Há três anos, a jovem de 22 anos e estudante de Jornalismo Janaína Bezerra saiu de casa para uma calourada na Universidade Federal do Piauí (UFPI) e não voltou. Entre os dias 27 e 28 de janeiro de 2023, ela foi estuprada e assassinada dentro da instituição por outro estudante, Tiago Mayson, do mestrado em Matemática. O acusado foi preso, submetido a julgamento e condenado a 18 anos, em um caso que não foi tipificado como feminicídio. O júri foi posteriormente anulado por falhas processuais, o que fez o caso retornar à estaca zero no sistema de Justiça. Três anos depois, não há desfecho definitivo, e a sensação de impunidade se soma à dor que nunca cessou para a família, amigos e colegas de turma.
Passada essa distância cronológica, antes de tudo, o que percebe-se diante do caso Janaina Bezerra é que mulheres ainda não estão seguras em lugar nenhum. Há uma crença de que instituições como uma universidade oferecem amparo, vigilância e proteção. Naquela noite, isso não foi garantido a Janaína. Três anos depois, o que mudou para que essa segurança seja hoje efetivamente assegurada às alunas e também aos alunos, que circulam por aqueles corredores, de dia e de noite?
O segundo ponto é o da dor que ficou. Tiago Mayson chegou a ser condenado pelos crimes de homicídio, estupro, vilipêndio de cadáver e fraude processual. A pena que a acusação queria era de cerca de 70 anos. O julgamento todo, porém, foi anulado. Com isso, a família será obrigada a reviver tudo outra vez. A cada lembrança que reaparece nas redes sociais, o custo de manter viva a memória de Janaína é também o de reabrir a ferida. Não se trata de esquecimento versus lembrança, mas da ausência de um desfecho que permita algum tipo de elaboração do luto, tanto pessoal, quanto coletivo.
E por que ainda dói tanto reviver essa lembrança? Porque há identificação. Janaína poderia ser qualquer uma de nós: jovem, mulher, estudante, a primeira da família a ingressar no Ensino Superior. Quantas histórias semelhantes não atravessam a própria UFPI? Quantas pessoas conseguem se ver exatamente onde Janaína estava, naquele mesmo contexto de festa, confiança e vulnerabilidade? O caso dói porque expõe uma violência que poderia ter acontecido com qualquer uma e não houve e nenhum mecanismo para defende-la.
E então vem a pergunta mais difícil: por que esse sofrimento não foi convertido em mudanças realmente significativas? Onde estão as transformações estruturais, as políticas permanentes de segurança, as campanhas duras e contínuas de enfrentamento à violência de gênero, dentro de instituições, também a nível municipal e estadual? O que pode e precisa mudar para que isso não aconteça de novo? A memória de Janaína não pode servir apenas como marco do luto. Como lembra a filósofa Silvia Federici, a violência contra as mulheres não é episódica, mas parte de uma lógica cultural e estrutural que sustenta desigualdades e silenciamentos. Combater essa violência exige uma transformação profunda da cultura que ainda permite que jovens saiam de casa para um momento de lazer e não retornem. Enquanto isso não acontecer, o aprendizado segue incompleto e o risco em aberto.


