O jogador Neymar vai ou não para a Copa? A resposta, hoje, está nas mãos de Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, e polariza o país quase tanto quanto o debate político entre esquerda e direita. Há quem veja nele ainda um nome capaz de decidir jogos e reacender a confiança do time. Há também quem o enxergue como símbolo de um ciclo que já passou, mais sustentado por lembranças do que por boas entregas. É esse o calor com que o brasileiro trata a Copa do Mundo e que por décadas funciona como uma espécie de termômetro emocional do país. Poucas coisas medem tão bem o humor nacional quanto a maneira como o brasileiro se anima ou subestima o time que o representa.
O Brasil, afinal, não é qualquer seleção. É o único país pentacampeão do mundo e também o único presente em todas as edições da Copa. Durante décadas, esse lugar de potência do futebol ajudou a criar no país uma atmosfera em torno do Mundial. De quatro em quatro anos, ruas inteiras eram enfeitadas, vizinhos se organizavam, famílias e amigos se reuniam diante da televisão, e a camisa amarela “canarinho” era vestida com orgulho pela maioria. Havia uma comoção coletiva que ultrapassava o esporte e transformava a Copa em um raro momento de unidade nacional, um intervalo em que o Brasil parecia se reconhecer em torno de uma mesma esperança.
Da mesma forma que o futebol modera o humor do brasileiro, a economia também. Coincidentemente, em parte dos anos em que o Brasil conquistou suas Copas, o país atravessava períodos históricos distintos que, de alguma maneira, também dialogavam com expectativas de futuro. Assim, junto das taças, permaneceram na memória imagens de um país em movimento, de uma sociedade que, apesar das contradições, ainda parecia acreditar mais em si mesma. A lembrança dos títulos carrega a glória do esporte e também a sensação difusa de que havia, ali, dias melhores no horizonte.
Mas esse encantamento perdeu força. Já são 24 anos sem um título mundial, desde 2002 e 12 anos desde o 7 a 1 contra a Alemanha, em 2014, derrota que também abalou a ideia de uma superioridade brasileira que durante muito tempo pareceu natural. Nesse intervalo, o país também mudou. As formas de entretenimento se fragmentaram, a política atravessou o futebol de maneira mais explícita, e o próprio esporte passou a conviver com uma dimensão cada vez mais empresarial, cercada por interesses econômicos, plataformas e jogos de apostas. Ao mesmo tempo, outras modalidades vem ganhando destaque.
Em 2024, Rebeca Andrade conquistou a medalha de ouro no solo nos Jogos de Paris, superando Simone Biles, em uma vitória histórica, devolvendo ao brasileiro uma emoção que, há muito tempo, o futebol já não consegue garantir com a mesma força, por exemplo. Assim, parte dos brasileiros talvez já possa começar a se imaginar como fãs para além do futebol, prestando atenção em outras disputas. O país tem se destacado em outras modalidades, com novos ídolos e encontrado, fora dos gramados, motivos igualmente legítimos de orgulho nacional.
Ainda assim, o sonho do hexa permanece. Só que, hoje, ele já não aparece apenas como um objetivo esportivo. Surge também como nostalgia de dias em que o país parecia mais leve, mais confiante e mais capaz de sonhar em conjunto.




