Luan Matheus não sonhava em ser jornalista desde menino. Não havia uma vocação antiga, dessas que parecem organizar a vida retrospectivamente, como se cada escolha da infância apontasse para um destino. Quando chegou a hora do vestibular, ele fez o caminho inverso e foi eliminando os cursos que não queria. Jornalismo ficou entre os que sobraram. Não era, ressalva, uma opção de concorrência baixa. Ainda assim, inscreveu-se e passou. Em 2009, entrou no curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Piauí, a Uespi.
A universidade o encontrou em movimento. Luan nasceu em Teresina, mas foi cedo para Piripiri, cidade da família materna. Sua infância e adolescência foram vividas ali. Parte da história da família está também no Caldeirão, comunidade rural. Ele veio de uma casa de trabalhadores. O pai atuava na indústria da refrigeração; a mãe, na indústria da confecção. Os avós eram agricultores.
Em 2010, já à frente do Centro Acadêmico de Comunicação, participou do movimento SOS Uespi, que ganhou repercussão nacional. Nos anos seguintes, esteve nas mobilizações contra o aumento da passagem de ônibus. Atualmente, é doutor em Comunicação e professor. É esse percurso, da escola pública em Piripiri à universidade; do centro acadêmico às mobilizações pelo transporte; da formação em jornalismo às organizações sociais, que ajuda a explicar sua chegada à presidência do Sindicato dos Jornalistas do Piauí, há cerca de um mês.

Ao Boletim Brio, ele afirma estar diante de uma estrutura sindical que precisa ser reconstruída em todos os aspectos. O desafio, segundo ele, é fazer com que o sindicato volte a ser uma referência para a categoria, tanto na formação e na promoção de debates importantes para a profissão, quanto na defesa de direitos e de iniciativas de fortalecimento.
Boletim Brio: Como o senhor avalia o cenário do jornalismo no Piauí hoje? Quais são os principais problemas que afetam a qualidade da informação e o exercício da profissão no estado?
Luan Matheus Santana: Um dos principais problemas nesse conjunto é a precarização das relações de trabalho. Temos hoje, no Piauí, um mercado ainda concentrado, baixos salários, vínculos frágeis e o avanço da pejotização, que considero um dos grandes problemas que estamos enfrentando. Jornalistas formados trabalham como pessoas jurídicas ou microempreendedores individuais quando, na verdade, deveriam ter seus contratos e direitos trabalhistas assegurados, além do direito a um futuro digno, com uma aposentadoria justa. O que temos visto acontecer, porém, é o contrário.
Esses vínculos cada vez mais frágeis precarizam o trabalho e submetem os profissionais a jornadas que extrapolam os limites razoáveis, além de oferecerem baixos salários. Estamos diante de uma rotina de sobrecarga que dificulta a produção de reportagens aprofundadas e reduz o tempo disponível para apuração, checagem e investigação. Isso, evidentemente, afeta também a saúde mental dos trabalhadores. Uma pesquisa recente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) apontou que cerca de metade dos jornalistas relatou problemas relacionados à saúde mental. Burnout, ansiedade e outros problemas fazem parte desse cenário de relações frágeis e precarização do trabalho.
A qualidade da informação também é afetada por esse conjunto de fatores. Outro aspecto que precisamos observar é a existência de redações cada vez mais enxutas, com poucos jornalistas contratados e muitos estagiários. Em nome da redução de custos, esses estudantes acabam, muitas vezes, assumindo funções de profissionais, recebendo menos da metade do que deveriam receber e cumprindo jornadas que extrapolam os limites legais do estágio. Ou seja, a precarização não atinge apenas os profissionais já formados. Os próprios estudantes ingressam no mercado de trabalho submetidos a esse processo.
Além disso, precisamos olhar para os impactos das novas tecnologias, especialmente da inteligência artificial. Essas ferramentas podem contribuir para o trabalho jornalístico, mas seu uso precisa seguir critérios técnicos, garantir transparência e estar associado à valorização dos profissionais. Sem esses cuidados, podemos caminhar para um cenário de ampliação da desinformação, substituição de trabalhadores e produção de conteúdos sem apuração adequada, entre uma série de outros problemas que também precisamos considerar.
