Gigantes do Agro: conheça as famílias que movimentam bilhões no Cerrado piauiense

Aeródromos próprios, shows nacionais em fazendas, multidões em eventos e bilhões de reais movimentados com a produção agrícola no Cerrado piauiense. Quem são os produtores bem-sucedidos do agronegócio do Piauí? A Ápice conta essa história.

Segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2021, a cidade de Uruçuí, no Sul do Piauí, registrou o PIB (Produto Interno Bruto) de R$ 2,81 bilhões, o terceiro maior do Piauí, superando cidades mais populosas. Já o município de Baixa Grande do Ribeiro ficou na quinta colocação com um PIB de R$1,7 bilhão. O motor em comum que impulsiona esses números: o agronegócio.

A professora da Universidade Estadual do Piauí e doutoranda com objeto de pesquisa em Desenvolvimento e Desigualdades no Cerrado do Piauí, Lucile Moura, ouvida pela Àpice, afirma que o Cerrado piauiense passou a ser alvo de grandes investimentos após a divulgação de levantamentos realizados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no final dos anos 90.

“Conseguiram desenvolver um grão de soja que se adaptavam às condições climáticas do Piauí. Também foi feita uma correção de solo com Calcário. Isso aconteceu na década de 1990, no mesmo período em que produtores do Sul do Brasil, enfrentavam um processo de desertificação e aumento no preço das terras. Na época, não havia tanto incentivo. Do ponto de vista governamental, a região não era caracterizada para grãos. Tinham fazendas que produziam caju, arroz e algumas poucas com gado. A perspectiva dos grãos muda com essa ação de Governo, que são as pesquisas desenvolvidas pela Embrapa”, frisou a pesquisadora.

Guerra dos cartórios

A doutoranda em Políticas Públicas explica que só a partir dos anos 2000 foram feitos investimentos maiores em estradas na região, ao mesmo tempo em que crescia a perspectiva da instalação da Ferrovia Transnordestina, que seria a solução logística.

“Já houve conflitos graves na região envolvendo cartórios. O cartório de Ribeiro Gonçalves já chegou a ser fechado pela emissão de títulos falsos. Em 2015, o governo Wellington Dias fez uma reestruturação na legislação[…] Ainda há conflitos hoje, mas já melhorou muito. As maiores dificuldades são relativas à logística. Tem a implantação da Transcerrados que já é uma realidade, mas que faltam interligações. É um macroplanejamento com um super investimento, mas as coisas vêm acontecendo, não é da noite para o dia. Hoje o investimento que falta na ferrovia Transnordestina é de R$ 12 bilhões. A Transcerrados é uma obra de quase R$400 milhões”, ressaltou a professora Lucile Moura.

Grupo Progresso

Foto 1: Neto Fotografia / Foto 2: Site Grupo Progresso

A história da família Sanders com a agricultura começou com Thomas Sanders, o pai do presidente do Grupo Progresso, Cornélio Sanders. Em 1970, o patriarca faleceu deixando 12 filhos. Cornélio, nascido na cidade Não Me Toque (RS), tinha na época apenas 15 anos. Tempos depois, já atuando no setor nos estados de Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, Cornélio e o filho Gregory Sanders apostaram no Piauí para desenvolver produções agrícolas, trajetória narrada por ele em materiais audiovisuais disponíveis no YouTube. A família de descendência holandesa fundou o Grupo Progresso em 2001, assim que chegou ao Cerrado piauiense. Hoje o grupo conta com mais de 700 funcionários.

O investimento mais recente é no valor de R$ 1,18 bilhão, em parceria com a empresa Brasil Bioenergia, nos projetos de etanol de milho e bioenergia, informação confirmada pela assessoria de comunicação do grupo. São grandes produtores de soja, milho, algodão e também atuam no reflorestamento do eucalipto e na pecuária. Sob a presidência de Cornélio Sanders, a empresa familiar possui cinco fazendas no estado. A mais conhecida é a Progresso, localizada em Sebastião Leal. A cofundadora e esposa de Cornélio, Ani Heinrich Sanders, lidera o Instituto Cultivar Progresso, voltado para as causas sociais, e o movimento Mulheres de Fibra.

