Ieldyson, Maia, Wrias… medalhões fora do ar: o que está acontecendo com o mercado de comunicação no Piauí?

Profissionais renomados no telejornalismo do Piauí, como Maia Veloso e Ieldyson Vasconcelos, trocaram as televisões por projetos independentes e digitais. Wrias Moura, ex-diretor geral da TV Meio (antiga Meio Norte), deixou o grupo e segue no comando de projetos próprios de comunicação e eventos. O que está acontecendo com o mercado da comunicação no Piauí? Na crista da onda de polêmicas pelo mundo, o Jornalismo vive uma crise de credibilidade, mas ainda tem muita influência, relevância e audiência. Seja pela falta de transparência nas linhas editoriais, pelo boom das redes sociais ou o avanço de grupos ideológicos que questionam as instituições, há uma mudança no ar.

A relação de Ieldyson com a TV Meio
Ieldyson Vasconcelos anunciou sua saída do programa Bom Dia Meio, da TV Meio, em outubro do ano passado. Querido pela audiência e no ar com dezenas de patrocinadores, após 18 anos no comando do matinal, era hora de seguir em novos projetos. Dentre as justificativas de Ieldyson, relatadas publicamente, estariam o descontentamento com o horário, o cansaço do apresentar um programa às 06h e a vontade de desenvolver projetos inovadores.

Foto: Reprodução/ Youtube e Instagram
Ieldyson Vasconcelos – Foto: Divulgação/ Youtube e Instagram

À nível nacional, a presença digital fortalecida de jornalistas têm incomodado as emissoras. A imprensa especializada chegou a noticiar que um dos motivos que teria levado a apresentadora Márcia Dantas, que foi âncora do telejornal SBT Brasil e Primeiro Impacto, a ter o contrato encerrado, no início deste ano, seriam as gravações que ela fazia para suas redes sociais nos estúdios da televisão.

O apresentador Luiz Bacci, ex-Record, falou abertamente sobre o incômodo que o seu projeto digital – um portal e o Instagram – causou na emissora. Antes de ser demitido, ele relatou um incômodo com a carga horária da televisão. O conflito de interesses com anunciantes é o pano de fundo desse desconforto entre jornalistas e os proprietários das emissoras. É a disputa por um mesmo mercado.

Aqui no Piauí, Ieldyson Vasconcelos anunciou a criação da IelTV e segue com programação diária no Youtube, além de atuar em projetos independentes como o podcast, IelCast, que é referência no segmento. Na época em que deixou a apresentação na TV aberta, chegou a ser anunciado no site da TV Meio que o apresentador sairia de férias, voltaria em dois meses – em janeiro de 2025 – com o IelCast pela Rede Meio, o que não se concretizou. Até agora, nenhum novo projeto com a TV Meio foi anunciado.

O elenco da IelTV – Foto: Reprodução/Instagram

Ieldyson, que fez carreira e sucesso em programas policiais, agora lidera um programa diário de notícias variadas no YouTube. Passeia por diversas editorias, recebe políticos e traz um elenco com muita opinião. Na foto acima, os comentaristas: o diretor de inovação da Secretaria de Planejamento, Raphael Tataia; a professora, formada em Letras, Teônia Pereira; o empresário Antônio Gonçalves e o professor universitário, economista e ex-candidato a prefeito de Teresina pelo Novo, Tonny Kerley.

Por onde anda Wrias Moura?

O jornalista, ex-diretor geral e empresário Wrias Moura teve uma saída da TV Meio entrecortada por diferentes narrativas. Uma suposta demissão foi midiatizada antes do desligamento oficial, o que gerou muito burburinho. Demissão negada em vídeos e nota por Moura e pela direção do Grupo Meio, do empresário Paulo Guimarães.

Wrias Moura – Foto: Divulgação/Portal Em off

Ficou com Wrias Moura o comando da Micarina 2024, maior evento de Carnaval fora de época do estado e que historicamente era comandado pelo Grupo Meio. A bio do Instagram de Wrias Moura aponta o marco de 15 empresas sendo geridas. Dentre os empreendimentos, o Mero Hotel Boutique, em Barra Grande; e a agência de Marketing, Ativa Comunicação. Jornalista de formação, ex-apresentador do programa Super Top, que também foi comandado e fez sucesso com ele e a esposa, jornalista Raquel Dias, Wrias ficaria sem atuar diretamente em um veículo a longo prazo? As pistas apontam que não!

Procurado pela Ápice para comentar sobre as informações de bastidores de que poderia comandar uma concessão de rádio e televisão no estado, Wrias Moura não respondeu às mensagens.

