Marketing de ostentação. Essa é uma das estratégias de venda mais usadas nas redes sociais, especialmente no Instagram. Ela impulsiona negócios legítimos, mas também serve de ferramenta para golpes sofisticados que exploram desejos. Segundo a Polícia Civil do Piauí, que investiga golpes que geraram prejuízo de mais de R$ 100 milhões a 70 vítimas, esse era o método utilizado para atrair investidores.
O caso tem como principal investigado o trader Douglas Fonseca, fundador do DF Group, preso durante a operação que apura crimes de estelionato, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Uma rotina cuidadosamente construída de carros de luxo, viagens e relógios caros compunha uma vida apresentada como resultado de sucesso financeiro. A polícia afirma que a empresa prometia rentabilidade mensal de até 10% e que parte da imagem de prosperidade divulgada nas redes sociais era produzida para transmitir credibilidade e conquistar novos investidores. As acusações ainda serão analisadas pela Justiça.
A psicanálise tem um nome para o mecanismo que sustenta esse tipo de relação: o sujeito-suposto-saber. É a figura a quem atribuímos um conhecimento que não podemos verificar: o médico, o analista, o especialista. A relação não se sustenta em provas, mas em crença. O investidor que entrega suas economias a um trader não está comprando rentabilidade de 10% ao mês; está comprando a fantasia de que existe alguém com acesso a um segredo do mercado que ele próprio não tem. O dinheiro é quase um detalhe. O que se transfere é a confiança de que o outro sabe.
Isso explica um dado que costuma surpreender: golpes financeiros não atingem apenas os desinformados. Atingem médicos, empresários, servidores de carreira, gente que sabe, em tese, que rentabilidade garantida de dois dígitos ao mês não existe. Mas o saber técnico não protege contra a fantasia. Pessoas com menos recursos podem ser atraídas pela promessa de mudar de vida. Pessoas ricas, por outro lado, não caem porque ignoram as regras do mercado; caem porque desejam acreditar que alguém as transcendeu. Quanto maior o patrimônio, maior a ansiedade de preservá-lo, e maior a disposição de terceirizar essa angústia a quem exibe os sinais de tê-la resolvido. Em ambos os casos, o golpe se adapta ao desejo da vítima. A promessa financeira é apenas o veículo; o verdadeiro produto vendido é uma fantasia. O desejo de parecer muitas vezes ocupa o espaço do desejo de ser.
O carro de luxo e o relógio caro funcionam como o diploma na parede do consultório, atestam um saber que ninguém vai auditar. E aqui está a inversão perversa: no consultório, o diploma foi verificado por alguém; no Instagram, a vitrine se autentica sozinha. A imagem de sucesso torna-se, ao mesmo tempo, a promessa e a única evidência da promessa.
É essa suposição de saber que a prova social vem sustentar quando falta qualquer outra evidência. Quando alguém exibe riqueza, cercado por símbolos de sucesso e por pessoas que aparentemente já confiaram nele, muitos concluem que, se deu certo para tantos, deve ser verdadeiro. Essa percepção reduz o senso crítico. Aos olhos de quem observa, a aparência de sucesso se transforma em critério de verdade. Quanto mais perfeita a vitrine, menor tende a ser a disposição para questionar o que existe por trás dela.
Enquanto a imagem valer mais do que a realidade, haverá espaço para todo tipo de promessa, seja ela verdadeira ou não.


