Liberdade de viver sua vida não pode ser confundida com indiferença ao espaço coletivo

Um episódio inusitado foi registrado no 23º Distrito Policial da zona Sul de Teresina, envolvendo uma denúncia por perturbação do sossego em razão de ruídos excessivos durante atos íntimos de um casal. O ponto central aqui não é fazer qualquer juízo moral sobre a vida privada de quem quer que seja. Relações sexuais não devem ser objeto de vigilância social. O que está em discussão é outra camada da convivência urbana, mais profunda e, talvez por isso mesmo, mais negligenciada. Desde quando o respeito ao espaço dos outros foi substituído pela indiferença?

O desconforto relatado pela vizinha que denunciou nasce da impossibilidade, segundo ela, de preservar a rotina doméstica diante de uma exposição sonora contínua e involuntária. De acordo com as informações das páginas de jornalismo policial, houve tentativa prévia de diálogo, mencionada no boletim de ocorrência, mas mesmo assim a situação não se resolveu.

O fato é que quando os indivíduos passam a agir como se estivessem apartados do entorno, como se sua casa fosse um território autônomo e impermeável à existência alheia, instaura-se um desequilíbrio. A indiferença transforma o espaço coletivo em um campo de imposições unilaterais. O incômodo do outro se torna irrelevante e a noção de limite se dissolve. O convívio urbano para funcionar pressupõe um pacto implícito de consideração mútua.

Quando o incômodo do outro não mobiliza qualquer reflexão, rompe-se a dimensão ética da convivência. E a vida em comunidade depende dessa fronteira para funcionar. Quando ela é constantemente violada, instala-se um ambiente de desgaste permanente, no qual o espaço coletivo perde sua função de acolhimento e passa a ser vivido como um território hostil.

Por fim, a indiferença traduz uma forma de poder cotidiano. Impor o próprio ritmo, o próprio volume e a própria rotina sem considerar o entorno é uma maneira silenciosa de hierarquizar existências. Quem ignora o outro afirma, ainda que de forma inconsciente, que sua experiência vale mais.

Cadastre-se na nossa lista de transmissão
Receba nossos boletins no seu WhatsApp
  • ← Voltar

    Cadastro efetuado

    Você receberá nossos boletins no seu WhatsApp.

Deixe um comentário