Teresina e o mito da cidade planejada: as ocupações e a desigualdade que empurra os mais pobres para as margens da capital

Teresina nasceu pensada no papel antes de se erguer do chão. É considerada a primeira capital planejada do Brasil. Mas, os últimos anos expuseram que o projeto idealizado pelo Conselheiro José Antônio Saraiva e por João Isidoro França, não conseguiu se manter como tal. A capital cresce com um centro, cada vez mais vazio, em contraste com um número crescente de ocupações.

Recentemente, a Prefeitura de Teresina criou comissões para fazer a regularização de áreas ocupadas na zona Norte, referentes a ocupações surgidas nos últimos anos, como o Terras Poty, o loteamento Alegre e o Núcleo Urbano Boa Hora. Famílias que, sem alternativa, levantaram suas casas ali, construindo à margem da lei, mas também à margem do próprio Estado e de direitos básicos que deveria vir com a moradia. Onde o poder público não chega, surgem territórios vulneráveis, um terreno fértil para a violência e aumento da pobreza.

O crescimento, sobretudo, da população mais pobre em ocupações nos extremos da cidade reforça um modelo que se repete nas grandes cidades brasileiras, onde esses grupos ficam longe do centro e, consequentemente, mais longe de oportunidades de empregos e serviços públicos de saúde e educação. O resultado é uma cidade desigual com zonas muito ricas e outras onde falta até um calçamento.

Parte desses moradores resistem a regularização por medo de perder o lugar que chamam de lar ou de serem mandados para ainda mais longe. A regularização não pode ficar apenas no papel. Ela precisa vir acompanhada de outras ações para que essas ocupações sejam transformadas em bairros de verdade, onde as pessoas possam viver com dignidade. O desafio de Teresina é romper esse ciclo que se repete há anos e que tira da capital piauiense o um dia tão almejado título de “cidade planejada”.

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