A obra que atravessou onze governos

Às 16h da última segunda-feira, um navio de 109 metros entrou no canal de navegação do Porto Piauí. Era o Konta II, graneleiro com capacidade para 9 mil toneladas de minério de ferro. Uma hora depois, atracou no Berço 401. Foi a primeira atracação de carga na história da Companhia Porto Piauí.

Temos um navio que atracou, um galpão que recebe cem carretas por dia, um contrato que prevê toneladas específicas para os próximos dois anos e um canal que ainda precisa ser aprofundado para operar na escala que o projeto promete desde a década de 1960.

O ganho concreto por trás da estrutura é logístico e relevante. Hoje, levar minério, grãos ou qualquer carga produzida no Piauí até um porto de outro estado, e só então embarcá-la para o exterior, é um pedágio que encarece tudo o que o estado vende e deixa arrecadação de impostos fora de suas fronteiras. Um porto próprio significa uma rota mais curta entre o que o Piauí produz e o mercado que compra. É isso que justifica uma obra dessa magnitude, arrastada por tanto tempo.

Por enquanto, ela ainda opera em meia escala. É um início. O Konta II não seguirá viagem sozinho: o minério que recebe em Luís Correia será transferido, em alto-mar, para uma embarcação de classe oceânica. É a lógica do “barco-mãe”, ou seja, navios menores levam a carga até navios maiores, que o calado atual do canal ainda não permite receber diretamente. Cinco empresas dividiram as tarefas de apoio e agenciamento marítimo, condução de rebocadores e arqueação, sob monitoramento da Marinha do Brasil, que acompanhou cada etapa de segurança e navegação.

Que um único navio renda uma manchetes e comemorações diz menos sobre o navio do que sobre a longa espera. Os primeiros estudos de um porto no Piauí remontam à década de 1960; as obras começaram em 1976, sob Ernesto Geisel. Em 1986, pararam pela primeira vez, por falta de recursos, e ficaram paradas por 22 anos. Em 2008, o então governador Wellington Dias as retomou com um aporte inicial de R$ 10 milhões. Em 2011, uma fiscalização do Tribunal de Contas da União apontou irregularidades, e o contrato com a empresa responsável foi rescindido. Ao longo dessas décadas, o investimento acumulado chega a R$ 390 milhões. Foi uma obra que atravessou governos sem pertencer a nenhum deles.

O passo institucional decisivo veio em dezembro de 2023, na gestão de Rafael Fonteles, do PT, quando o Ministério dos Portos e Aeroportos e a Antaq concederam a Declaração de Terminal de Uso Privado, autorização que permitiu a chegada simbólica de um primeiro navio, da Marinha, à estrutura ainda incompleta. Essa etapa recebeu R$ 110 milhões. De lá para cá, o porto seguiu em testes e ampliação, sem carga comercial até segunda-feira.

O minério que chegou ao Berço 401 vem de Piripiri, a 180 quilômetros do litoral, onde a Lion Mining opera desde 2023 e produz 1,5 milhão de toneladas por ano, tendo a China como principal compradora. Em setembro, a mineradora e a Companhia Porto Piauí assinaram um contrato prevendo embarques de até 1 milhão de toneladas em 2026, com expectativa de dobrar o volume em 2027. O estado tem reservas estimadas em mais de 1 bilhão de toneladas de minério de ferro e produção anual em torno de 1 milhão e a viabilidade de um porto, no jargão do setor, depende de volume. É esse volume que o Piauí começa, agora, a testar na prática.

A meta imediata, anunciada pelo governo estadual, é a primeira exportação efetiva para a China ainda nesta semana. Em paralelo, discute-se a dragagem que ampliaria o calado do canal, primeiro para 11 metros, depois para 14, condição para receber navios maiores sem transbordo. O terminal pesqueiro entregou sua primeira fase e segue em expansão; a integração ferroviária e o complexo industrial permanecem no terreno do médio e longo prazo, sem data.

Os críticos da gestão atual têm chamado a operação de improviso: com profundidade entre 7 e 9 metros, abaixo dos 14 necessários para receber diretamente navios de até 100 mil toneladas, o canal ainda obriga ao transbordo em alto-mar. A objeção é legítima, mas convive com um dado igualmente real: pela primeira vez na história do projeto, um navio de carga atracou e operou no Porto Piauí. Um porto que ainda não está pronto é, ainda assim, mais porto do que um que nunca saiu do papel.

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