Boletim Brio: A inteligência artificial já está transformando as rotinas de produção, apuração, edição e distribuição de conteúdo. Como o senhor avalia os impactos dessa tecnologia sobre o trabalho dos jornalistas? Como aproveitar as possibilidades da IA sem comprometer a qualidade da informação, a autoria, a responsabilidade profissional e os postos de trabalho?
Luan Matheus Santana: O primeiro é um contexto mais político, porque precisamos ter um olhar crítico para o uso da inteligência artificial, para a chegada dessas tecnologias. Não apenas pelo impacto que elas terão no cotidiano do nosso trabalho, que já está acontecendo e deve se intensificar muito mais, mas também por uma perspectiva mais ampla, porque isso não está desconectado do que acontece no mundo.
Precisamos olhar para a inteligência artificial do ponto de vista ambiental. Até quando vamos conseguir produzir informações para serem armazenadas em nuvens que gastam milhões e milhões de metros cúbicos de água para o resfriamento dos data centers? Até quando a humanidade será capaz de fazer isso? Qual é o volume de informação que vamos precisar produzir até chegarmos a um colapso? Precisamos enxergar essas questões para também estabelecer limites, em vez de ficar produzindo e armazenando informações continuamente, até chegar o momento em que não tenhamos mais condições ou capacidade de sustentar esse modelo.
Não seria melhor pensarmos em limites e em condições para que eles sejam estabelecidos desde já? Assim, poderíamos utilizar a inteligência artificial sem comprometer o nosso futuro e o futuro da humanidade. Também precisamos pensar do ponto de vista da geopolítica mundial. Qual é a nossa posição nesse cenário? Vamos, mais uma vez, apenas receber os ônus da geração dessas tecnologias, armazenando informações em data centers de gigantes que consomem nossas águas? Até quando teremos capacidade de suportar isso?
Esse é um ponto que considero importante para uma reflexão mais ampla. Mas, chegando ao presente, à realidade de como a inteligência artificial já chegou ao jornalismo e está impactando nossa organização de trabalho e nossa dinâmica de produção, precisamos, claro, criar mecanismos para mitigar esses impactos, tanto na rotina profissional quanto na qualidade da informação que produzimos.
Se não criarmos mecanismos claros para o uso da inteligência artificial, correremos sérios riscos. Se, por um lado, temos tecnologias capazes de otimizar processos e reduzir o tempo necessário para determinadas tarefas, por outro, podemos chegar a uma sobrecarga ainda maior de trabalho. Aquilo que eu levava 30 minutos para fazer, como revisar um texto de duas páginas, conferir a escrita e verificar se estava tudo correto, hoje posso fazer em 30 segundos, utilizando um revisor automático baseado nas regras da ortografia brasileira. Estou reduzindo o tempo de 30 minutos para 30 segundos. Mas o que vou fazer com o tempo que sobra? Será que não vou receber mais trabalho? Em vez de revisar um texto, será que não terei de revisar dez?

Boletim Brio: O Piauí também tem acompanhado o surgimento e o fortalecimento de iniciativas independentes de comunicação, que encontram nas redes sociais e nas plataformas digitais novas formas de alcançar o público. Nomes como Silas TV e IelTV são exemplos que podem ajudar a discutir esse movimento. Como o sindicato enxerga essa nova configuração do mercado?
Luan Matheus Santana: Eu tomaria um certo cuidado ao chamar essas iniciativas de comunicação de independentes. Acho que existe, claro, um fator de inovação nessas iniciativas, e aqui estou falando das que você citou, Silas e Ieldyson, por apostarem no digital e na internet como espaços de disseminação de informações. TVs digitais, rádios digitais, podcasts: tudo isso faz parte de um contexto que as novas tecnologias têm possibilitado, permitindo disputar audiência com os grandes conglomerados de comunicação que, há décadas, constituíram uma hegemonia da audiência no Piauí e no país como um todo.
Mas eu teria cuidado ao chamá-las de iniciativas independentes. Como pesquisador de jornalismo independente, entendo que a independência, quando falamos de jornalismo, está relacionada, sobretudo, a uma prática que não se orienta pela lógica do mercado. O jornalismo independente está mais atrelado a uma produção que não se organiza a partir de uma perspectiva mercadológica, ou seja, que não se estrutura no formato de empresas.
