A estética urbana de uma cidade é profundamente política e revela prioridades de gestão influenciando a forma como a população ocupa os espaços públicos e moldando o sentimento de pertencimento. O Natal traz uma atmosfera própria e a decoração teresinense, ao longo dos anos, sempre rende comentários (ou até polêmicas). Quem não lembra do “fantasmão”? Em 2011, as árvores de Natal eram bem simples, tinham a cor branca e geraram críticas e comentários até da imprensa nacional chamando a atenção para a ornamentação. E em 2025? O que a cidade oferece em termos de ambientação, arte e cultura para sua população? E o que isso diz sobre a cidade? São perguntas que a Coluna Ápice tentará responder.
Decoração tradicional: sem grandes elogios ou grandes críticas
Este ano, tem-se uma ornamentação natalina tradicional, que se espalha por diversos pontos da cidade. As pontes da Primavera, Estaiada João Isidoro França, Juscelino Kubitschek (Frei Serafim) e Wall Ferraz receberam luzes decorativas. Já no Parque da Cidadania, foram montados entre 90 e 120 peças temáticas, mais de 100 árvores naturais envoltas em pisca-pisca e cerca de 50 arabescos distribuídos pelos postes, formando um grande corredor iluminado e cheio de elementos natalinos.

O Boletim Brio esteve no Parque da Cidadania e presenciou muitas famílias com crianças observando as luzes de Natal, famílias fazendo piquenique e a população praticando esportes. O espaço, com entrada gratuita, é acessível e muito procurado. Uma parcela do público são pessoas com menor poder aquisitivo e que se veem em casa com crianças de férias, e sem ter tantas opções disponíveis a elas na cidade. A maior atração é o próprio espaço, especialmente durante a semana, já que apresentações culturais costumam acontecer no sábado. O Parque da Cidadania, assim como a Potycabana, já teve o seu ápice de público e mesmo carente de programações culturais, continua atraindo pessoas.

A decoração europeia nega a nossa identidade e nosso clima
O Natal ilustra uma performance urbana de identidade. A programação natalina é um dispositivo de construção simbólica de pertencimento, de acesso às emoções e criação de memórias. É capaz de projetar uma cidade próspera, organizada e segura, com elementos modernos ou de zelo à tradição. E são reflexos da cena criativa que só podem existir se fomentadas pela gestão pública. A cena teresinense replica clichês da indústria ou valoriza a identidade? Com a palavra a professora Nícia Formiga Leite, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

“Em Teresina, na decoração do Natal atual, tende-se a seguir esse modelo mais globalizado, dessas luzes brancas, do pinheiro, de neve. É uma decoração um pouco mais globalizada, mais europeia, e que contrasta um pouco com a nossa identidade e com o nosso clima. É uma decoração que nega um pouco a identidade climática, regional e cultural. Poderia, por exemplo, incorporar mais elementos florais locais, como cajueiros, tons terracota e uma paleta mais quente, em vez da luz tão branca e fria dessa estética europeia. Porém, isso é uma preocupação que nós temos, mas, para a população, é marcante. Todos pensamos o Natal com essas iconografias. Então, não é, de toda forma, tão errado, porque temos essas questões ligadas”, opinou a professora em entrevista ao Boletim Brio.

A estética urbana também é reflexo do repertório de quem governa. E também é verdade que Teresina não tem um calendário cívico forte, nem uma marca identitária consolidada voltada ao Natal. Então, o resultado é uma ornamentação em massa, comum e distribuída para cá assim como para outras inúmeras cidades pelo país?
O cuidado com os exageros
“O poder público precisa mostrar cuidado, mas não pode ser algo muito ostensivo, já que vivemos um momento em que ele reclama de orçamentos e problemas financeiros. Não pode extrapolar, não pode fazer algo mirabolante, mas também não pode deixar de fazer, porque o deixar de fazer entristece a cidade. Temos essa marca de fazer as decorações natalinas, de mostrar esse sentimento de pertencimento e de alegria. Uma decoração bonita gera orgulho, gera alegria coletiva e senso de comunidade, principalmente na época do Natal. A cidade se mostra mais cuidada, acolhedora e vibrante, e isso precisa ser feito”, analisou Nícia Leite.

