Do “dom dos dias” à “disrupção”: como as escolas campeãs do Enem, São José e Dom Barreto, movem o mercado da educação no Piauí

No Piauí, escola nunca foi apenas escola. No estado, historicamente acompanhado por marcadores de pobreza, estudar ainda é uma das formas mais legítimas de mudar de lugar na vida. Para muitas famílias, a aprovação em Medicina, Direito, Engenharia ou em uma universidade pública representa segurança, orgulho, mobilidade social e, em alguns casos, entrada em redes profissionais e políticas que acompanham o estudante por décadas.

Não por acaso, como já ressaltou um editorial do Boletim Brio, o ranking do Exame Nacional do Ensino Médio virou uma verdadeira Copa do Mundo das escolas no Piauí.

Para entender como esse mercado da educação funciona no Piauí, o Boletim Brio conversou com duas escolas que apareceram com destaque nacional nessa lista e figuraram entre as duas primeiras no ranking regional. A primeira delas foi o Instituto São José, da Zona Leste, com o diretor José Rangel.

Do Mocambinho para a zona Leste e ao topo do ranking

O Instituto São José nasceu na Zona Norte de Teresina, no Mocambinho, a partir do projeto da professora Rosimar Bezerra, que foi aluna, professora, coordenadora e diretora da rede pública antes de criar a própria escola. Da origem em uma região fora do eixo mais tradicional das escolas particulares da capital, o São José expandiu até chegar também à Zona Leste.

O atual diretor, José Rangel, descreve o modelo adotado pela escola em uma palavra: disrupção. Segundo disse em entrevista à apuração, a aposta do São José é que “um aluno feliz, acolhido, emocionalmente equilibrado e com sentimento de pertencimento aprende mais e melhor”.

Diretor do São José, José Rangel Bezerra (Foto: reprodução Instagram)

Segundo Rangel, o desempenho acadêmico não depende apenas da sala de aula, mas de um conjunto de fatores que inclui acolhimento, bem-estar, estrutura física, tecnologia, esporte, cultura, acompanhamento psicológico e proximidade com a família.

Essa é uma fala importante porque demonstra uma mudança no próprio mercado educacional. A escola particular já não vende apenas conteúdo, professor forte e aprovação no vestibular. Vende também o ambiente.

“Eu diria que o Instituto São José é uma escola disruptiva porque compreendeu, antes de muitas outras instituições, que o desempenho acadêmico não depende apenas do que acontece dentro da sala de aula. O aprendizado é consequência de uma experiência educacional completa. Nós entendemos que um aluno feliz, acolhido, emocionalmente equilibrado e que se sente pertencente à escola aprende mais e aprende melhor […] A nossa fórmula é simples de explicar, embora muito difícil de executar: nós cuidamos do aluno por completo. Quando ele está bem emocionalmente, recebe acompanhamento individualizado e encontra um ambiente que valoriza o estudo e o incentiva a dar o seu melhor todos os dias, a excelência deixa de ser um objetivo distante e passa a ser uma consequência”, explicou o diretor.

“Estudante de hoje é diferente do estudante de vinte anos atrás”

Instituto São José (Foto: montagem)

Perguntado sobre a postura mais contemporânea adotada pela escola, visível nas redes sociais, onde o feed mistura alunos exibindo medalhas esportivas, ambientes modernos de estudo, o próprio diretor em publicações com o cabelo descolorido e até a aquisição de um robô humanoide, Rangel diz que nada disso é apenas para ser bonito ou chamar atenção. Segundo ele, trata-se de “uma escolha estratégica e muito consciente”.

“Durante séculos, o ambiente escolar mudou muito pouco, preservando modelos que funcionaram por gerações. Nós respeitamos profundamente essa tradição, mas entendemos que tradição não pode significar imobilismo. O estudante de hoje é diferente do estudante de vinte anos atrás. Ele aprende de formas diferentes, se comunica de maneira diferente e tem novas expectativas sobre a experiência escolar. Ignorar essa realidade seria um erro. O que o São José fez foi reinventar a experiência escolar. Procuramos compreender o que essa nova geração valoriza e criar uma escola que dialogasse com esses estudantes, tornando o ambiente mais acolhedor, mais inspirador e mais conectado com o seu tempo”, destacou.


O modelo mais “cool” não deixa de ser exigente com os alunos, segundo Rangel, ressaltando que um ambiente inspirador desperta pertencimento, motivação e engajamento. E um aluno engajado aprende mais.

Diretor do São José, José Rangel Bezerra (Foto: reprodução Instagram)

“O São José continua sendo extremamente exigente em relação ao desempenho acadêmico. A diferença é que acreditamos que excelência e inovação caminham juntas. Não queremos que o aluno venha à escola apenas por obrigação. Queremos que ele tenha orgulho de estudar aqui, que se sinta feliz, acolhido e motivado todos os dias. Talvez esse seja um dos nossos maiores diferenciais em relação aos modelos mais tradicionais. Enquanto algumas escolas ainda enxergam a educação apenas como transmissão de conteúdo, nós entendemos que educar é proporcionar uma experiência completa de desenvolvimento. O conhecimento continua sendo o centro de tudo, mas a forma de ensinar e de viver a escola precisa acompanhar o tempo em que vivemos”, destacou.