Do ponto de vista da lógica de organização, a TV do Ieldyson e a TV do Silas, por exemplo, não diferem muito da TV Globo ou da TV Cidade Verde. Existe uma lógica semelhante, que está impregnada no jornalismo local: a de um jornalismo sustentado pela venda de publicidade e pelos acordos comerciais que esses veículos estabelecem com governos, prefeituras e outros anunciantes.
Portanto, não há necessariamente uma mudança de lógica, mas uma mudança de formato. Apesar disso, existe também um conjunto de iniciativas de produção de conteúdo jornalístico independente que está em processo de construção. Claro que elas não têm a mesma audiência dos grandes veículos, mas geram transformações na maneira como percebemos o jornalismo, a imprensa e os próprios espaços de trabalho jornalístico. Nesses casos, as relações de trabalho e a produção de conteúdo não estão necessariamente subordinadas à lógica do mercado. Não são as relações mercadológicas que ditam as regras, mas, de fato, o interesse público.
Boletim Brio: Com o crescimento das redes sociais, a desinformação e a circulação de notícias falsas, qual deve ser o papel do jornalismo profissional para recuperar a confiança da população e combater a manipulação da informação?
Luan Matheus Santana: Bom, aqui vou partir de um consenso: vivemos em uma sociedade marcada por um contexto de crise. Crises sociais, políticas, em maior ou menor escala, econômicas e ambientais. Todo esse cenário, que parece não ter fim e em torno do qual estamos circulando o tempo inteiro, também coloca o jornalismo dentro de um contexto de crise. Nós não estamos à parte disso.
Há muito tempo, o jornalismo profissional vive uma crise de credibilidade. E essa crise se deu, sobretudo, pelas relações que as próprias empresas de comunicação foram estabelecendo ao longo da história. Vimos, em diferentes contextos históricos, o principal conglomerado midiático do nosso país, o Grupo Globo, apoiar a ditadura militar e, décadas depois, precisar se retratar pelo que fez. Vemos ainda hoje veículos de comunicação como a Folha de S.Paulo declarando abertamente seus posicionamentos políticos e afirmando, por exemplo, que as eleições presidenciais deste ano representam uma escolha muito difícil para o país, como também aconteceu nas últimas eleições. A Veja também tem assumido posições.
Nesse contexto, é importante separar imprensa de jornalismo. A imprensa, ou seja, essas empresas, acaba tendo seus próprios compromissos e interesses. A neutralidade nunca foi uma opção para essas empresas, que precisam se comprometer com alguma coisa. A neutralidade sempre foi um discurso, mas, na prática, nunca existiu.
O jornalismo, porém, é diferente disso. É uma instituição, um pilar da democracia, um espaço de denúncia, investigação e defesa do interesse coletivo. E nós, enquanto profissionais, precisamos disputar esse lugar dentro das próprias empresas jornalísticas. Esse também é o nosso grande desafio.

O papel do jornalismo profissional no enfrentamento à desinformação e às notícias falsas é fundamental. Mas recuperar a confiança da população exige mais do que desmentir conteúdos falsos. É preciso fortalecer a transparência, a qualidade da apuração, a pluralidade de vozes e o compromisso público com a nossa profissão. Precisamos criar mecanismos para que a população tenha confiança de que a informação que recebe foi verificada e construída com ética e responsabilidade.
Boletim Brio: Ataques, ameaças e tentativas de intimidação contra jornalistas preocupam democracias em todo o mundo. Como o senhor avalia esse cenário e quais mecanismos são necessários para proteger os profissionais e garantir a liberdade de imprensa?
Luan Matheus Santana: Esse tema da proteção a jornalistas e comunicadores é fundamental para nós, porque é a partir dela que vamos conseguir extrair as condições necessárias para cumprir nossa função social de investigar e denunciar aquilo que está errado.
Temos visto um cenário de avanço dos ataques a jornalistas e comunicadores no país inteiro. Nestas eleições, até as vésperas do primeiro turno, um sistema de monitoramento da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, já havia identificado mais de 14 mil ataques contra jornalistas, motivados por diferentes razões. Mais de 60% deles foram direcionados a mulheres. Ou seja, existe uma lógica que ainda reproduz essa concepção misógina e machista da nossa sociedade, que impõe às mulheres diversos tipos de violência e violações.
