Teresina nasceu entre rios. Como uma espécie de cidade mesopotâmica do sertão, foi fundada a partir da confluência entre o Parnaíba e o Poti, que serviram de argumento decisivo para a transferência da capital do Piauí de Oeiras para suas atuais terras. A proximidade com a área facilitaria o comércio e a integração da província com outras regiões. Ao longo da história, as grandes civilizações floresceram às margens de rios porque deles dependiam para transporte, abastecimento, alimentação e desenvolvimento econômico. Em Teresina, porém, esse patrimônio natural que movia a vida na cidade acabou se transformando apenas em paisagem. Reaprender a viver com os rios é um dos maiores desafios urbanos da cidade neste século.
É essa reflexão que sustenta o projeto “Economia Fluvial Circular no Rio Poti: Paradigma de Gestão Restaurativa, Inovação e Requalificação Socioambiental para a Resiliência Urbana e Bem-estar em Teresina”, coordenado pelo arquiteto e mestre em Planejamento Urbano Nilson Coelho, com participação dos pesquisadores Paulo Renato Mesquita Pellegrino, professor ligado à USP e com formação em Harvard, e Juliana Alencar. O estudo argumenta que a urbanização de Teresina produziu uma “dupla violência” sobre o Rio Poti: primeiro, uma violência física, causada pelo assoreamento, degradação ambiental e afastamento das margens. Em segundo, uma violência existencial, caracterizada pela retirada do rio da experiência cotidiana das pessoas. Em outras palavras, o rio permaneceu no mapa, mas desapareceu da vida da cidade.
O documento utiliza um conceito provocador para explicar esse fenômeno, o de “não lugar”. Neles, as pessoas circulam, mas raramente estabelecem relações significativas com o espaço ou entre si. É o oposto dos lugares que carregam história, afetos e experiências compartilhadas.
Aeroportos, estacionamentos, pontes e grandes vias expressas costumam ser exemplos clássicos. Segundo a pesquisa, foi isso que aconteceu com o Rio Poti. Se tornou apenas um elemento observado da janela do carro ou atravessado pelas pontes. Uma cidade que nasceu dos rios passou a viver de costas para eles.
A proposta apresentada vai além da recuperação ambiental. Defende a criação de uma nova relação entre Teresina e suas águas, por meio de passeios náuticos, píeres de convivência, ciclovias integradas às margens, atividades esportivas, turismo sustentável, gastronomia fluvial e monitoramento ambiental com tecnologias de ponta. Algumas ideias são ousadas e terão que passar por estudos de viabilidade e investimentos significativos.
O destaque da pesquisa está na pergunta que ela provoca. Em Teresina, as instituições públicas discutem diariamente os mais diversos temas, muitos deles importantes, sim. Mas quantos desses debates têm, de fato, capacidade de mudar para melhor o dia a dia do teresinense? A situação atual do Rio Poti não surgiu por acaso. Ela é resultado de décadas de decisões urbanas que afastaram a cidade de suas águas e reduziram o rio a uma preocupação ambiental. A pesquisa propõe um olhar diferente: enxergar o Poti não apenas como algo que precisa ser preservado, mas como um patrimônio vivo, capaz de produzir pertencimento, desenvolvimento e novas formas de ocupar a cidade.


