Professora transexual de direita saiu do PI para fugir de perseguições; vivências para além dos rótulos políticos

Ela ficou conhecida como a professora Danny Barradas, mas hoje assina como Catherine Von Barradas. Em maio deste ano, trocou o Piauí por um município pacato em Santa Catarina, após sentir-se perseguida por ser uma mulher transexual de direita no estado. Foi candidata a vereadora de Teresina pelo Partido Progressista em 2024 e atualmente estuda para concursos da área policial. Contar a história de travestis ou transexuais costuma trazer consigo, no imaginário coletivo, alguns estigmas. Mas sempre há os que não se encaixam. Na edição desta semana, serão contadas essas histórias, regadas a dilemas, altos e baixos e a um inegociável direito de afirmação: o de ser quem se é.

Formada em Direito e professora por anos em escolas tradicionais do Piauí, Catherine fez a cirurgia de redesignação sexual no dia 9 de dezembro de 2022. “A minha Pandora [em referência ao órgão genital feminino] está prestes a completar três aninhos e, como eu amo mitologia grega, foi assim que escolhi o nome dela”, declarou em entrevista ao Boletim Brio.

Com uma biblioteca contendo mais de quatro mil livros, ela lembra que a vida inteira se viu rodeada de obras e do desejo de tentar sobreviver à vontade de morrer, um sentimento que só a abandonou aos 35 anos, quando finalmente realizou a cirurgia. “Muitas pessoas não têm recursos, tanto financeiros quanto acesso adequado à saúde pública, para alterar o próprio corpo. No meu caso, por exemplo, foram gastos quase duzentos mil reais para alcançar uma configuração corporal feminina. E a gente sabe que, quanto mais o corpo se aproxima do gênero com o qual a pessoa se identifica, mais ela é respeitada socialmente, porque deixa de ser vista como ‘estranha’”, contou a professora.

O procedimento de redesignação sexual não foi realizado pelo SUS e feito em São Paulo, com um médico de confiança. “A minha visão sobre ela é que eu realmente necessitava dessa cirurgia para me entender 100% como mulher. Sei que muitas mulheres trans não sentem essa mesma necessidade, porque têm medo de perder tanto a libido quanto a possibilidade de sentir orgasmo. Mas, no meu caso, o desconforto com o meu órgão era tão grande que, mesmo que a cirurgia implicasse essa perda, eu ainda assim faria. Eu queria, acima de tudo, me sentir confortável com aquilo que eu via no espelho. Então, acredito que isso varia de pessoa para pessoa”, narrou Catherine Barradas.

“SOU PESQUISADORA RECONHECIDA INTERNACIONALMENTE”

A primeira professora travesti da Universidade Federal do Piauí (UFPI) chama-se Letícia Carolina Nascimento. “Sou mulher travesti, negra, gorda, nordestina e de candomblé. Costumo me apresentar com esses vários marcadores porque entendo que eles são socialmente relevantes dentro da estrutura brasileira e revelam o lugar de vulnerabilidade do qual eu falo. Ao mesmo tempo, mostram o quanto é potente, hoje, eu me localizar como professora universitária e pesquisadora reconhecida, inclusive em âmbito internacional”, frisou a docente em entrevista à coluna Ápice.

As travestis e mulheres trans no Brasil enfrentam uma urgência alarmante de vidas interrompidas: em 2022, foram assassinadas pelo menos 131 pessoas trans e travestis, e outras 20 morreram por suicídio em decorrência da discriminação e da violência de gênero. O país ocupa, há mais de uma década, o primeiro lugar no ranking mundial de homicídios contra pessoas trans e travestis. Estudos apontam que a expectativa de vida dessas pessoas gira em torno de 35 anos, frente a cerca de 74 anos para a população brasileira em geral, um reflexo direto da exclusão, da violência e da falta de acesso à saúde e à educação adequadas. É essa realidade, a nível de Brasil, que predomina.

“Tive oportunidade de estudar, fui amparada pela minha família, e isso garantiu que eu pudesse chegar onde cheguei. A universidade é um espaço do contraditório. É um ambiente em que, ao mesmo tempo em que circulam ideias revolucionárias, também existem discursos repressores. A universidade, como todo espaço social, é um espaço de disputa, e eu estou lá disputando”, mencionou Letícia Carolina.