Nós, aqui no sindicato, começamos a atuar há pouco mais de um mês, mas já recebemos algumas denúncias de ataques, violações, ameaças e tentativas de intimidação contra jornalistas. Todas as vítimas eram mulheres negras. Portanto, existe um fator que precisamos observar com muita atenção.
No sindicato, estamos nos colocando à disposição para construir um grupo de trabalho específico para acompanhar esses casos e criar um canal de denúncias. Inclusive, participamos hoje de uma atividade na UESPI sobre proteção legal a jornalistas e comunicadores, discutindo como criar mecanismos que garantam o exercício seguro da nossa profissão, sem nenhum tipo de violação. A atividade foi realizada em parceria com a Universidade Estadual do Piauí e com a OAB, por meio da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão.
A ideia é reunir essas instituições para criar um espaço de acolhimento de denúncias, mas também de intervenção e ação, para evitar que esses casos aconteçam. Logo no início da nossa gestão, deparamo-nos com o caso da jornalista Angela Bispo, que teve grande repercussão no estado. Ela sofreu um ataque racista nas redes sociais e procurou o sindicato. Nós nos posicionamos publicamente, mas entendemos que não era possível tratar um caso como esse apenas como mais um episódio isolado.
Era necessário agir para além da publicação de uma nota de repúdio. A denúncia é importante para dar visibilidade ao caso, e foi o que fizemos, mas era preciso avançar. Procuramos a emissora e iniciamos um diálogo para construir uma campanha institucional que permita abordar abertamente a questão do racismo, não apenas internamente, dentro da empresa, mas também publicamente, com o compromisso de tornar o assunto visível e contribuir para a conscientização da sociedade.
Também queremos envolver outros veículos de comunicação para desenvolver ações conjuntas. Esse foi um passo que já demos. Evidentemente, estamos longe de resolver o problema da desigualdade racial e do racismo no país e no próprio jornalismo piauiense, mas acredito que conseguimos avançar em relação ao que existia antes. Penso que são caminhos como esses que precisamos começar a construir: espaços de acolhimento e denúncia, mas também de apoio às pessoas que são vítimas de violações. Precisamos fazer com que a própria categoria e os profissionais compreendam o que é violência contra jornalistas. A autocensura, por exemplo, também é uma forma de violência.
Boletim Brio: Hoje, grande parte do consumo de notícias passa por plataformas como Instagram, TikTok, YouTube e Google. Essas empresas interferem diretamente na distribuição dos conteúdos, na visibilidade dos veículos e na forma como as pessoas se informam. Como esse cenário afeta o jornalismo profissional?
Luan Matheus Santana: Acho que é isso que você já traz na pergunta: as plataformas já fazem parte do cotidiano da profissão. Muitos anúncios de emprego para jornalistas já exigem habilidades como a produção de textos curtos para redes sociais, a elaboração de cards e a criação de materiais gráficos. Isso parece ter entrado até no escopo da profissão, embora não seja necessariamente uma atribuição do jornalista.
O problema, na verdade, é que as big techs, essas grandes plataformas, não são canais neutros de distribuição. Seus algoritmos definem quais conteúdos ganham mais visibilidade, quais perdem alcance e como as informações chegam aos usuários. Isso ficou muito evidente nestas eleições. Já vimos, inclusive, algumas dessas plataformas reconhecendo esse tipo de interferência. Não temos como acreditar que isso aconteceu de maneira acidental, como se elas tivessem errado apenas para um lado e não para o outro, e que, mesmo assim, nada tivesse sido feito para corrigir o problema.
Se isso acontece em um processo eleitoral tão fiscalizado quanto o que estamos acompanhando no nosso país, imagine o que ocorre no cotidiano, em situações que não conseguimos enxergar com a mesma clareza. Muitas vezes, só conseguimos ver a ponta do iceberg. A falta de transparência sobre as regras dessas plataformas afeta diretamente a distribuição dos conteúdos e tem impactos também na remuneração dos profissionais, na moderação dos conteúdos, na autonomia dos veículos e no próprio pluralismo da informação.
