Um corpo que despenca de um piso superior de um shopping é, antes de qualquer apuração circunstancial, um evento que se inscreve em uma estatística. O Piauí registrou, em 2021, a segunda maior proporção de mortes por suicídio em relação ao total de óbitos no país, 11,83%, atrás apenas do Rio Grande do Sul, e acumulou, na última década monitorada pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade, um aumento de 66,7% na taxa de suicídio, com alta de 11,9% somente entre 2019 e 2021.
Teresina é um caso descrito na literatura epidemiológica nacional. Tratar o episódio deste domingo como um fato isolado, portanto, é menos uma escolha editorial do que um sintoma de negação coletiva.
A pesquisa internacional sobre prevenção do suicídio convergiu, nas últimas duas décadas, em torno de um conceito específico, que é a restrição de acesso aos métodos. Em edificações com múltiplos pisos e vãos abertos, isso significa intervenções arquitetônicas.
Há precedentes brasileiros consolidados. A Torre de TV de Brasília, conhecida como “palco dos suicídios” após mais de vinte ocorrências, teve o número de casos reduzido a praticamente zero depois que o GDF instalou grades de proteção. O Ministério Público do Distrito Federal, em 2009, exigiu de um shopping da capital medidas concretas e a administração instalou muralhas de vidro nas áreas de risco antes mesmo do prazo legal. Mais recentemente, em 2025, a Justiça do Pará condenou o Boulevard Shopping a instalar redes de contenção de queda com suporte metálico de 1,80 a 2,00 metros de altura nos vãos arquitetônicos, classificando a reiteração de suicídios no local como “fortuito interno”, risco inerente ao negócio, e não evento imprevisível.
A defesa do shopping, que alegava ser o suicídio um ato imprevisível de responsabilidade primária do Estado, foi rechaçada pela magistrada. A jurisprudência, portanto, já se movimenta.
Mais ainda: o Corpo de Bombeiros do Ceará publicou, em 2025, a primeira Norma Técnica Brasileira de Segurança Contra Suicídio em Edificações, orientando profissionais de engenharia e arquitetura sobre modificações estruturais com eficácia comprovada na redução de casos.
Concretamente, ao Shopping Rio Poty cabe avaliar a instalação de telas de contenção ou barreiras de vidro nos vãos internos dos pisos superiores, a elevação de guarda-corpos para padrões antiqueda (1,80 m+), e a revisão dos pontos de acesso à área de estacionamento elevado, um protocolo formal de identificação e abordagem de pessoas em sofrimento agudo, com treinamento de seguranças e equipe de limpeza, frequentemente os primeiros a perceber sinais.
O que a sociedade teresinense pode fazer?
Restringir o acesso ao meio salva vidas, mas não resolve o problema. O suicídio é um fenômeno multifatorial, e o Piauí carrega vulnerabilidades específicas que a literatura local já mapeou, como a alta proporção de jovens entre as vítimas, predomínio masculino, peso da solidão estrutural em capitais que cresceram rápido sem amadurecer suas redes de cuidado.
A saúde mental precisa ser vista como infraestrutura, não como campanha sazonal. O Setembro Amarelo cumpre função simbólica, mas a expansão da rede de CAPS, a integração com a atenção básica e a redução do tempo de espera por atendimento psiquiátrico no SUS são questões orçamentárias e, portanto, políticas. É legítimo cobrá-las do governo estadual e da Prefeitura de Teresina.
Da mesma forma, escolas e universidades são linha de frente. A faixa etária mais vulnerável frequenta salas de aula. Programas de letramento socioemocional, identificação de risco e fluxo claro de encaminhamento poderiam ser pauta da Secretaria de Educação e das IES locais.
Por fim, cabe à imprensa piauiense uma cobertura responsável. As diretrizes da OMS para jornalistas, evitar detalhamento de método, evitar imagens do local do ato, contextualizar com dados, oferecer informação sobre ajuda, não são censura; são prevenção baseada em evidência (o chamado “efeito Papageno”). Vale aos veículos da capital uma autorrevisão.
O caso deste domingo terminará, como tantos outros, isolado por seguranças, limpo em poucas horas, como uma pauta de fim de semana. Mas a estatística não se isola sozinha. Cada episódio é também um teste sobre o quanto a cidade se permite aprender com o próprio sofrimento.