Feminista, a professora do curso de Pedagogia da UFPI explica uma das muitas cisões que contemplam as vivências e preferências de travestis e transexuais, e que são parte do debate da comunidade LGBTQIA+. “Pessoas cisgêneras fazem procedimentos estéticos e cirúrgicos, muitas vezes absurdos, o tempo todo, e isso não é questionado. Mulheres cis podem, por exemplo, ir a uma clínica estética e colocar litros de silicone sem qualquer autorização de psicólogo ou psiquiatra. Enquanto isso, nós, pessoas trans, precisamos de acompanhamento médico e de uma série de autorizações para realizar intervenções corporais. Isso revela o preconceito que ainda existe em relação à afirmação das nossas identidades”, defende Letícia Nascimento.

“DIZEM SER DA TURMA DO AMOR, MAS NÃO SÃO”

Por reunir vozes plurais e diversas e tocar em assuntos que são ao mesmo tempo tão caros para a individualidade de cada um, os debates entre a comunidade LGBTQIA+ são sempre acalorados, com pontos de tensão e diferentes interpretações narrativas. Para Catherine Barradas, o cenário não é agregador.

“Eu sempre percebi que o povo LGBT gosta de muita atenção e acaba dedicando muito tempo a isso. Acredito que, se as pessoas estivessem mais preocupadas em estudar e em se dedicar ao trabalho, muitas dessas questões e brigas diminuiriam, porque, quando você tem muita coisa para fazer, simplesmente não sobra tempo para essas discussões. Inclusive, quanto ao povo da esquerda, eu perdi todos os meus amigos desde que expus o meu voto em Bolsonaro, um dia antes da eleição de 2018. Eu tinha, entre eles, pessoas que considerava meus melhores amigos”, relembrou Barradas.

A professora integra o grupo de pessoas trans e travestis que relatam sentir falta de acolhimento dentro da própria comunidade, revelando que as tensões não se restringem apenas à sociedade em geral.

“Isso, para mim, demonstra imaturidade e um discurso hipócrita, porque dizem ser a turma do amor e da tolerância, mas não são. Tolerar, na verdade, é suportar algo que eu não aprecio. Por isso, prefiro olhar mais para o que o indivíduo pode fazer pela própria vida do que para o que o Estado pode fazer por ele. Claro que há pontos que não dependem do esforço pessoal, e o direito ao nome social é um exemplo disso, uma grande conquista. Mas acredito que o respeito da sociedade, esse sim, depende também da postura de cada um”, opinou Catherine Barradas.

“LUTA PRECISA SER CONTRA VIOLÊNCIA”

A multiplicidade de vozes e visões, segundo Letícia Nascimento, desafia o movimento a encontrar caminhos comuns diante de realidades e demandas distintas. De acordo com a pesquisadora, esse processo precisa ser conduzido com responsabilidade e escuta ativa.

“Esses diferentes sujeitos políticos têm também diferentes interesses. Por mais que existam pautas unitárias, também há pautas segmentadas, e, por vezes, isso gera conflitos, inclusive na hora de definir o que é prioridade para o movimento ou compreender quais identidades estão mais vulnerabilizadas dentro dele. Esse é um processo crítico, que precisa ser conduzido com muita abertura ao diálogo, acolhimento e empatia. É natural que existam conflitos, mas precisamos entender que, dentro de uma sociedade cisheteronormativa, toda a nossa comunidade é alvo de violência. E é justamente a partir das nossas diferenças que precisamos construir linhas de combate à violência que todas e todos nós sofremos”, frisou a pedagoga.

VIVÊNCIAS PRIVILEGIADAS EM UM BRASIL DESIGUAL

No Brasil, ser uma travesti e ter acesso à educação de qualidade, a uma rede de apoio sólida e ao respeito dentro da própria família ainda é uma exceção. Em um país profundamente desigual, esses elementos básicos de dignidade se tornam privilégios restritos a poucas. A maior parte das travestis enfrenta uma realidade de exclusão desde cedo, são expulsas de casa, sofrem bullying na escola e encontram na prostituição uma alternativa de sobrevivência diante da falta de oportunidades.

A dificuldade não é apenas de viver, mas de permanecer viva em um contexto que as empurra para as margens. Por isso, é fundamental reconhecer os diferentes “Brasis” que coexistem dentro da própria comunidade, compreendendo que, enquanto algumas conseguem romper o ciclo da vulnerabilidade, muitas ainda lutam apenas pelo direito de existir.