Enquanto essas empresas acumulam dados, audiência e investimentos publicitários, muitos veículos de comunicação enfrentam dificuldades para financiar suas redações. Essa é a realidade de hoje. Quando o conteúdo jornalístico é utilizado para alimentar ferramentas e sistemas de inteligência artificial sem uma remuneração adequada, os produtores de informação também podem perder receita e acesso direto ao público.
Por isso, penso que ainda precisamos avançar na construção de uma regulamentação mais democrática e participativa dessas plataformas, com transparência sobre os algoritmos, regras mais equilibradas de concorrência, proteção dos direitos autorais e mecanismos mais justos de remuneração pelo acesso aos conteúdos jornalísticos. Também precisamos discutir formas de financiamento público e fundos de fomento ao jornalismo que não estejam sujeitos à interferência editorial ou ao controle político sobre os conteúdos produzidos.
Essa preocupação está bastante presente no nosso plano de ação e na carta-programa que construímos, disponibilizada publicamente no perfil do sindicato no Instagram. Propomos a criação de um grupo de trabalho sobre sustentabilidade no jornalismo e regulamentação das plataformas.
Curadoria de viagens por Marcelo Tapety
O que a França pode nos ensinar sobre liberdade? O que os Estados Unidos revelam sobre a cultura empreendedora? E por que a organização institucional da Inglaterra provoca reflexões sobre os desafios brasileiros? Para Marcelo Tapety, empresário piauiense, viajar também é uma oportunidade de investigar essas questões.

Em entrevista ao Boletim Brio, ele compartilha experiências e impressões construídas em diferentes países, mostrando como o contato com outras culturas pode ampliar perspectivas sobre negócios, política, história e sociedade. A conversa percorre lugares que marcaram sua trajetória, discute o papel das instituições no desenvolvimento das nações e revela episódios em que os planos de viagem deram lugar à improvisação. O mundo é grande demais para caber nas nossas certezas.
Boletim Brio: Se pudesse retornar a apenas um lugar visitado ao longo da vida, pelo valor intelectual e humano da experiência, qual escolheria?
Marcelo Tapety: Escolheria a França, sem hesitar. Pelo valor intelectual, mas também pelo humano: é um lugar em que a história não ficou presa nos museus, está nas ruas, nas praças e nas conversas de café.
A França nasce de muitas heranças. Primeiro a Gália celta, depois a romanização, que deixou língua, estradas e cidades. Em seguida vieram os francos de Clóvis e o império de Carlos Magno, que ajudaram a desenhar a Europa medieval. Foi nessa época que Paris virou um dos grandes centros do pensamento, com as catedrais góticas e a Sorbonne, uma das universidades mais antigas do continente. Depois veio o absolutismo de Luís XIV, o Rei Sol, que fez de Versalhes um modelo de poder e de etiqueta para toda a Europa.
O século XVIII muda tudo. Voltaire, Rousseau, Diderot e Montesquieu questionaram o poder absoluto e a ideia de que a ordem social era natural, e em 1789 esse debate virou Revolução. Dela saiu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e o lema “liberdade, igualdade e fraternidade”. Napoleão trouxe depois o Código Civil, que influenciou sistemas jurídicos pelo mundo, inclusive o nosso. O século XIX foi de oscilação entre monarquias, impérios e repúblicas, e o XX trouxe duas guerras mundiais, a ocupação alemã, a Resistência e a reconstrução, até a Quinta República de De Gaulle, que ainda organiza a política francesa.
Poucos países deram tanto à humanidade. Da França vieram o pensamento de Descartes, Beauvoir e Camus, a literatura de Hugo e Proust, o impressionismo, o cinema dos irmãos Lumière, a alta-costura e uma gastronomia reconhecida pela UNESCO. Mais do que uma lista de obras, o país deixou a ideia de que debater e criar fazem parte da vida cívica.

O momento atual, com as manifestações contra o custo de vida e por mais investimento em educação e serviços públicos, mostra um país em tensão. Há dor real de quem sente o orçamento apertar, e houve também episódios de violência que nenhuma causa justifica.
Para mim, nada disso contradiz a grandeza da França, e até a explica. É um país que sempre levou a política para a rua, de 1789 a Maio de 68 e aos coletes amarelos. A tensão entre liberdade e igualdade, entre Estado e cidadão, é a mesma que os franceses discutem há mais de dois séculos. É por isso que sempre quero voltar: um lugar onde as ideias ainda têm consequências.
