Escassez de doações de sangue no Hemopi reflete rotinas exaustivas e empatia fragilizada entre pessoas 

Um alerta do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Piauí (Hemopi) sobre a queda nas doações de sangue desde novembro de 2025 acende um sinal vermelho às vésperas do Carnaval, período em que historicamente aumentam os acidentes e a demanda hospitalar. Em um país onde apenas 19% dos brasileiros doam sangue regularmente, segundo levantamento divulgado pela Veja Saúde, a pergunta que deve ser feita não é só “por que doar?”. É, acima de tudo, por que as pessoas estão doando cada vez menos e o que isso diz sobre a nossa sociedade? 

Há, primeiro, uma dimensão de empatia. Há quem enxergue a doação como um sacrifício injusto. Persiste a ideia, em parte das pessoas, de que doar seria “pagar” pelos excessos alheios, o pensamento tácito de que alguém vai se “arriscar” no Carnaval e outro terá de doar. 

A desinformação também pesa. Mitos como medo de engordar, emagrecer ou “afinar o sangue” e receio de agulhas ainda circulam, como aponta uma pesquisa do Jornal da USP, mostrando que campanhas educativas não têm sido suficientes para romper crenças enraizadas. Essa lógica individualista ignora que uma bolsa de sangue pode ser destinada a salvar crianças, gestantes, pacientes oncológicos e pessoas que dependem diariamente do SUS. Soma-se a isso o modo de vida contemporâneo, onde se discute a escala 6X1, e a maior parte dos brasileiros trabalham de seis a sete dias por semana. Em um mundo onde você mesmo está tentando se virar para sobreviver, quando sobra tempo para ser solidário? Um procedimento de doar sangue, que dura cerca de 50 minutos, vira um “luxo” na rotina do trabalhador. Assim, há a importância de fortalecer as campanhas informativas, que expliquem porque, como e onde doar sangue, além de parcerias público-privadas, que deem espaço de tempo para que as pessoas possam fazer a doação. 

O altruísmo começa quando alguém se dispõe a cuidar do outro no momento de maior fragilidade. A civilização nasce do cuidado. Assim, a doação de sangue é uma das expressões mais concretas de humanidade. A queda nas doações, portanto, mais do que uma questão logística, é um sintoma de rotinas exaustivas, laços sociais fragilizados e um ecossistema de desinformação que corrói a empatia. Doar sangue, além de caridade, é um pacto civilizatório. Quando esse pacto falha, a fronteira entre a vida e a morte e as próprias pessoas fica perigosamente mais estreita.

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