O debate parlamentar, por definição, é o palco onde as ideias se confrontam e onde a linguagem exerce seu papel fundamental de moldar a percepção da realidade social. Na manhã desta terça-feira (02/06), a Câmara Municipal de Teresina foi cenário de uma declaração polêmica do vereador Pedro Alcântara (PP), ao afirmar que “hoje praticamente toda família tem alguém com câncer, alguém com autismo e um LGBTQIA+. Quem não tiver, vai ter”.
O câncer, uma patologia oncológica; o autismo, uma condição do neurodesenvolvimento; e a identidade LGBTQIA+, uma expressão da diversidade sexual e de gênero humana. Embora o câncer e o autismo sejam, de fato, condições que impõem desafios significativos e, muitas vezes, sofrimento às famílias – especialmente as de baixa renda, que lutam por tratamentos e qualidade de vida –, a vivência LGBTQIA+ não se enquadra nessa categoria de “sofrimento” ou “anormalidade” intrínseca.
A orientação sexual e a identidade de gênero são aspectos inerentes à individualidade humana, não patologias a serem curadas ou “condições” a serem lamentadas. Quando categorias de existência humana são justapostas a diagnósticos médicos, ocorre um fenômeno de “patologização simbólica”. Mesmo que a intenção não seja a ofensa direta, a estrutura do discurso acaba por emprestar à identidade LGBTQIA+ uma conotação de atipicidade ou de um evento que exige resiliência familiar similar à de uma enfermidade grave. Esse viés pode reforçar estigmas que a sociedade contemporânea busca superar por meio de direitos civis e do reconhecimento da dignidade humana.
A história política é pródiga em exemplos onde a construção narrativa precedeu transformações profundas na sociedade. No contexto de um plenário, as palavras adquirem um peso institucional; elas não apenas descrevem a realidade, mas ajudam a construí-la. O desafio para a política piauiense contemporânea está em navegar por essa complexidade linguística, garantindo que a universalidade de sua fala não apague as distinções fundamentais que garantem a dignidade, o respeito e a correta percepção de cada grupo na sociedade.