A pressão do Enem e a saúde mental

Na entrevista, saúde mental também foi um tópico levantado pela coluna. Questionado sobre a autocobrança e a exigência por alto desempenho, principalmente no Enem, o diretor do Instituto São José defendeu que a escola não deve tratar o exame como uma travessia feita à base de sofrimento.

“Durante muito tempo, acreditou-se que o caminho era simples: quem alcançava o sucesso acabava sendo feliz. Hoje, a neurociência mostra justamente o contrário. Pessoas emocionalmente saudáveis, felizes e equilibradas desenvolvem melhor suas capacidades cognitivas, aprendem com mais eficiência, são mais criativas, resilientes e, consequentemente, têm mais chances de alcançar o sucesso”, afirmou.

Instituto São José (Foto reprodução)

Para Rangel, essa compreensão muda a forma de educar. Ele ressaltou que a escola trabalha com uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, psicopedagogos, coordenadores e professores, responsáveis por acompanhar os estudantes de perto.

“Nós entendemos que aprovar um aluno em Medicina é uma grande conquista, mas formar um jovem emocionalmente saudável, confiante, preparado para a vida e apaixonado pelo conhecimento é uma conquista ainda maior”, disse.

Ele também ressaltou que a escola cobra e desafia, mas sem perder de vista os alunos como pessoas.

“Nós somos uma escola que cobra, que desafia e que prepara para grandes conquistas. Mas fazemos isso sem perder de vista aquilo que realmente importa: as pessoas. Não acreditamos que seja preciso sacrificar a felicidade para conquistar grandes resultados. Pelo contrário. A nossa experiência e as evidências científicas mostram que o equilíbrio emocional potencializa o desempenho acadêmico”, disse.

O peso do nome Dom Barreto

O Instituto Dom Barreto começou no Centro de Teresina, região que por décadas concentrou parte importante da vida educacional, política e administrativa da capital. A escola atravessou gerações ocupando um lugar quase mítico no imaginário piauiense: sinônimo de melhor desempenho no Enem, de aprovação em cursos concorridos e de formação de uma elite técnica que depois ocuparia universidades, empresas e governos. O caso mais visível é o do atual governador Rafael Fonteles, que iniciou a vida escolar no Dom Barreto e costuma associar sua trajetória acadêmica à formação recebida na instituição.

Questionada pelo Boletim Brio, a diretora Marcela Rangel Farias evita atribuir os resultados do Instituto Dom Barreto a uma “fórmula mágica”. Para ela, a regularidade da escola no Enem é resultado de uma engrenagem construída ao longo de muitos anos. “O nível de exigência, o hábito da leitura, a escrita formal e o raciocínio lógico são desenvolvidos de forma progressiva, tornando o formato do Enem uma consequência natural do aprendizado, e não um choque de conteúdo”, afirmou.

Marcela Rangel (Foto reprodução)

“O dom dos dias”

Na fala da diretora, o processo é definido como “o dom dos dias”. A expressão ajuda a entender como a escola enxerga o próprio resultado.

“Acreditamos, antes de tudo, no que chamamos aqui no IDB de ‘o dom dos dias’. A escola, toda escola, é feita de encontros todos os dias, de memórias, histórias, sonhos e escolhas que decidimos renovar e/ou refazer ao longo destes oitenta anos. É um processo de longo prazo: para a grande maioria dos nossos alunos, essa caminhada começa na Educação Infantil, tem continuidade no Ensino Fundamental e finaliza no Ensino Médio”, disse.

Segundo Marcela, cerca de 90% dos alunos estão no Dom Barreto desde o Ensino Infantil, muitos deles desde o infantário, com 1 ano de idade. “Mas mesmo os alunos novatos conseguem captar rapidamente a filosofia da escola. Buscamos uma formação integral, fortemente marcada pelo legado do Professor Marcílio Rangel e pela continuidade de sua visão, que sempre priorizou a formação do cidadão”, explicou.

Dom Barreto (Foto reprodução/ Instagram)

O legado de Marcílio Rangel

O nome de Marcílio Rangel aparece como eixo da identidade da escola. Na entrevista, Marcela associa o legado do fundador à excelência acadêmica e à forma de olhar para a vida escolar.

“Com o professor Marcílio, aprendemos que tudo o que se vive na escola deve nos interessar muitíssimo: cada gesto, cada palavra, cada silêncio, cada sorriso, cada dúvida, cada encontro e cada desencontro, porque para ele todos nós éramos pessoas únicas e muito especiais. Uma escola são muitos, e cada um destes muitos é único. Aprender cotidianamente a conviver com a pluralidade é a nossa maior riqueza e nosso propósito”, destacou.