“Eu sempre soube que era uma menina, que era uma mulher. Mas o mundo não me oportunizou possibilidades de vivência e de afirmação da minha identidade de gênero desde a infância, por mais que a minha família tenha se mostrado bastante acolhedora quando eu finalmente decidi revelar quem eu sou, aquilo que sempre esteve dentro de mim e que, por muito tempo, eu tentei ocultar. Esse acolhimento foi fundamental. Minha família me acolheu e me acolhe até hoje”, relembrou a professora da UFPI.

“SOU UMA EXCEÇÃO DA EXCEÇÃO”

Barradas conta ainda que, por já ter alcançado “o ponto final da transição, pela própria configuração física”, nunca vivenciou situações diretas de proibição ou constrangimento. Ela não costuma frequentar festas ou sair à noite, ambientes que, segundo ela, “são justamente os mais hostis e vulneráveis, onde muitas acabam sofrendo preconceito”. Ainda que os desafios da vivência trans se repitam em diferentes contextos. “Esses são os pontos mais difíceis de uma vivência trans, seja no Piauí ou em qualquer outro estado, porque, infelizmente, as situações de exclusão acontecem da mesma forma em muitos lugares”, afirmou.

“Nunca precisei do acesso público à saúde, já que sempre tive plano. Toda a minha transição foi acompanhada pelo meu endocrinologista. Além disso, pelo fato de ser professora e morar no Jóquei, eu nunca passei pelas discriminações que a maioria das mulheres trans enfrenta, seja por falta de estudo, por viverem na periferia ou por terem sido expulsas de casa. Eu tenho plena consciência de que a minha vivência trans é uma vivência excepcional. Faço parte de uma minoria dentro da minoria. A primeira escola que me contratou foi o Colégio Dom Barreto, um dos melhores do país. Os lugares que eu frequentava também eram espaços de elite: livrarias, ambientes acadêmicos, culturais… Então, nunca vivi o que muitas outras mulheres trans vivem”, relatou Catherine Barradas.

O Brasil registrou alguns avanços nas políticas voltadas à população trans, como o direito ao uso do nome social em documentos oficiais e instituições públicas, a possibilidade de retificação de nome e gênero no registro civil sem necessidade de cirurgia ou decisão judicial, além de medidas que garantem o acesso a banheiros conforme a identidade de gênero. São conquistas importantes, fruto de décadas de mobilização, mas que ainda convivem com uma dura realidade: o país continua sendo um dos que mais mata pessoas trans e travestis no mundo.

Essa contradição revela o quanto a pluralidade de vozes dentro da comunidade é também reflexo da desigualdade que atravessa o país. Em uma sociedade que ainda exclui, violenta e invisibiliza, formar espaços de acolhimento para travestis é ajudá-las(os) com o direito básico à sobrevivência. Embora a democracia permita o dissenso e a multiplicidade de experiências, ela só será plena quando garantir a todas, sem exceção, o direito de existir com dignidade humana.

REFLEXÃO DA PROFESSORA LETÍCIA

Existem grupos que entendem a minha identidade de gênero e outros que a rejeitam. E é dentro dessa disputa que eu afirmo: mulheres travestis também podem produzir conhecimento. Essa é uma possibilidade real quando temos acesso e oportunidade. Infelizmente, muitas de nós somos expulsas de casa ainda na infância, sem acesso à educação, sem conseguir concluir sequer o ensino fundamental ou o ensino médio. Por isso, chegar à universidade e, mais ainda, tornar-se professora é algo que simboliza resistência e conquista. (Letícia Nascimento)

REFLEXÃO DA PROFESSORA CATHERINE

Acredito que, mais do que esperar algo do Estado, é preciso aprender a lidar com o próprio sofrimento e entender que, muitas vezes, será necessário usar as próprias armas, seja para conquistar respeito na sociedade, seja para estudar, por mais difícil que isso seja. Ficar sempre esperando do Estado é, de certa forma, uma maneira de terceirizar responsabilidades. Acredito que a educação, e aqui não falo num tom clichê, é o que mais contribui para que uma pessoa seja respeitada na sociedade. Quanto maior a instrução, menor tende a ser a discriminação. E eu me sinto com autoridade para falar sobre isso pelos motivos que já expus” (Catherine Barradas).

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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