“A gente não tem formação de público que vá ao cinema e não tem formação de profissionais”, a fala é do cineasta Cícero Filho, quem dirigiu o conhecido filme piauiense “Ai que vida”. E poderia ser um diagnóstico resumido dos desafios locais? Muito se fala que não há público suficiente interessado em cinema no Piauí, ponto que afastaria investimentos e enfraqueceria os esforços.
A realidade é que o estado não figura entre os grandes circuitos cinematográficos nacionais, mostra em shopping foi encerrada enquanto artistas piauienses seguem produzindo e reafirmando a capacidade de trabalho. Pontas soltas, riqueza identitária cultural a ser explorada e diferentes visões de um mesmo “problema”. O que está acontecendo com o cinema do Piauí e o que o público pode esperar? Algumas respostas a seguir.
“Nos meus primeiros filmes, que não tinham o aporte das leis de incentivo, eu tive que contar com apoio direto. A gente sofria muito pra captar recursos nas empresas. O que conseguia era aquele pouquinho, sabe?”, relembra Cícero Filho.

Ele completa: “Quando eu estava gravando o ‘Ai, que Vida’ – que é meu carro-chefe… As pessoas diziam assim: ‘Cícero, filme piauiense? Ih, não presta. Perca de tempo. Ah, filme piauiense? Balela, não vai dar em nada.’ E eu dizia: ‘Não, vamos fazer sim, vamos levar!’ Porque eu sentia a necessidade de me ver na tela – e eu não me via. Aí fui, aos poucos, formando público, praticando, exibindo”.

QUEBRANDO PARADIGMAS EM SLOW MOTION
O momento, setembro de 2025, é de fortalecimento da cena cinematográfica no Piauí com o fomento de projetos de financiamento governamental. Mas os diretores esbarram nos reflexos estruturais de décadas da cultura sendo tratada como uma pasta menos importante.
“A gente vem percebendo essa possível mudança. É uma expectativa de que as coisas melhorem. Por exemplo, com a Lei Paulo Gustavo, a gente criou muita expectativa dentro do audiovisual, mas ainda temos lacunas na formação de profissionais, por exemplo. Atores especializados na área de cinema, voltados para o audiovisual, e técnicos cinematográficos – como produtores, roteiristas, fotógrafos. A gente, geralmente, encontra esses profissionais fora do estado. O nosso mercado não está preparado para o audiovisual”, opinou Cícero Filho.
INEXPERIENTES TAMBÉM GANHAM EDITAIS
Em apuração para essa edição, o Boletim Brio ouviu de algumas pessoas do meio, críticas a projetos que ganharam editais governamentais. Alega-se que rede de relacionamentos é fator determinante.
“Às vezes, pessoas que não têm experiência alguma ganham os editais, e outras com mais bagagem não conseguem. Isso é muito doido. Eu realmente não sei como funciona esse critério de avaliação. Acho meio estranho às vezes. Tem esse argumento de dar oportunidade aos novos nomes. Mas é complicado. Eu mesmo, nunca ganhei. Então faço minhas produções na garra. Eu acho o ofício do cinema um dos mais difíceis. Tenho anos de prática, mas ainda me sinto uma criança nesse processo todo, porque acho que ainda tenho conhecimento insuficiente. Preciso buscar mais, conhecer mais, criar novas linguagens, novos meios de chegar lá”, afirmou o diretor Cícero Filho.
A RECEITA PARA O INSUCESSO
Para o parnaibano Chico Rasta, diretor cinematográfico e audiovisual, eis os gargalos das produções piauienses: “Não existe um trabalho consistente que garanta que as produções piauienses circulem. Outro problema sério é a formação de público, porque também não temos salas de cinema preparadas ou acessíveis para exibir os filmes feitos aqui. O que a gente percebe muito é que tem muita gente querendo decidir sobre cinema sem nunca ter feito um filme, sem entender como funciona a cadeia de produção. E, assim, tem tudo para dar errado. Mas precisamos entender algo fundamental: existe a qualidade profissional e existe o valor de produção. São coisas diferentes”, considerou.