Professor Marcílio do Dom Barreto (Foto reprodução)

Na rotina pedagógica, a diretora afirma que a escola trabalha com disciplinas e atividades voltadas ao pensamento crítico, à sensibilidade artística, à responsabilidade social e ao raciocínio matemático. Esse projeto, segundo ela, tem um currículo mais amplo e mais tempo para ser cumprido, com disciplinas complementares e optativas.

“Todo este processo exige de nós um alargamento do currículo e do tempo para cumpri-lo, o que é feito com a incorporação de disciplinas complementares e optativas. Há uma forte sinergia entre corpo docente, coordenações, direção e famílias. Os professores conhecem profundamente a identidade da escola e mantêm um padrão de excelência, enquanto se cria no aluno um sentimento de orgulho e responsabilidade por fazer parte dessa história”, afirmou.

Instituto Dom Barreto (Foto reprodução)

Tradição e metodologia inovadora 

Já em relação ao ranking que considera mais de 100 alunos, o IDB está em primeiro lugar no Piauí e do Brasil. 

“Os resultados permanentes do IDB, que figura há mais de 15 anos entre as melhores escolas do Brasil, é reflexo de uma trajetória de 82 anos que une experiência, solidez e permanente capacidade de inovação, mostrando que uma instituição consolidada pode estar na vanguarda da educação. Com um projeto educacional pautado em metodologias inovadoras, tecnologias embarcadas, aprendizagem ativa e formação integral, a escola valoriza as olimpíadas do conhecimento, a iniciação científica, o pensamento computacional, o esporte e experiências que conectam teoria e prática, preparando os estudantes para os desafios do presente e do futuro”, declarou.

Saúde mental: “novas gerações estão absolutamente cobertas de razão ao exigir esse debate”

Na entrevista, a saúde mental dos alunos também foi abordada. Marcela pontuou que as novas gerações estão corretas ao exigir esse debate e defende que alto desempenho não deve ser confundido com exaustão. Para ela, um estudante esgotado pode até decorar fórmulas no curto prazo, mas tende a perder capacidades fundamentais para a aprendizagem.

“É perfeitamente possível, e as novas gerações estão absolutamente cobertas de razão ao exigir esse debate. Um estudante exausto, ansioso ou deprimido pode até conseguir decorar fórmulas no curto prazo, mas perderá a capacidade de análise crítica, a criatividade e a resiliência emocional”, disse. “A escola cuida da técnica e do ambiente acadêmico, e a família é o ecossistema emocional que sustenta o jovem. Pais e Escola precisam falar a mesma língua. Quando a família confia no projeto pedagógico da instituição e colabora para que o lar seja um refúgio de paz (e não uma extensão da sala de aula), o estudante ganha a segurança necessária para render o seu máximo”, afirmou.

Instituto Dom Barreto (Foto reprodução)

A Escola Popular e a promessa de inclusão

Outro ponto levantado pela coluna foi a relação entre o Instituto Dom Barreto e a Escola Popular Madre Maria Villac, que é pública e administrada pelo IDB, também apareceu entre as melhores do Piauí no ranking do Enem. Segundo Marcela, o compartilhamento entre as duas instituições é “total e incondicional”, com reuniões pedagógicas, planejamentos, sistema de notas e nível de exigência aplicados nos dois espaços.

“O compartilhamento é total e incondicional. Todas as reuniões pedagógicas, planejamentos, sistemática de notas e nível de exigência são aplicados tanto no Instituto Dom Barreto quanto na Escola Popular Madre Maria Villac. O intercâmbio de experiências e o impacto desse modelo podem ser compreendidos sob a ótica de que uma boa educação não precisa ser um privilégio isolado”, destacou.

Para a diretora, a escola pode funcionar como uma alavanca contra desigualdades: “O Instituto Dom Barreto assume para si a responsabilidade de fornecer o repertório cultural, o ambiente seguro e os estímulos corretos para o potencial cognitivo do aluno florescer em sua totalidade. A escola deixa de ser um espelho que apenas reflete as desigualdades da sociedade e passa a ser uma alavanca que as transforma”, afirmou.

Escola Popular Madre Maria Villac (Foto reprodução)

Mercado da educação movimenta todo o Piauí

O ranking do Enem, no fim, é a ponta do iceberg de um mercado muito maior. No Piauí, a educação privada movimenta dinheiro, prestígio, expectativas familiares e redes de influência. Uma escola não oferece apenas sala de aula, professor e simulado. Ela vende um modelo de formação, uma promessa de futuro e, muitas vezes, um lugar simbólico na cidade. Ao escolher onde um filho vai estudar, uma família também escolhe o tipo de convivência que ele terá, os amigos que fará, os repertórios que vai acessar e os espaços sociais que poderá frequentar.

Veja colocação das escolas no estado e no Brasil

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