“Eu nunca trabalhei de carteira assinada. Nunca assinei minha carteira. Antes de trabalhar de entrega eu trabalhava no circo. De lá pra cá é só aplicativo”.
Há seis anos Miqueias Rocha, 26, conheceu uma nova frente de trabalho, que popularizava-se em todo o país, inclusive, em Teresina. O universo dos aplicativos de entrega e a possibilidade de atuar como entregador vinha sem muitas exigências. Começou com uma motocicleta, modelo POP, que ganhou do pai, no auge da pandemia em 2020, ainda sem habilitação formal para dirigir.
Em pouco tempo, esse mercado, mesmo informal, tornou-se cada vez mais competitivo. Conforme o próprio Miqueias explicou à Todavia, dá para “fazer dinheiro”, sim. Mas, o entregador tem que aprender a dominar as exigências dos aplicativos, que funcionam sob uma lógica semelhante aquela de plataformas de redes sociais, com avaliação e maior distribuição para quem é mais ativo, além de estar disposto a longa horas de trabalho, sem parar, chegando em alguns dias a 12h seguidos.

Quase R$ 700 como entregador em Teresina em um dia: é possível?
Mas, voltando a rotina de Miqueias Rocha, em 2021, já habilitado, fez o cadastro no iFood. A partir dali, passou a viver exclusivamente das entregas. Atualmente, já conseguiu trocar de moto, devolver a primeira ao pai e consolidar a rotina nas ruas. Paralelamente, começou a transformar o cotidiano de trabalho em conteúdo digital. Hoje, soma cerca de 20 mil seguidores no Instagram, onde publica vídeos narrados sobre ganhos, estratégias e rotina. Um dos vídeos que impulsionaram essa visibilidade, ele mostrava um faturamento de quase R$ 700 em um único dia. Nas reações a postagem, diversas pessoas pedindo pela “formula” e outras questionando a veracidade do feito. Entregadores podem ganhar bem assim em um único dia?
Questionado pela apuração Miqueias respondeu: “Primeiramente, um iniciante certamente não vai conseguir fazer isso, porque a conta tem que ser esquentada, entendeu? O iFood tem que ver que você tem constância, disposição. Você tem que rodar a quantidade de horas na rua pra ele ver que você realmente quer trabalhar. Você precisa mais ou menos, no máximo, uns dois meses pra poder subir. Também tem que comprar a máquina do iFood, que é R$ 400, na loja do iFood, pra pegar os pagamentos na máquina e gerar mais corridas, […] Esse dia [dos R$ 700 foi puxado]. Eu fiz 42 corridas, nenhuma rejeitada. Comecei de madrugada, uma hora. Aí vim em casa, tomei um café, nem dormi, e continuei: seis, sete, oito, nove, meio-dia. Antes de virar de novo, eu parei, tirei a foto, gravei o vídeo, tirei o print”, explicou sobre os bastidores de seu vídeo viral.

Segundo ele, já alcançou valores de R$ 2 mil em uma semana, somando vários dias e cerca de R$ 700 em um único dia, após 24 horas rodando e mais de 40 corridas. Para ele, os números precisam ser entendidos dentro da lógica real do trabalho. “Não é dinheiro fácil, não. Tem região perigosa, tem corrida que compensa e tem corrida que não compensa. A pessoa só pega essa plástica com o tempo.”
A partir dali, além das entregas resolveu investir também no próprio Instagram. Ele pontuou que sempre gostou de se gravar e postar vídeos, mas, depois da repercussão, onde foi procurado para fazer “publis”, resolveu investir mais e leva até um videomaker, um primo, para gravar entregas onde aparece vestido de Homem-Aranha. A iniciativa o tornou o primeiro entregador de Teresina a adotar esse formato de forma recorrente, sempre trabalhando e registrando a reação dos clientes.

Uma profissão arriscada
Um outro entregador entrevistado pela Todavia, foi o Sebastião Leal, 40 anos. Ele conta que teve uma moto roubada durante o trabalho e que só voltou a vê-la cinco anos depois, quando o veículo foi localizado em uma blitz policial. Ao a apuração pedir fotos para ilustrar sua trajetória, Sebastião explicou que não tem registros de todas as fases da vida como entregador. O motivo é que perdeu celulares ao longo dos anos, alguns levados em assaltos, outros que simplesmente caíram durante as corridas, no vai e vem da cidade.
Segundo ele, a Zona Leste, especialmente a área dos prédios, concentra o maior volume de pedidos. A Zona Sul também aparece com força, mas traz um alerta. “A zona leste é campeã, principalmente os prédios. A zona sul também chama muito, mas tá cada vez mais perigosa.”
Da bicicleta à moto ou carro: adaptação é a regra

