O príncipe, o preço e a promessa de ser salva

A morte de Isabelle Caracristi ainda não tem explicação oficial. Mas a comoção que ela provocou toca numa história que muitas mulheres aprenderam a desejar.

Na noite de domingo (13/09), em Fortaleza, no Ceará, Isabelle Caracristi mandou para a mãe uma frase curta pelo WhatsApp: “Mãe, eu te amo”. A mãe respondeu que também amava e lembrou a filha de tomar o relaxante muscular. Depois esperou o boa-noite que Isabelle enviava todas as noites. Ele não chegou.

Isabelle tinha 22 anos, cursava Direito e foi encontrada morta em um condomínio da capital cearense. A perícia descreveu lesões compatíveis com impacto contra o solo. A polícia procura o namorado, recuperou o celular de Isabelle e apreendeu aparelhos da mãe dele. As câmeras ajudam a reconstruir os movimentos daquela noite, mas ainda faltam respostas. Há perguntas, não conclusões, e cabe à investigação dizer o que aconteceu.

Este editorial não pretende explicar sua morte. Quer pensar numa história muito anterior a ela, que ajuda a entender por que tantas mulheres se reconheceram tão depressa nessa tragédia.

Desde cedo, meninas aprendem que a vida adulta tem uma porta de entrada e que, muitas vezes, essa porta tem a forma de um homem. É ele quem chega, escolhe, protege, conduz e promete um futuro. Os contos de fadas apenas deram figurino a uma pedagogia muito maior, espalhada pelas novelas, pelas músicas, pelos conselhos de família e pela velha suspeita de que uma mulher sozinha, por mais realizada que seja, ainda está esperando que alguma coisa aconteça.

Nos anos 1980, a autora Colette Dowling chamou de “complexo de Cinderela” o conflito entre a autonomia conquistada pelas mulheres e o desejo persistente de serem cuidadas. Quase meio século depois, talvez Cinderela não esteja morta, apenas atualizou o guarda-roupa. A mulher contemporânea trabalha, estuda, paga as próprias contas, viaja sozinha e escolhe parceiros. Ainda assim, pode carregar um roteiro antigo: em algum momento aparecerá alguém capaz de inaugurar uma vida maior do que aquela que ela construiu com as próprias mãos.

O problema da fantasia da salvação não é a ternura que ela promete e sim a dívida que ela cria. Quem acredita ter sido salva pode começar a acreditar que deve alguma coisa ao salvador, e dívidas afetivas raramente são cobradas em dinheiro. São pagas em disponibilidade, concessões, silêncios, afastamentos, pequenas renúncias. Não porque toda proteção esconda controle, nem porque todo homem que cuida queira dominar. Mas porque uma relação fundada na ideia de que um salvou e o outro foi salvo já nasce com uma pergunta sobre poder: quem passa a deter a autoria dessa nova vida?

É aí que certas fronteiras ficam menos visíveis. Cuidado se confunde com tutela, intensidade com profundidade, ciúme com importância, querer estar junto com precisar estar sempre junto. E a mulher pode não perceber que está negociando pedaços de autonomia, porque cada concessão, isoladamente, parece pequena.

Não se sabe se algo disso atravessou a relação de Isabelle. Mas a rapidez da identificação com o caso sugere que muitas mulheres preencheram essa lacuna com a própria memória.

Nada disso transfere às mulheres a responsabilidade pela violência que eventualmente sofram. A fantasia da salvação não foi inventada por cada mulher em particular. Foi ensinada, repetida durante gerações e transformada em ideal amoroso. O que precisa ser interrogado não é a mulher que acreditou no roteiro. É o roteiro.

Desde que o caso veio a público, horários de câmera viraram prova, hipóteses circularam com a firmeza de sentenças e pessoas ainda não responsabilizadas pela Justiça passaram a ser julgadas nas redes. A indignação é compreensível; a pressa, não. Um julgamento feito pela internet não honra a memória de Isabelle e pode fragilizar justamente a apuração de que a família dela precisa.

O que cabe exigir agora é concreto: uma investigação conduzida com transparência, prazos conhecidos e laudos capazes de resistir a qualquer suspeita.

Isabelle poderia ser uma filha, uma amiga, uma colega de faculdade, uma jovem que acabou de entrar em um estágio e acredita ter encontrado a pessoa que mudará sua vida. Mas essa comoção não pode terminar no consumo de vídeos, na especulação sobre câmeras ou na condenação instantânea de pessoas ainda não responsabilizadas pela Justiça. A solidariedade madura transforma indignação em exigência de investigação séria, educação para relações não violentas, apoio psicológico e políticas de proteção.

Nenhuma escolha afetiva, nenhuma mensagem respondida, nenhuma confiança depositada, nenhuma decisão tomada por uma mulher transfere para ela a responsabilidade pela violência que eventualmente possa sofrer. Mas proteger outras mulheres exige que consigamos conversar sobre essas escolhas sem culpabilizá-las, tendo a consciência que há uma cultura que vulnerabiliza mulheres.

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