Crise do transporte público de Teresina: por que não chamar os estudantes para o debate?

Na última segunda-feira (25/05), estudantes de diferentes centros acadêmicos da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) desceram às ruas do centro de Teresina para dizer o que os ônibus lotados, os ar-condicionados quebrados e as rotas insuficientes já diziam há tempos: o transporte coletivo da capital falhou com quem mais depende dele. Concentrados na Praça Rio Branco, o movimento caminhou até a Prefeitura exigindo duas pautas: o Passe Livre e a municipalização do serviço sob controle popular.

Segundo os estudantes, o que encontraram na porta do Palácio da Cidade foram grades, seguranças e, em seguida, o aparato completo da força pública. “No início do ato tentaram levar voz de prisão contra mim, me tratando como criminoso por estar reivindicando um direito que é de toda a população”, relatou ao Boletim Brio, Pablo Alencar, do Movimento por uma Universidade Popular, um dos organizadores do protesto.

O debate, contudo, segundo eles, segue fechado entre três atores: a Prefeitura, o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Teresina (SETUT) e o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Rodoviários (SINTETRO).

Enquanto esses atores negociam entre si, a cidade real fica do lado de fora. E a cidade mudou. O crescimento dos aplicativos de transporte individual reconfigurou os hábitos de mobilidade, novos bairros se expandiram sem que as rotas acompanhassem, e o estudante que pega quatro ônibus por dia entre a periferia e a universidade representa uma demanda significativa dos usuários.

A crise do setor exige menos respostas protocolares e mais construção coletiva de soluções. A presença dos estudantes é uma demanda legítima por participação social. Ao mesmo tempo, movimentos sociais e entidades estudantis devem estar atentos ao sugerir propostas tecnicamente viáveis que permitam ampliar o acesso sem comprometer a sustentabilidade financeira do transporte.

Cidades brasileiras que avançaram em mobilidade urbana combinaram participação social, planejamento técnico e investimento público contínuo. São muitos atores envolvidos e com pontos de vista distintos. A Audiência Pública marcada para 1º de junho é, portanto, uma janela de oportunidade.

O que está em jogo? Teresina precisa discutir qual modelo de cidade pretende construir para os próximos anos. Mobilidade urbana de qualidade significa acesso à educação, permanência universitária, produtividade econômica e direito à cidade.

O transporte coletivo não pode permanecer refém de disputas episódicas entre categorias, governos e empresas enquanto a população enfrenta horas diárias de desgaste para exercer direitos básicos. O desafio de Teresina, agora, não é apenas administrar uma crise de ônibus, mas reconstruir confiança pública em torno de um serviço essencial que precisa voltar a funcionar para todos.

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