Sebastião começou cedo. Aos 13 anos, já treinava entregas de bicicleta. Com o tempo, passou pela moto, pelo carro e por tudo o que fosse necessário para continuar trabalhando.
Segundo Sebastião, a média mensal de ganhos de um entregador em Teresina gira em torno de R$ 3 mil. Mas ele afirma que, mantendo uma rotina extensa, é possível alcançar mais, sendo que ele próprio costuma faturar em média R$ 4 mil mensalmente.
“Eu começo cedo, antes da 9h, faço a rota, vou entregando. Às vezes termino dez, onze horas da noite, depende do cliente”, explicou, pontuando que atua em diferentes frentes por aplicativo e também como entregador fixo para restaurantes e empresas que operam em várias plataformas, como iFood, Uber Eats, Mercado Livre e Shopee.
Comer, ir ao banheiro, sombra e beber água: tem que se virar!
Outro contraste que chama atenção na rotina dos entregadores é que, apesar de passarem boa parte do dia transportando comida de um lado para o outro, para eles mesmos a alimentação vira uma logística.
“Ontem mesmo eu almocei 5h da tarde. Eu vou bebendo água e, vez ou outra, compro um lanchinho, mas pra almoçar mesmo é complicado”, disse Sebastião Leal.

Entre os entregadores, muitos prestam serviço para restaurantes diariamente, mas não têm qualquer vínculo com os estabelecimentos, o que, na prática, significa que não podem sequer entrar para usar o banheiro ou beber água. Em algumas conversas, a reportagem chegou a perguntar como eles fazem para ir ao banheiro ou se hidratar durante o expediente. A resposta foi unânime: “tem que se virar e dar um jeito”.
Na entrevista com Miqueias Rocha, ele contou que raramente retorna em casa ao longo do dia e que costuma carregar duas a três camisas dentro da bag, fazendo a troca de roupa, conforme o calor e o desgaste do dia avançam.
A principal reivindicação: um espaço para descansar!
Para Sebastião, a maior necessidade hoje dos entregadores em Teresina um espaço de apoio. Um local formal para descansar, beber água, carregar o celular e se proteger do sol, além de alguma qualificação em informática para que a classe possa usar melhor os aplicativos. Ele relata conversas com representantes do poder público e o desejo de ver isso sair do papel.
“A gente conversa, pede um espaço pra descanso, pra carregar o celular, pra beber água. A cidade é muito quente e a gente não tem onde parar“, pontuou.
Em uma cidade onde os aplicativos operam há anos, os entregadores sustentam a dinâmica urbana sem um ponto mínimo de acolhimento. Segundo a associação que representa a categoria na cidade, Teresina seria a única capital do Nordeste a não tem um ponto de descanso para esses trabalhadores.
Em 2025, o deputado Merlong Solano (PT) em uma reunião com parte da categoria anunciou apoio para criação de um ponto de apoio na Avenida Raul Lopes, bem como para a CNH Social e regulamentação da atividade. A Todavia entrou em contato com o parlamentar para saber sobre o avanço da possibilidade de um espaço, mas, não obteve resposta até o fechamento do texto.

“O que falta é apoio e reconhecimento”

Aos 53 anos, James Rodrigues, conhecido entre os colegas como Velho Mestre, também atua na rotina intensa das entregas em Teresina. Sem hora certa para começar nem para terminar, o trabalho varia entre manhã, tarde e noite, somando facilmente 10 ou 11 horas sobre a moto. Nesse ritmo, James chega a fazer 30 corridas ou mais por dia, dependendo da demanda.
Além das entregas, o Velho Mestre também mantém um trailer de comida na zona Sul da cidade, o Cantinho do Mestre. O espaço virou também um ponto de apoio para outros entregadores. Lá, eles podem beber água, carregar o celular, descansar um pouco e trocar ideia. James se vê como alguém que apoia a categoria, alguém que entende na pele as dificuldades da rua e tenta ajudar como pode.
“Trabalho com lanche e comida. É o Cantinho do Mestre, fica aqui na zona Sul, bem em frente ao Carvalho. É um local excelente. Os meninos sempre gostam de ficar por aqui […] A gente conversa muito com eles [poder público], pedindo alguns incentivos, tipo apoio. É o que falta pra galera aí. Falta de apoio, essas coisas, reconhecimento. Exceção de IPVA, pra gente tirar parte da ajuda de veículos, entendeu? Essas coisas”, pontuou.
Ele também relata que os entregadores mantêm diálogo com o poder público, buscando melhorias. Segundo James, as conversas giram em torno de incentivos, apoio com veículos, redução de penalidades injustas e condições mais humanas de trabalho. Ele lembra que já participou de mobilizações para questionar multas e regras que, muitas vezes, não levam em conta a realidade de quem passa o dia inteiro exposto ao sol, ao risco e à pressão do tempo.
Entregador não é CLT… Mas ele é autônomo até que ponto?
Questionada pela Todavia, a advogada Karolinna Vasconselos Pereira, doutoranda em Direito Empresarial e Cidadania, mestra em Direito Constitucional e especialista em Direito do Trabalho, explicou o centro de uma das principais questões sobre direitos trabalhistas no Brasil, que é a relação entre entregadores por aplicativo e as plataformas digitais. Segundo ela, não há hoje um entendimento único na Justiça do Trabalho. Os tribunais analisam caso a caso, a partir do princípio da realidade dos fatos, observando como o trabalho acontece na prática e não apenas o que está previsto nos contratos ou termos de uso dos aplicativos.

