“Eu quero que a justiça seja feita, porque ele dizia que eu podia denunciar, que no outro dia ele sairia, e isso realmente acontece”. A frase dita pela corretora de imóveis e empresária Bianca Brígida, de 30 anos, em entrevista ao portal GP1, sintetiza a sensação de impunidade que agressores sentem e uma das camadas mais graves da violência doméstica no Brasil. Bianca denunciou ter sido vítima de agressões praticadas pelo marido, o mecânico e empresário José Alves da Costa Filho, com quem mantinha um relacionamento há 15 anos. Segundo o relato da vítima, o episódio mais recente ocorreu no domingo (3), na zona sudeste de Teresina, quando ela foi agredida com socos no rosto após uma discussão. Ela afirma que as agressões eram frequentes, inclusive diante dos filhos, e também relata violência psicológica, ameaças e episódios anteriores de agressão física.
A responsável pela denuncia foi a irmã da vítima. Bianca afirma, em lágrimas, que teme o que o homem fará com ela, pois ele sempre dizia ela ela “desgraçaria” a vida dele, que passou por “louca” e que só queria manter a sua família. Essa afirmação, para além da força física de um homem contra uma mulher, traz ao debate também a estrutura emocional e social que faz a mulher se sentir responsável até pela reputação de quem a agride.
O caso é um problema criminal, e deve ser devidamente investigado, mas, passa também por uma banalização social da violência masculina dentro das relações afetivas. Muitos agressores carregam a percepção de uma impunidade naturalizada, especialmente quando os episódios acontecem dentro de casa, longe do olhar público. Ou pior, sequer acham que estão errados em agredir outra pessoa. Embora o Brasil tenha avançado no enfrentamento à violência contra a mulher com legislações como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e dispositivos mais recentes relacionados à violência psicológica e importunação sexual, ainda existem brechas institucionais e culturais exploradas por esses homens. Em inúmeros casos que chegam à Justiça, a estratégia passa a ser desmoralizar a vítima, questionar sua sanidade, comportamento ou reputação, numa tentativa de enfraquecer a denúncia e preservar a imagem social do agressor. O problema, portanto, é também cultural.
Historicamente, a violência masculina contra mulheres foi construída dentro de uma lógica de poder e posse. Durante séculos, relações afetivas foram atravessadas pela ideia de que homens exerciam autoridade sobre esposas e filhos, enquanto mulheres deveriam suportar, silenciar e preservar a família a qualquer custo. Mesmo com transformações sociais profundas, essa lógica estrutural permanece. Por isso, a violência doméstica raramente começa no último soco. Antes dele, muitas vezes há anos de humilhações, ameaças, chantagens emocionais e isolamento. O corpo ferido é a parte mais visível de uma relação em que a vítima já vinha sendo diminuída e estratégica convencida de que não tem outra saída a não ser permanecer.
Os filhos também são vitimas de relacionamentos abusivos. É algo que forma emocionalmente uma geração inteira. E há ainda uma culpa feminina, construída socialmente, que faz muitas mulheres acreditarem que denunciar é “destruir” a vida do homem que as agride. A sociedade ensinou mulheres a preservarem homens, mesmo quando esses homens não preservam elas. Por isso, é fundamental que vítimas encontrem respaldo, sobretudo, na Justiça, mas também na imprensa, nas instituições e em redes de apoio capazes de romper o isolamento e garantir que o agressor não saia dessa impunemente.