Boletim Brio: Qual viagem mudou seu olhar e sua forma de enxergar o mundo?
Marcelo Tapety: Os Estados Unidos me despertaram uma reflexão especial. Conhecer um país que alcançou tamanho protagonismo econômico, tecnológico e cultural nos leva a perguntar o que realmente determina o desenvolvimento de uma nação.
Como empresário, o que mais me chamou a atenção foi a capacidade de empreender, de inovar e de transformar ideias em grandes negócios. Lá, errar faz parte do caminho e tentar de novo é visto com naturalidade, e isso cria um ambiente em que as ideias encontram espaço, investimento e escala.
Voltei dessa viagem com uma convicção: desenvolvimento não vem só de recursos, vem de cultura. Vem da forma como uma sociedade valoriza quem arrisca, quem se prepara e quem executa. Desde então, passei a olhar o meu próprio negócio, e o meu país, com mais ambição e com mais atenção ao que podemos aprender e adaptar à nossa realidade.
Boletim Brio: Há algum país cuja organização institucional o levou a refletir sobre os desafios contemporâneos do Brasil? Por qual motivo?
Marcelo Tapety: A Inglaterra. Quando estive lá, o que mais me marcou não foram os monumentos, foi a sensação de que as regras valem para todos e de que as pessoas confiam nelas. Isso não é acaso. Vem de uma história longa, quando os nobres obrigaram o rei a aceitar que o poder tinha limites, e que foi amadurecendo ao longo de séculos, sem grandes rupturas. Cada geração foi ajustando o sistema em vez de recomeçar do zero.

Como empresário, isso me impressiona muito. Lá, quem empreende sabe como as regras serão aplicadas amanhã, e essa previsibilidade é o que dá confiança para investir, contratar e planejar a longo prazo. Também percebi um respeito natural entre os poderes: cada um conhece seu papel e seus limites.
Isso me fez pensar muito no Brasil. Somos um país com enorme potencial, mas hoje o Judiciário está no centro de um debate intenso. Há muitas críticas à atuação do Supremo, sobre o excesso de protagonismo e sobre a falta de previsibilidade em algumas decisões, e isso preocupa quem empreende, porque insegurança jurídica custa caro.
O que a Inglaterra me ensinou é que instituições fortes são aquelas em que todos, inclusive quem aplica a lei, respeitam seus limites.
Boletim Brio: Qual foi o maior choque cultural que enfrentou?
Marcelo Tapety: Não destacaria um episódio específico, mas as diferenças culturais entre os países sempre me chamaram a atenção. A maneira como as pessoas se relacionam, respeitam regras, valorizam suas tradições e organizam a vida cotidiana revela muito sobre cada sociedade. Viajar nos ensina que existem diferentes formas de viver e, principalmente, que podemos aprender com elas.
Boletim Brio: Um destino que não recomenda.
Marcelo Tapety: Tenho dificuldade em não recomendar um destino. Acredito que toda viagem oferece alguma experiência, mesmo quando não corresponde às expectativas. O que pode decepcionar uma pessoa pode encantar outra. Para mim, o mais importante é entender o perfil do viajante e o que ele procura: cultura, gastronomia, natureza, história ou simplesmente descanso.

Boletim Brio: Qual perrengue de viagem mais divertido e inusitado já viveu?
Marcelo Tapety: Foi a caminho de Positano, saindo de Nápoles, pela Costa Amalfitana. Dizem que é uma das estradas mais bonitas do mundo. Também deve ser a mais estreita.
A viagem transcorria tranquila, íamos admirando o mar azul, aquela sensação de estar num filme italiano. Até que os carros que estavam à nossa frente começaram a parar e retornar. Um, dois, dez. Todos retornando com a mesma cara de aborrecimento e sem acreditar no que estava acontecendo.
Parei para perguntar a um motorista. Resultado: ele falava italiano, eu falava “buongiorno” e “pizza”, e a conversa durou dez minutos de mímica que, vista de fora, parecia uma briga de trânsito. Ele fazia um gesto de montanha caindo, eu fazia cara de quem entendeu, mas não entendi nada. Fingi tão bem que ele foi embora satisfeito.
