Mulher contrata Uber moto para escolta-la até o bairro em Teresina: onde está o direito de ir e vir?

Recentemente, um vídeo inusitado viralizou nas redes sociais, capturando a atenção e provocando uma mistura de humor e  reflexão. Em Teresina, uma mulher solicitou uma corrida por aplicativo, mas fez um pedido peculiar ao motociclista: em vez de subir na garupa, ela preferiu pilotar sua própria moto, enquanto o profissional a acompanhava como uma espécie de “escolta” até seu destino no bairro Morada do Sol, na zona Leste da capital. A cena, registrada pelo próprio motociclista, rapidamente se espalhou, gerando debates sobre a insegurança feminina.

Pesquisas indicam que a insegurança é uma constante na experiência urbana das mulheres brasileiras. Cerca de 97% das mulheres reportam sentir medo ao se deslocarem pela cidade. 71% delas já vivenciaram alguma forma de violência durante seus deslocamentos. A sensação de vulnerabilidade é acentuada, com 68% das brasileiras expressando receio significativo de sair sozinhas à noite, mesmo em seu próprio bairro. 

A ameaça constante de violência atua como um mecanismo de poder que induz as mulheres a uma autocensura e auto-vigilância permanentes. A percepção de que se pode ser observada e vulnerável a qualquer momento gera uma disciplina dos corpos e dos movimentos, reconfigurando a própria maneira como as mulheres habitam e transitam pela cidade. E gerando prejuízos na saúde mental. 

Sob uma lente psicanalítica, a experiência da insegurança feminina no cotidiano urbano remete ao conceito de desamparo. A mulher é confrontada com a percepção de que sua integridade física e psíquica está à mercê de um outro, muitas vezes desconhecido e potencialmente hostil. Esse desamparo não é uma sensação meramente momentânea, mas uma condição que se inscreve na subjetividade feminina, gerando uma ansiedade latente e uma hipervigilância constante. A necessidade de antecipar o perigo, de ler sinais e de estar sempre em alerta, consome energia psíquica e impede uma vivência plena do presente.

A construção da subjetividade feminina, nesse contexto, é intrinsecamente marcada pela negociação com o medo. A sociedade, ao falhar em garantir a segurança, impõe uma repressão velada aos desejos de liberdade e autonomia das mulheres. A mulher aprende, desde cedo, a internalizar essa repressão, a justificar suas próprias restrições e a adaptar-se a um mundo que a vê como vulnerável. 

A análise com viés de gênero revela que as cidades são experienciadas de maneiras distintas por homens e mulheres, e que a ausência de segurança para as mulheres é um reflexo de desigualdades de poder e de uma cultura que ainda tolera a violência de gênero. As piauienses sentem que ainda estão bem distantes do dia em que a liberdade de ir e vir será uma realidade para todas, sem o custo adicional do medo.

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