um desafio, a gente tem muito pouco aporte público e muito menos privado. As pessoas ainda acham que fazer filme é coisa de gente que trabalha na Globo ou de gente que quer ganhar prêmio. E a minha intenção quando eu comecei não era ganhar prêmio, era só entregar o meu TCC. As histórias que a gente está contando aqui são muito mais importantes do que ganhar um prêmio”, afirmou, pontuando que além do reconhecimento, não obteve valorização financeira por algumas de suas obras que foram premiadas.

Para ele, ainda não é possível falar em um cinema piauiense plenamente formado, mas em produções que tentam criar esse caminho.
“A gente não tem um público formado para o cinema, principalmente para o cinema nacional. O cinema se forma quando as pessoas assistem os próprios filmes, se veem na tela, reconhecem seus sotaques, seus rostos, sua diversidade. Por isso eu sempre coloco como meta ter questões sociais nos meus filmes. O cinema não pode ser puramente recreativo. Mesmo quando é recreativo, ele vai tocar em alguma pauta. Quando você faz um filme, você está dando a cara a tapa, é tudo aquilo que você pensa refletido ali, sem ter controle do que o outro vai sentir. E isso, pra mim, é a essência do que eu faço”, descreveu.

A escassez de editais e a formação de público
Perguntado sobre a importância dos editais, Thiago Furtado pontuou que eles possibilitaram a profissionalização do trabalho. Sem os editais, muitos filmes simplesmente não existiriam ou continuariam sendo feitos de forma totalmente precária. Porém, não romantiza o fomento público. Pelo contrário, aponta que o acesso é limitado e que os recursos não dão conta de toda a cadeia. “Esses últimos filmes, esses últimos quatro filmes que eu fiz, foram todos com aportes financeiros de editais. Os três primeiros foram assim, do meu bolso e confiando na galera, ‘vamos gente, vamos fazer isso’. Um dia, quando eu puder remunerar todo mundo, eu vou remunerar”, relembrou.
Segundo o diretor, o país vive hoje um momento mais favorável, mas esse avanço não se distribui de forma homogênea.
“A gente está vivendo um momento bom, que é propício, com vários editais sendo lançados, com vários fomentos sendo usufruídos, mas ainda tem lugares que não têm um cinema conhecido, que não têm capacitação, que não têm um público formado”, afirmou.
Para Thiago, o fomento precisa caminhar junto com a formação de público e de profissionais, para que o cinema local deixe de ser apenas um conjunto de produções isoladas e se consolide como um campo cultural contínuo e sustentável.
Conselheira avalia que editais precisam repensar critérios
Para Mariana Medeiros, idealizadora do projeto Piauiensidades e realizadora audiovisual e conselheira municipal de políticas públicas, representando a sociedade civil na cadeira do audiovisual, outro problema central dos editais no Piauí é a forma como ele é operado, segundo ela, sem critérios claros, rigor técnico ou compromisso com formação.
“Pessoas que estudam cinema há dez anos não conseguem ser aprovadas. Aí pega o recurso público e faz um documentário que você percebe várias camadas de problema, porque realmente não é cinema. É uma pessoa que acredita naquilo, que pegou um recurso público para fazer uma coisa que ela não tinha capacidade. Mas como aqui ainda é uma terra muito apadrinhada, principalmente nos recursos estaduais e municipais, acontece isso”, criticou.
Entusiastas criam núcleo no MIS e querem movimentar público