Só depois descobri que um deslizamento de pedras tinha fechado a estrada. Enquanto isso, o GPS teimava em reprogramar a rota, porém sempre retornávamos para a mesma estrada.
Improvisamos um desvio por umas estradinhas que, sinceramente, pareciam que o carro não ia conseguir subir. Tinha curva em que eu rezava para o carro caber. Chegamos a Positano horas depois, mortos de fome e exaustos, mas vivos e com a melhor história da viagem.
Boletim Brio: Qual é o seu top 5 de lugares no mundo?
Marcelo Tapety: França, Inglaterra, Estados Unidos, Itália e Espanha. Cada um por razões diferentes. A França pela riqueza cultural; a Inglaterra pela história e pelas tradições; os Estados Unidos pelo dinamismo e pela capacidade de inovação; a Itália pela arte, arquitetura e gastronomia; e a Espanha pela cultura, pelo estilo de vida e pela gastronomia. São destinos que oferecem experiências muito distintas e ampliam nossa maneira de compreender o mundo.
Bem Te Li: conheça projeto de incentivo ao acesso à leitura no Piauí
O acesso à leitura e a valorização do conhecimento são os pilares do Bem Te Li, projeto social da agência Brio Comunicação, que integra o mesmo ecossistema do site Boletim Brio, fundado pela jornalista Sávia Barreto. A iniciativa nasceu com o propósito de aproximar pessoas do mundo dos livros e estimular o compartilhamento de histórias, ideias e experiências por meio da leitura, tudo isso gratuitamente.

A primeira doação foi feita pela defensora pública-geral do Estado, Carla Yascar, que presenteou o projeto com um livro acompanhado de uma carta na qual compartilha as reflexões e os sentimentos despertados pela obra. Recém-fundado, o projeto já repercute no Piauí e ganhou destaque na TV Clube, afiliada da Rede Globo.
O Bem Te Li aposta no conhecimento como instrumento de transformação social e na generosidade como caminho para despertar novos leitores. Quer fazer parte dessa corrente e saber como doar ou receber um livro? Basta seguir @projeto_bemteli no Instagram para mais informações.
Pra conhecer
Reunindo relatos de 18 autores de diferentes áreas, o livro Diários da Pandemia, publicação da Revista Revestrés, resgata experiências escritas durante o período mais grave da Covid-19, entre 2020 e 2021. Organizada por André Gonçalves, Samária Andrade e Wellington Soares, a obra reúne diferentes olhares sobre uma das maiores crises humanitárias da história recente.
Para a professora e doutora em Comunicação Samária Andrade, o valor da publicação está justamente no contexto em que os textos foram produzidos. “São relatos sinceros, reveladores de um momento que vivemos em conjunto, mas com experiências diferentes”, destaca ao Boletim Brio.

Um detalhe simbólico está na capa do livro, que traz 1.191 tracinhos, em referência à quantidade de dias em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) manteve a Covid-19 sob o status de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, o mais alto nível de alerta sanitário.
Outro aspecto interessante é a proposta de registrar a passagem do tempo. Ao final de cada texto, o leitor encontra a minibio dos autores tal como foi publicada originalmente no site da Revista Revestrés. No encerramento do livro, uma nova apresentação biográfica atualiza essas trajetórias e permite refletir sobre as mudanças vividas desde então.
Entre os autores estão estudantes, professores, artistas, médicos, documentaristas e jornalistas que escreveram a partir de diferentes lugares, como Piauí, Maranhão, Brasília, São Paulo, Itália e Estados Unidos. Participam da obra Amina de Andrade, Ítalo Lima, Layne Holanda, Eugênia Correia, Chico Filho, Andreia Marreiro, Liziane Guazina, Chaim Litewski, Joaquim Cantanhêde, Andrea Rufino, André Gonçalves, Clarissa Carvalho, Samária Andrade, Bruno Moreno, Jorge Antunes, Nahiza Monteles, Wellington Soares e Luana Sena.

Diários da Pandemia transforma experiências individuais em memória coletiva. Um registro para que as próximas gerações compreendam o que foi atravessado e para honrar a memória das pessoas que partiram.