Os teresinenses não são os mais exigentes com decorações natalinas, tendo em vista outras prioridades que a cidade claramente possui. Tende haver sensatez por parte da gestão. Mas, por outro lado, a população não quer “fantasmão”, como em 2011.
O inesquecível caso do “Fantasmão”
Apesar da críticas, o na época prefeito Elmano Férrer disse à imprensa que as árvores de Natal estavam “lindas demais” e defendeu não achar que “aquilo” era algo feio. Ele negou que Teresina possuía uma das mais empobrecidas decorações natalinas daqueles tempos. A Prefeitura justificou falta de recursos e outras prioridades orçamentárias. “As árvores de natal foram os empresários que doaram e estão lindas. Tem gente me parabenizando, a noite então estão lindas demais, uma beleza que Teresina nunca teve”, frisou o prefeito naquele ano.

“A questão das árvores de ‘fantasmão’, como foram nomeadas, acabou ficando como um episódio folclórico, mas, na verdade, isso é um símbolo que demonstra a ruptura entre o que a população espera do poder público e o que o poder público oferece. Essa ruptura é muito forte, porque, se tiramos uma lição disso, entendemos que decorar a cidade, principalmente em datas simbólicas, é uma forma de comunicação pública. Aquilo é o que a gestão entrega para a população, e não o que a população espera da gestão”, destacou Nícia.
Urbanismo frágil
Os desafios são mais complexos do que “decorativos”. A estrutura urbana é medida o ano inteiro e Teresina ainda tem dificuldades para cuidar de suas praças. A cidade possui uma pequena quantidade de áreas verdes (embora o município seja chamado de “cidade verde”), calçadas, fachadas, fiação elétrica exposta que trazem poluição visual e que também são obstáculos na atmosfera de “magia natalina”. Gestões municipais historicamente priorizam obras, como pontes, asfaltos e construções. Logo, o senso estético da cidade é visto como supérfluo e a decoração, uma obrigação burocrática e não uma parte importante do projeto cultural urbano.
“Investir em beleza é um estímulo ao uso do espaço público e é muito legítimo. A dimensão ética e técnica é indispensável para uma gestão urbana que vise à plenitude da vida cidadã, e não apenas à funcionalidade mínima, estrutural e técnica. A arte deve integrar o dia a dia da população, e isso faz parte da vida da cidade. Precisamos manter as tradições de decorar, de criar espaços que sejam chamarizes para que a população vá ver, tirar fotos e se encantar. Hoje falamos muito em espaços ‘instagramáveis’. Mostrar que a cidade está valorizada é muito importante e é legítimo”, argumentou a professora de Arquitetura e Urbanismo da UFPI.
Público lota Palácio da Música para ouvir músicas clássicas
Uma das atrações natalinas de Teresina são os concertos de Natal do Palácio da Música. O Boletim Brio esteve presente no concerto com a Orquestra Sinfônica Jovem, realizado na última quarta-feira (10/12). O espaço, apesar de pequeno, estava completamente lotado. A música clássica é um gênero que não é tão forte culturalmente no Piauí, mas que resiste graças ao trabalho de artistas insistentes e de alguns gestores que incentivam sua prática.

Destaca-se o desempenho dos jovens músicos, que, como frisou o professor responsável, o maestro Moura Neto, têm aulas apenas aos sábados. A partir desse cenário, é possível compreender com clareza por que as programações natalinas são escassas e pouco difundidas: há dificuldades estruturais para que iniciativas como essa aconteçam. O estímulo à cultura, o apoio das famílias e o acesso da população aos equipamentos culturais revelam muito sobre a forma como o teresinense se relaciona com a arte. E isso impacta diretamente o que a cidade é capaz de oferecer ao público. Afinal, se não há fomento aos talentos, torna-se difícil disponibilizar à sociedade expressões culturais que agreguem à identidade de Teresina.
“O trabalho que desenvolvemos ao longo do ano é essencial para que, no final do ano, especialmente em dezembro, possamos ver os resultados. Não se obtém bons resultados apenas em novembro ou dezembro. É preciso construir durante o ano inteiro. O Palácio da Música tem uma programação anual voltada à formação de plateia, com atividades e cursos diferenciados para atrair o interesse de crianças e jovens. Como sede da Orquestra Sinfônica de Teresina, da Banda 16 de Agosto, da Orquestra de Sanfonas e de outros grupos, o Palácio oferece repertórios clássicos, eruditos e diferenciados, que ampliam a visão dos estudantes sobre música e cultura. Esse trabalho contínuo permite atrair novos públicos e agregar mais pessoas a cada ano”, contou Adnayane Marins, diretora do Palácio da Música, em entrevista do Boletim Brio.