FILMES DO PI CONTAM COM METADE DOS INVESTIMENTOS DOS FILMES DO CE OU MA
Apesar da crescente produção audiovisual no Piauí e da presença de profissionais talentosos e reconhecidos, o Estado ainda enfrenta grandes desafios para se firmar no circuito nacional de cinema. Os baixos investimentos compromete diretamente a competitividade das produções locais. O Piauí conta com diretores, roteiristas e técnicos capazes de entregar filmes com qualidade técnica e narrativa, segundo Rasta.
O que falta é investimento proporcional ao que já se pratica em estados vizinhos, como o Ceará e o Maranhão. Um filme leva em média dois anos para ser finalizado, considerando pré-produção, filmagens e pós-produção. Mesmo com uma equipe reduzida, a logística é custosa.
“Enquanto aqui no Piauí é muito difícil levantar R$ 1 milhão para fazer um longa de ficção, no Ceará ou no Maranhão, esse valor é o mínimo que se fala para produções de baixo orçamento. Lá, um longa pode começar com R$ 2 milhões. E isso faz toda a diferença na entrega final. Não é falta de talento, de histórias ou de capacidade técnica, é falta de investimento mesmo. Temos uma geração de cineastas muito bem preparada, com ótimas ideias e domínio técnico. Mas sem recursos, não conseguimos disputar espaço com produções que vêm de estados com políticas de incentivo mais estruturadas”, pontuou Chico Rasta.
CATÁLOGO DE FILMES REDUZIDO INCOMODA PÚBLICO
A produtora e diretora de cinema Fátima Guimarães, trabalha no ramo desde a década de 1980 e conhece com acurácia as transformações do jeito piauiense de se fazer e consumir cinema. Ela levanta um incômodo que não é só dela acerca da oferta de filmes que chega ao Piauí. “Para cada sala que exibe um filme nacional, há cinco ou dez exibindo filmes estrangeiros. Isso é visível: basta olhar os cartazes, os materiais de divulgação, tudo voltado para o que vem de fora”, destacou.

Com um olhar maduro, ela nutre esperança, cita que o cinema aqui cresceu bastante e que o público comparece, independente da nacionalidade da produção. É preciso entender o público e seguir.
“O empresariado local, em geral, ainda não tem consciência de que investir em cultura é investimento, não é gasto. Falta conhecimento sobre leis de incentivo, editais e outras possibilidades. Porém, isso já está mudando. Por exemplo, na reabertura do Museu da Imagem e do Som, que aconteceu no aniversário de Teresina, conseguimos reunir mais de 200 produtores independentes. Colocamos muita gente no museu com divulgação apenas pelas redes sociais, e em apenas um dia. Lotou de manhã, à tarde e à noite”, mencionou a diretora de cinema Fátima Guimarães.
MUSEU DA IMAGEM DO SOM É OPÇÃO
Atualmente, o Museu da Imagem e do Som tem mantido uma frequência regular de atividades. Em parceria com a equipe do espaço, estão sendo construídos roteiros para a criação de um cineclube, com exibição de filmes, curtas-metragens e espaços voltados para debates e discussões. A proposta é ampliar ainda mais essa iniciativa, e o museu já tem recebido grande interesse do público, com muitas pessoas procurando o local para expor seus trabalhos.
“Como é um espaço público, precisamos nos alinhar com a agenda da instituição, mas o espaço está aberto e isso é importante. Durante muito tempo, depois da inauguração, o museu não tinha nenhuma atividade”, rememorou a cineasta piauiense.
MOSTRAS NO TERESINA SHOPPING COMPUSERAM UMA “ERA DE OURO” PARA OS CINÉFILOS
Escrever essa edição sem a voz do cineasta piauiense Douglas Machado, ex-diretor de curadoria do cinema do Teresina Shopping, traria uma lacuna. De 2016 a 2020, a curadoria e programação de filmes no Cinemas Teresina, contou com mostras, sessões com debate, master classes e retrospectivas. A coluna Ápice conseguiu o contato com ele, mas por impossibilidade de agenda, a entrevista não foi realizada.