Fazenda Ipê/ Insolo

Foto 1: Ascom Governo do Piauí / Foto 2: Ricardo Faria e a esposa Nathalia Paulino – Reprodução/Instagram

Um negócio de R$1,8 bilhão, localizado nos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins. O grupo Insolo, de propriedade do empresário Ricardo Faria, foi adquirido por esse valor em 2022. Antes, a empresa pertencia a um fundo vinculado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, segundo informações divulgadas pela Exame. E até 2017, Faria atuava no ramo de lavanderias. A Fazenda Ipê, localizada em Baixa Grande do Ribeiro e Ribeiro Gonçalves, é uma das principais propriedades do grupo. São mais de 46 mil hectares de terras cultivadas com foco na produção de milho e soja, segundo o site oficial da empresa. O Grupo Insolo produz em mais de 210 mil hectares e agora pretende investir num projeto de agricultura irrigada.
Gees (antiga Risa)

Foto: José Antônio Gorgen, a esposa e diretora de Infraestrutura Georjane Gorgen, a diretora de Marketing Amanda Gorgen e o diretor administrativo Anderson Gorgen (Reprodução/Instagram)

A empresa é presidida pelo gaúcho José Antônio Gorgen (conhecido como Zezão), fundada em 1991, na zona Rural de Baixa Grande do Ribeiro, onde é sediada a Fazenda Ribeirão. Segundo o Jornal O Estado de São Paulo, o grupo faturou R$1 bilhão em 2020. O faturamento da companhia em 2023 chegou a R$2,1 bilhões, ficando na 412º posição entre as mil maiores empresas do Brasil, publicado pela Revista Exame. A companhia atua na área de grãos, fertilizantes, máquinas, serviços e defensivos. E tem unidades localizadas em Uruçuí e nos estados do Maranhão e no Pará.

Grupo Franciosi

Foto: Reprodução/ Governo do Piauí

Investindo no Piauí desde meados de 2010, o grupo é proprietário da Fazenda Confiança, em Baixa Grande do Ribeiro, e um dos maiores produtores de soja locais. O empreendimento é dirigido no estado por João Antônio Franciosi, natural do Rio Grande do Sul, e com ampla experiência agrícola nas terras da Bahia. Em 2024, foram investidos mais de R$60 milhões no ramo de algodão, o que gerou 300 empregos imediatos no território piauiense, de acordo com números divulgados pelo Governo do Estado. O Grupo busca posicionar o Piauí entre os três maiores produtores de algodão do Brasil e em 2019 já foi considerada pela revista Forbes uma das 100 maiores empresas de agronegócio do país.


Grupo Canel

Foto: SRB e Reprodução/Instagram

A Fazenda Canel é de propriedade da família Bortolozzo. Descendentes de italianos e vindos de Araraquara, São Paulo, chegaram no sul do Piauí em 1988. Sérgio Luiz Bortolozzo e a matriarca Maria Elvira investiram no cultivo de soja, milho, algodão e eucalipto, em Uruçuí.

O grupo se expandiu e fundou a Lavoro, que atua no beneficiamento de algodão, fábrica de ração, extrusora, aviário e loja de ração. Os negócios no Piauí fizeram do gestor uma referência no mundo. De acordo com a conta oficial do Instagram da Fazenda Canel, o diretor Sérgio Luiz Bortolozzo já foi convidado a integrar eventos da Organização das Nações Unidas (ONU), através do Champions Network for The Food System Summit, ao lado de lideranças para a Cúpula de Sistemas Alimentares de 2021 que capacita pessoas para a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável. É o atual presidente do Sociedade Rural Brasileira.

PERSPECTIVAS

Para a pesquisadora Lucile Moura, um dos desafios enfrentados pelo setor é a inclusão social através de ações feitas para apoiar a agricultura familiar. “Também é interessante que se amplie a cadeia para sair só da produção de commodities e passe à manufatura e industrialização”, finalizou. Existe um esforço conjunto das empresas nacionais para implementação/expansão do uso de inteligência artificial voltada ao agronegócio, assim como às soluções inovadoras que unem ciência e tecnologia no campo.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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