Políticos não querem enterrar milhões em obras de drenagem que não dão votos, enquanto teresinenses correm risco de vida em enxurradas 

Há décadas, Teresina vive sob o signo do medo a cada noite chuvosa. Basta o céu escurecer para que o teresinense, em um reflexo condicionado pela tragédia, recalcule sua rota ou, no pior dos cenários, desista de sair de casa. Um fenômeno natural e bem-vindo em uma capital marcada pelo calor tornou-se um gatilho para a tensão há várias gestões. Mas é preciso que se diga: a falta de drenagem urbana em Teresina não é um problema técnico insolúvel; é uma escolha política deliberada que se repete gestão após gestão, transformando ruas em rios e galerias em armadilhas mortais. 

O clima de tensão é alimentado por um histórico de acidentes que ceifaram vidas e arrastaram veículos, como o trágico episódio do chef de cozinha João Marcelo, arrastado em seu carro na Zona Leste em 2022, e a pedagoga Wana Sara, cuja vida foi interrompida pela força das águas na Avenida Homero de Castelo Branco. Estes eventos, que se repetem em diversas regiões, da Zona Leste à Zona Sul, em bairros como Fátima e Torquato Neto, são reflexos da falência de uma infraestrutura que, ano após ano, expõe a população a riscos iminentes. 

A raiz desse problema vem de uma lógica eleitoreira que permeia a gestão pública. Obras de drenagem são, por natureza, complexas, caras e, acima de tudo, “invisíveis”. Enterrar milhões de reais em tubulações subterrâneas não rende a mesma publicidade e visibilidade política que a inauguração de um monumento ou o recapeamento asfáltico de uma avenida principal. Políticos, em busca de dividendos eleitorais de curto prazo, priorizam o que brilha aos olhos do eleitor, negligenciando as soluções estruturantes que, embora fundamentais para a segurança e qualidade de vida, são vistas como construções que não geram “votos” ou “monumentos” para suas gestões. 

O resultado é um ciclo vicioso de obras inacabadas, como a galeria da Zona Leste, que se arrasta por anos entre paralisações e retomadas, e a persistência de pontos críticos como o Residencial Torquato Neto, onde moradores sofrem há mais de uma década com inundações recorrentes.

Cabe aos teresinenses assumir um papel mais ativo na fiscalização, acompanhando o andamento das obras, cobrando a execução dos planos diretores e exigindo transparência nos investimentos. Enquanto a drenagem urbana for negligenciada, Teresina permanecerá refém do medo a cada nuvem que se forma, permitindo que o asfalto reluzente das avenidas mascare o descaso subterrâneo que, sob a chuva, transforma a omissão em tragédia.

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