“Lembro que havia uma época em que o Teresina Shopping realizava mostras de cinema, muito bem organizadas. Era um projeto do Douglas Machado. Ele fazia tudo em parceria com a administração do shopping. Eu mesma fui a sessões incríveis, com filmes do Almodóvar, cinema argentino, europeu… Era maravilhoso. Na época, não era um projeto sustentado por edital. Era fruto de negociação direta com o shopping. Mas, com o tempo, foi ficando financeiramente inviável. E todo mundo que trabalha merece ser remunerado. Então, infelizmente, foi ficando difícil de manter e acabou”, contou Fátima Guimarães.
Douglas Machado é visto como alguém que fomentou o cinema no Piauí “quando tudo era mato” – como diria a geração Z.
O cinéfilo, servidor público e mestrando em Direito pela UFPI, David Williams, faz parte do numeroso grupo de piauienses que sente saudades das mostras no shopping. “O Douglas [Machado] amava o que fazia. Cansei de ver ele na frente do cinema só observando o público olhar para os cartazes e entrar nas salas. Ele ia nas salas de cinema só pra admirar o público. Foi uma era de ouro do cinema daqui”, contou.
O PI TEM PÚBLICO QUE GOSTA DE CINEMA E ATÉ PARA FORMAR CINEASTAS
O amor pelo cinema acompanha David Williams desde a adolescência. Apaixonado pela sétima arte, ele chegou a considerar uma carreira no audiovisual, pensou em cursar cinema, trabalhar com direção e viver profissionalmente desse setor. Mas, assim como outros jovens do Piauí, encontrou barreiras que o impediram de seguir esse caminho.

“Me senti muito prejudicado pelo fato de que Teresina ainda não oferece uma graduação em cinema. Já me senti muito desmotivado por essa falta de incentivo do poder público, e também pela falta de divulgação quando esses incentivos existem. Lembro que, na adolescência, fiz um curso de direção de curtas com o professor Francisco Monteiro Júnior. Nem vi divulgação alguma sobre o curso, soube por meio de um amigo, fui até a Casa da Cultura e fiz a inscrição”, narrou o servidor público.
Ele chegou a ser aprovado para cursar cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, mas não pôde se mudar para outro estado. “A distância e a necessidade de deixar a família pesaram. Se esse curso existisse no Piauí, provavelmente eu teria feito. Mas acredito que isso pode mudar. A sociedade civil tem ocupado esse espaço que o setor privado não investe, e acredito que essa transformação vai continuar. Espero que tenhamos mais cursos de graduação em cinema, mais oficinas e outras iniciativas que incentivem a produção audiovisual no estado”, defendeu David Williams.
ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS
O Piauí tem sim, público, talento e sonhos – e poderia ter mais. O que falta são formatos que possibilitem o fomento e a democratização da cultura, que passa pela educação, criação de hábitos, reconhecimento da própria identidade e da percepção de que fazer cinema é um caminho possível, mesmo no Piauí. Só se pode imaginar sob aquilo que se conhece. Uma geração de novos cineastas se faz com insistência e fé no trabalho constante.
Para quem aprecia, é inegável o desapontamento frequente com os filmes em cartaz, quase sempre comerciais demais (que também tem seu valor agregado, ressalta-se). O vácuo vem do que poderia estar em cartaz e não está. Dos temas que não são pautados porque os filmes não chegam no Piauí, das discussões vigentes que são deixadas de lado, que não se tem a chance de fazer parte. O cinema traz uma contribuição inestimável para o pensamento crítico, para ampliar horizontes e conhecer diferentes realidades. Reconheça-se o silêncio que existe e a reduzida iniciativa governamental de combatê-lo. Falemos sobre isso. Pautemos. E na trincheira individual, combatamos o silêncio com uma defesa barulhenta da sétima arte.
NOMES QUE SE DESTACAM NA PRODUÇÃO DE CINEMA NO PI
Se esta edição é dedicada a entender à produção cinematográfica no Piauí, nada mais justo do que reconhecer e valorizar os talentos piauienses que se destacam nessa área. (É importante frisar que muitos outros nomes também merecem destaque, ainda que não foram citados. A lista é extensa e seria impossível contemplar todos.) Fica aqui a nossa diminuta contribuição para reforçar o reconhecimento e a valorização dos artistas da terra.
Alexandre Mello
Chico Rasta
Cícero Filho
Dácia Ibiapina
Douglas Machado
Fátima Guimarães
Guga Carvalho
Karla Holanda
Milena Rocha
Monteiro Júnior
Rivanildo Feitosa
Tássia Araújo
Thiago Furtado
Weslley Oliveira
Zé Quaresma
(nomes em ordem alfabética)