Em síntese, o Natal exibe um potência criativa, mas também a fragilidade do investimento artístico local. Cidades que investem em cultura colhem resultados sociais, educacionais e econômicos. Nesse caso, torna-se evidente a necessidade de continuidade para que talentos não migrem nem abandonem a carreira. No Piauí, há público que frequenta eventos culturais, há quem não frequenta e também há quem nunca foi convidado a participar.
“ O Palácio da Música acolhe artistas durante todo o ano, dentro da programação anual da casa. Mesmo artistas que não participam da programação fixa têm acesso à disponibilidade de agenda para realizar concertos, shows, apresentações e descobertas de talentos. O Palácio é uma casa que acolhe a comunidade e, nesse período natalino, recebe pessoas que trazem arte, música, cultura e novos públicos. Muitos talentos são descobertos, especialmente nos recitais de final de ano, em que mostramos as diversas possibilidades que a música oferece”, narrou a diretora do Palácio da Música.
Os cursos são fundamentais para derrubar a ideia de que a música erudita ou outras linguagens artísticas são inacessíveis para uma parcela da população. Esse cenário reforça a necessidade de políticas culturais permanentes e integradas, que ultrapassem eventos pontuais e garantam condições efetivas para a formação artística, o pertencimento comunitário e o fortalecimento da identidade cultural piauiense.
“Aqui neste palco está o futuro da música clássica do Piauí. A gente só tem aula uma vez na semana, mas conseguimos ver o avanço de todos. As aulas se estendem durante toda semana com eles estudando em casa. Então nós professores vimos consertar no sábado o que eles estudam sozinhos em casa. Peço que continuem com a mesma força e a mesma garra”, mencionou o maestro Moura Neto, durante a apresentação.
Onde estamos e para onde vamos?
Apreciar o Natal, saber que existem concertos, reconhecer que há possibilidades culturais acessíveis e gratuitas, tudo isso molda a identidade do teresinense. Quando essas oportunidades são escassas, o impacto reverbera no pertencimento social e na formação cultural das próximas gerações. Nesse contexto, mestres, regentes, professores e gestores desempenham um papel decisivo na construção da memória cultural da cidade. São eles que mantêm vivo o elo entre tradição, educação e criação artística, contribuindo para que crianças e jovens desenvolvam sensibilidade estética e consciência do valor da cultura local.
A visibilidade dos artistas piauienses ainda é marcada por críticas recorrentes: a falta de políticas públicas contínuas, a ausência de programas eficientes de circulação de espetáculos custeados pelo poder público e a dificuldade de consolidar espaços permanentes para apresentações. Artistas reconhecem que o país vive um momento de fortalecimento cultural, com mais editais disponíveis e maior execução orçamentária federal, um avanço que, no entanto, ainda precisa se refletir de forma mais equilibrada e estruturada no cotidiano cultural das cidades.
Pensar a cultura de Teresina implica em pensar a cidade sem excluir a periferia, integrando-a como parte fundamental desse processo. Programações natalinas, símbolos festivos e rituais comunitários são práticas de pertencimento que devem alcançar todos os territórios, não apenas os centros mais desenvolvidos. São essas vivências coletivas que ampliam repertórios, fortalecem identidades e contribuem para que as futuras gerações tenham acesso a uma cultura plural, viva e verdadeiramente representativa do povo piauiense.





