Empresária que torturava doméstica grávida, presa em Teresina: retrato da mentalidade escravocrata

Ela tinha 19 anos, cinco meses de gestação, R$ 750 no bolso por duas semanas de trabalho e quase dez horas diárias dentro de uma casa que não era sua. Era vulnerável em todas as camadas que uma mulher pode ser vulnerável neste país: jovem, pobre, grávida, trabalhando na informalidade, longe de qualquer rede de proteção. E foi exatamente nessa condição que a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos a encontrou e decidiu que podia fazer o que quisesse com ela, no interior do Maranhão.

O áudio que circula nas redes sociais dispensa interpretação. A própria suspeita descreve, com uma normalidade que assombra, o que foi feito àquela jovem: tapa, murro, pisão nos dedos, com a ajuda de um homem que ela chamou. Um catálogo de violência narrado sem entonação de culpa ou remorso.

O antropólogo Roberto DaMatta já descreveu com precisão o autoritarismo que habita certos segmentos da elite brasileira, aquele que não precisa de decreto nem de farda para se impor. É o autoritarismo doméstico, silencioso e cotidiano, que opera na certeza de que algumas pessoas nasceram para servir e outras para mandar, e que os limites entre esses dois mundos são intransponíveis.

A gravidez não freou nada. Uma jovem grávida, sem carteira assinada, sem contrato, sem testemunha, sem para onde correr, era exatamente o perfil que tornava a violência mais fácil de praticar e mais difícil de denunciar. O informal, no Brasil, ainda é o território onde muita gente acha que a lei não entra, porque a lei, historicamente, demorou muito para chegar até lá.

Carolina Sthela foi presa nesta quinta-feira em Teresina, Piauí. E é preciso que o barulho que veio depois desse caso não se dissipe assim que o próximo escândalo aparecer.​​​​​​​​​​​​​​​​ Essa triste história é um lamentável espelho de um país que ainda tolera relações de trabalho marcadas por humilhação, violência e mentalidade escravocrata. Porque enquanto houver quem ache que pessoas pobres valem menos, o Brasil continuará convivendo com tragédias que não nascem do acaso, mas da desigualdade transformada em cultura.

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