Show do Alok no Piauí: gasto ou investimento?

Tanto quanto a pirâmide de cerca de 30 metros montada na Arena Carhoo, na Zona Sudeste de Teresina, ou o show de drones no céu, chamou atenção a disputa de narrativas em torno da apresentação do Dj Alok no Piauí. A poucos dias do evento, já com o artista em solo piauiense, a Justiça suspendeu o show “AUREA”, após ação popular que questionava o patrocínio de R$ 1,8 milhão feito pela Secretaria de Turismo do Estado (Setur).

A primeira decisão foi do juiz Litelton Vieira de Oliveira, da 2ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública, que apontou possível risco ao erário e questionamentos sobre moralidade, razoabilidade e proporcionalidade no uso do recurso público. Depois, o desembargador Hilo de Almeida manteve a suspensão em recurso do Estado. Somente na tarde de sábado, dia marcado para o show, o desembargador Mário Basílio de Melo concedeu liminar autorizando a realização do evento, ao acolher o argumento de que se tratava de uma iniciativa privada, com o Estado atuando como patrocinador, e não como organizador direto.

Nas redes sociais, a discussão rapidamente deixou de ser apenas sobre o custo do evento, o modelo de patrocínio ou mesmo o gosto musical do teresinense em geral. Acalorado pelo fato de 2026 ser um ano eleitoral virou um embate politico com pouca disposição para reconhecer nuances. Mas é possível apontar erros, melhorias e controvérsias em uma situação sem ignorar também o seu lado positivo.

Teresina cobra, há anos, mais eventos, mais circulação turística e capacidade de atrair grandes públicos. Outras capitais do Nordeste aprenderam a transformar a cultura em uma cadeia econômica que envolve hotéis, bares, restaurantes, transporte, trabalhadores informais e pequenos prestadores de serviço, além de melhorar a autoestima da cidade e mostra que o Piauí pode fazer parte do circuito de grandes espetáculos. Alok é uma atração nacional, com sucessos internacionais, como o “Hear Me Now”.

Por outro lado, isso não elimina a obrigação de transparência. Quando há dinheiro público, o Ministério Público, o Judiciário, os órgãos de controle existem para que possam questionar e definir limites na defesa do erário público. Os próprios cidadãos devem fiscalizar também. Defender eventos não pode significar fechar os olhos para o uso do erário.

Aliás, essa discussão não exclusiva do Piauí. No Rio de Janeiro, o projeto “Todo Mundo no Rio”, o prefeito Eduardo Paes costuma defender publicamente o uso de recursos públicos em grandes shows por entender que eles lotam hotéis, restaurantes e fortalecem a identidade turística da cidade, ao mesmo tempo, a oposição critica a personalização política desses eventos e questiona seus custos.

Assim, em Teresina, ou qualquer outro lugar do Brasil, a resposta para a pergunta se foi “gasto ou investimento?” depende da capacidade de fazer o retorno chegar ao estado, em fazer desse tipo de evento uma política de cidade e não apenas em mais um episódio de disputas eleitorais.

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