A morte do chef de cozinha, o talento interrompido e um alerta sobre o calazar que não pode ser ignorado

Editorial 

A morte do chef Micael Morais, aos 30 anos, pegou amigos e colegas de surpresa e causou comoção entre moradores e profissionais da gastronomia no Piauí e no Ceará. Jovem, talentoso e em plena atividade, a partida inesperada dele representa uma perda para a culinária regional e chama atenção para um grave problema de saúde pública: o calazar.

O que se sabe até agora é que ele faleceu na terça-feira (5), em Teresina, onde fazia tratamento após ser diagnosticado com suspeita de leishmaniose visceral, popularmente conhecido como calazar. O  cachorro dele, segundo relatos divulgados pela imprensa local, também apresentava sinais da doença e teria morrido um dia antes. Embora a relação entre os dois casos não tenha sido oficialmente confirmada ainda, já reacende um alerta sobre a gravidade dessa zoonose que, ainda hoje, é cercada por desinformação, negligência e preconceito.

A leishmaniose visceral é uma doença infecciosa grave, causada por um protozoário transmitido pela picada do mosquito-palha. A enfermidade atinge principalmente o fígado, o baço e a medula óssea, sendo potencialmente fatal se não tratada a tempo. No ambiente urbano, os cães são os principais hospedeiros do parasita, mas vale ressaltar: a transmissão ocorre pela picada do mosquito, e não pelo contato direto com o animal infectado.

O Brasil concentra cerca de 90% dos casos de calazar nas Américas segundo dados da Fiocruz de 2021. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre os anos de 2011 e 2020 foram confirmados mais de 33 mil casos de leishmaniose. Em regiões como o Nordeste, a taxa de letalidade pode chegar a até 10%, especialmente onde o acesso ao diagnóstico e ao tratamento é precário. 

Informações da Secretaria Estadual de Saúde (Sesapi) mostram que o Piauí registrou 222 casos de leishmaniose visceral e 131 casos de leishmaniose tegumentar em 2023, número bem acima dos contabilizados no anterior, quando ocorreram apenas 81 casos de leishmaniose visceral e 96 casos de leishmaniose tegumentar.

É uma doença negligenciada, que acomete sobretudo populações vulneráveis e ainda carece de políticas públicas robustas de prevenção e controle.

No entanto, além dos desafios sanitários, há outro problema grave: o preconceito. Cães infectados frequentemente são alvo de medo e abandono. Muitas famílias, diante da suspeita ou confirmação do calazar em seus animais, enfrentam julgamentos, dúvidas éticas e até sugestões de eutanásia como primeira opção, quando existem alternativas de tratamento e controle. Em muitos casos, a falta de orientação adequada e o custo elevado do tratamento levam, de fato, a opção pelo fim da vida do animal. Em alguns casos, pelo estigma, isso não ocorre de maneira respeitosa e pacífica com a vida do animal. 

Em 2021, ganhou repercussão o caso onde cachorros com leishmaniose estariam sendo sacrificados, através do uso de eletrochoques, pelo Centro de Zoonoses da cidade de Barras. Imagens dos bichos conectados a cabos foram compartilhadas nas redes sociais. A gestão da época negou a prática e informou que obedecia a um protocolo legal recomendado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária. A denúncia foi feita por moradores que alegavam ouvir os gritos de sofrimento das vítimas. 

Voltando aos dias atuais, a doença continua negligenciada com campanhas tímidas. O caso de Micael expõe as falhas no sistema de vigilância epidemiológica e a fragilidade da rede pública de saúde em cidades do interior. Natural do Ceará, mas, morando em Luiz Correia, ele precisou ser transferido para Teresina em busca de atendimento especializado.

Nesse momento de dor e comoção entre os piauienses, é preciso que as autoridades públicas ligadas à saúde realizem campanhas contra a desinformação e também de prevenção à doença. Primeiro, para que jovens como Micael não percam o seu futuro por conta da doença. Segundo para lembrar que os animais não são vilões, que o medo não pode guiar decisões e que informação de qualidade salva vidas. Falar sobre o calazar com responsabilidade é também falar de amor, de cuidado e de saúde pública.

Que a memória de Micael Morais, jovem sonhador que amava gastronomia possa ecoar como um chamado à ação para que outras vidas, humanas e caninas, não sejam interrompidas de uma forma tão repentina e triste. 

Parei para ver 

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Um momento mágico, marcado pelo voo dessas aves de plumagem avermelhada, que encanta quem tem o privilégio de conhecer essa joia do nosso litoral.

O registro do perfil @rogerreix nos lembra da beleza que precisamos preservar.

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