Essa fragilidade institucional também aparece, segundo Mariana Medeiros, na própria estrutura do poder público. Eleita conselheira municipal do audiovisual, ela relata que o conselho nunca chegou a tomar posse formalmente. Ela também citou a falta de apoio e reconhecimento ao audiovisual.
Atualmente, entusiastas do cinema criaram um coletivo para suprir essa lacuna. Mariana Medeiros conta que a criação do Núcleo Criativo Chagas Júnior, que leva o nome do idealizador do movimento Salve Rainha, morto em um acidente na capital em 2016, nasceu como uma resposta a essa ausência. Até anos passado, segundo ela contou, o Museu da Imagem e do Som (MIS) existia apenas no papel, sem estrutura mínima para funcionar. Foi a partir desse cenário que realizadores locais decidiram ocupar o espaço e colocá-lo em atividade.
“O MIS não tinha nada, não tinha verba, não tinha ninguém. Então a gente montou o núcleo pra poder inaugurar o MIS. Foi tudo voluntário. Os realizadores cederam seus filmes, a gente montou a programação, organizou os voluntários e fez um evento que deu mais de mil pessoas. Foi assim que o MIS foi inaugurado de vez”, relatou Mariana.
Segundo ela, mesmo após a reabertura, o espaço na parte audiovisual tem funcionado a partir de iniciativas voluntárias: “As pessoas não sabem que foi tudo feito de forma voluntária, que lá no MIS não tem ninguém efetivado do audiovisual. A gente segue ocupando porque, se não ocupar, não existe”, ponderou.
Cinema é um espelho da região que busca representar
As trajetórias trazidas aqui pela Todavia representam apenas um pequeno fragmento do enorme cristal que é o potencial da cena audiovisual piauiense. São histórias que mostram que o cinema é um compromisso de longo prazo, que nem sempre a primeira tentativa dá certo, e o sucesso exige anos de dedicação e aprimoramento e uma paixão pela arte.
A grande questão é que esse processo não deveria ser tão difícil. O cinema é importante para que a sociedade se reconheça. Um filme, gravado em uma cidade ou região, funciona como um espelho das belezas e dos problemas locais. Muitos lugares no mundo só passaram a ser valorizados quando apareceram na tela de um cinema ou de uma televisão. Por isso, produtores e realizadores piauienses clamam por mais incentivo, seja por meio de editais, da valorização de seus trabalhos ou da criação de espaços de formação, como cursos e escolas de cinema. Há ainda grande expectativa com o Cine Rex, projeto em desenvolvimento pela secult, que promete abrir novas possibilidades para o cinema local.
Para contribuir com esse olhar sobre a produção piauiense, a coluna selecionou uma lista de filmes indicados pelos próprios entrevistados, com títulos que valem a pena conhecer. A seguir, estão apresentados em ordem alfabética:
A Cigana, de Thiago Furtado

Longa-metragem documental que apresenta o compositor e intérprete Benício Bem, artista piauiense com relação direta com a cultura cigana e a cultura popular nordestina. O filme propõe uma viagem cósmica em busca de reconhecimento, refletindo sobre o estigma do “artista”.
Boi de Salto, de Tássia Araújo

O curta-metragem Boi de Salto, primeiro filme de ficção da cineasta e artista visual piauiense Tássia Araújo, vem conquistando público e crítica ao revisitar o universo do Bumba-meu-boi sob uma perspectiva contemporânea, poética e provocadora.
Cipriano, de Douglas Machado

Em Cipriano e a Morte de Cipriano, longa dirigido por Douglas Machado, é narrada a história de um homem velho, de nome Cipriano (Tarciso Prado), que está prestes a morrer. Após uma vida inteira atormentado por sonhos, ele passa a vagar solitário em um deles.
Flor de Abril, de Cícero Filho

A jovem nordestina Teresa (Dayse Bernardo) é uma menina ingênua e romântica em busca do amor. Diante de circunstâncias extremas, ela passa de moça do campo à prostituta. Entre erros e perdas, Teresa tenta lidar com as consequências de suas escolhas e decide se entregar a um novo amor como forma de redenção.
HORTELÃ, de Thiago Furtado

Uma história sobre afetos e atravessamentos. Quando o relacionamento de Luís e Alexandre chega ao fim, vem à tona o fato de que Dinha, doméstica que cuida de Luís desde pequeno, é avó de Alexandre. Enfrentando preconceitos e relações familiares e trabalhistas, o filme propõe um debate de alcance universal.
Torquato, imagem da incompletude, de Danilo Carvalho e Guga Carvalho

Torquato, Imagem da Incompletude é uma reflexão sobre parte da obra fragmentada, confusa e inacabada de Torquato Neto. Com direção de Danilo Carvalho e Guga Carvalho, o filme reúne trabalhos produzidos nos últimos anos de vida do artista, entre 1969 e 1972.
Um Corpo Subterrâneo, de Douglas Machado

Os cemitérios das cidades de Piripiri, Teresina, Amarante, Oeiras e São Raimundo Nonato são os espaços onde o documentário busca personagens que narram histórias de vida de parentes ali enterrados.