Karolinna pontuou que, quando ficam comprovados elementos como habitualidade, pagamento, pessoalidade e subordinação, parte da Justiça entende que há, sim, vínculo empregatício. No entanto, outros julgadores consideram que a subordinação estaria “mitigada”, já que o entregador pode escolher quando trabalhar e se aceita ou não as corridas. É exatamente nesse ponto, segundo ela, que está o nó da discussão: até que ponto essa autonomia é real?
Para a advogada, o avanço da tecnologia criou uma nova forma de controle, reconhecida inclusive na legislação brasileira desde 2011, quando os meios telemáticos e informatizados passaram a ser equiparados à subordinação jurídica tradicional.
“O trabalhador, ele é autônomo, tranquilo, beleza, é isso que as plataformas defendem, mas ele é autônomo até que ponto? Veja, hoje a gente tem as plataformas. Você termina uma corrida, ela já te manda a mensagem de outra, como ela sabe da sua localização pelo GPS, onde você está, você faz a corrida dali e ela já lhe manda para outra. Você sai de um bairro, vai para outro, e assim sucessivamente. Ela te induz a aceitar cada vez mais corrida. Quanto mais corrida você faz, mais você é avaliado pelo consumidor final, mais estrelas você vai ter. Então acaba que é um controle que eles têm e uma indução de trabalho que eles fazem com o trabalhador. E ainda mais, se você recusa com frequência, eles passam a não te dar mais corrida”, pontuou.
Esse mecanismo configura o que tem se chamado de “subordinação algorítmica”, um controle exercido não por um chefe direto, mas por sistemas digitais que direcionam, avaliam e condicionam o ritmo de trabalho. O resultado, segundo ela, é um cenário de extrema vulnerabilidade com entregadores sem carteira assinada, sem férias, sem 13º, sem FGTS ou INSS e expostos a riscos diários, assumindo sozinhos todos os custos e perigos da atividade.
Casos chegaram ao STF e aguardam regulamentação no Brasil
Advogada descreveu que diante deste cenário, duas ações chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF). Uma da empresa Rappi e outra da Uber. A tese no julgamento, que ainda vai acontecer, deverá ser aplicada em todos os casos em tramitação no Judiciário. As empresas alegam que são plataformas que atuam por meio do “intermédio”, de parcerias para o consumidor final através das suas plataformas, que possuem motoristas credenciados. Tais motoristas trabalham no dia e hora que querem, aceitam ou não as corridas e por isso são autônomos, sem qualquer tipo de subordinação, não tendo direitos garantidos pelo CLT.
A “suave” mão de um chefe invisível
No Brasil, em um período como a pandemia, onde somaram-se mais 13,5 milhões de desempregados, em 2020, e em que historicamente há poucas oportunidades distribuídas de forma equitativa, o trabalho por aplicativos apareceu, sim, como uma porta de entrada para a geração de renda. Para muitos entregadores, especialmente em estados como o Piauí, essa atividade representa a possibilidade de sustentar a própria família em um contexto no qual outras alternativas simplesmente não existem. São uma classe que atualmente presta um serviço relevante para a sociedade e já intrínseco a rotina das pessoas. Quem nunca usou o aplicativo de Ifood ou Uber, por exemplo? A maior parte das pessoas, que recebe a encomenda no conforto de casa, não chega a pensar de onde vieram ou para onde vão os responsáveis pela entrega. Mas, eles continuam na ativa, todos os dias.
Por outro lado, essa renda é alcançada à custa de jornadas extensas, assim como outros trabalhos que existem. Mas, a lógica da “uberização” desloca para o indivíduo questões que antes eram coletivas (manutenção, saúde, previdência, acidentes, descanso) e naturaliza a ideia de que o esforço extremo é escolha pessoal, quando na verdade é um resultado à precariedade e à escassez de alternativas no mercado de trabalho local. Esses trabalhadores não têm chefe visível, mas estão submetidos a um sistema algorítmico opaco que define ritmo. A autonomia existe, mas, apenas na superfície. Está ai a importância da atuação do poder público no equilíbrio dessa balança.