Erlan Bastos: “A TV não está morrendo”

Erlan Bastos, profissional do ramo do entretenimento e que alçou seu nome na imprensa nacional, com passagens pela TV Cidade, afiliada à Record no Ceará; a TV Meio, em Teresina; TV Lupa 1, e recém-contratado da TV O Dia, avalia que o mercado tradicional de comunicação segue fortalecido, apesar das crises. Para ele, a percepção é que as pessoas assistem televisão para saber se o que viram na internet é verdade.

Erlan tem um portal de notícias de celebridades, o Em Off, que já teve entre suas colunistas a jornalista Fábia Oliveira, hoje no Metrópoles, uma das principais profissionais do segmento de cobertura de famosos do Brasil. Mesmo com presença maciça nas redes sociais, onde acumula seguidores e polêmicas, Erlan Bastos não abre mão de estar na TV e a defende:

É uma besteira pensar que você sair de um programa de televisão e ir para o digital, você vai ter a mesma importância, a mesma relevância e tão pouco a mesma repercussão do que um programa na TV. Claro que é um modelo inovador, é um modelo para o futuro, é. Mas um futuro de 100 anos, não é um futuro agora. Tentam vender a ideia de que a TV está morrendo, a TV não está morrendo, definitivamente não está morrendo. Da mesma forma que uma pessoa pode criar um canal no YouTube, qualquer pessoa pode fazer isso, qualquer pessoa pode montar um site, qualquer pessoa pode abrir um Instagram de fofoca”, opinou o apresentador Erlan Bastos.

Erlan Bastos – Foto: Divulgação

Maia Veloso se despede da televisão
Em uma postagem afetuosa e de agradecimento nas redes sociais, a jornalista Maia Veloso se despediu da TV Meio News em janeiro, com registros das suas participações em diversos telejornais da casa ao longo das últimas três décadas. No texto, ela destacou a descoberta de novas conexões, novos territórios e múltiplas plataformas. “Mudanças são bem-vindas, são privilégios e oportunidades. Me despeço do Jornalismo do Grupo Meio, com a certeza de missão cumprida. Me diverti muito esses dias lembrando quantos projetos e programas lindos fizemos na TV”, escreveu a apresentadora.

Jornalista Maia Veloso – Foto: Reprodução/Instagram

Precarização do trabalho

Empreender tornou-se um caminho mais lucrativo e mais livre, segundo jornalistas ouvidos pela Ápice. A precarização do trabalho atinge as redações de diversas formas. Existem os ideais jornalísticos e há o mercado, que impõe seu ritmo nas rotinas produtivas.

“No Piauí, creio que a questão financeira influencie bastante, já que alguns veículos exigem exclusividade e a remuneração não é adequada para essa exigência. Existe ainda a precarização do trabalho. Com a justificativa que o profissional precisa ser multifacetado, um jornalista às vezes precisa ser repórter, motorista, cinegrafista, editor e redator. Nunca foi fácil ser jornalista, mas definitivamente está sendo cada vez mais difícil. Falo de jornalista de verdade e não de quem pega um celular e decide que vai abordar pessoas nas ruas”, mencionou à Ápice a jornalista Andressa Martins. Recentemente, ela e o jornalista Gustavo Almeida, com quem é casada, deixaram o telejornalismo para abrir um portal de notícias próprio, o DitoIsto.

Andressa Martins e Gustavo AlmeidaFoto: Reprodução/ Instagram

Assim como é notada a saída de nomes renomados das televisões, nos últimos anos o ingresso de estagiários e profissionais da nova geração no vídeo também é uma realidade. A renovação no jornalismo piauiense existe, mas a motivação desse movimento, é suscetível a interpretações diversas feitas pelos próprios profissionais.

“Precisa-se de uma renovação no jornalismo, respeitando quem fez história, respeitando quem tem um nome conhecido pelo público. A diferença é que eles querem colocar novos jornalistas, por exemplo, eu fui realmente fazer uma crítica pública à uma emissora local do Piauí, que o repórter estava usando um pau de selfie, sendo repórter, entrando ao vivo, se filmando e filmando o entrevistado. E o pessoal chama isso de inovação, isso não é inovação, isso é a precarização do trabalho, é fazer muito ganhando pouco, e têm muitos empresários que rotulam isso como o futuro. Não, isso não é o futuro, está longe de ser. E muitos jornalistas acabam cedendo a esse tipo de situação vexatória”, declarou o jornalista Erlan Bastos.

A lógica do mercado

O professor de Jornalismo da Universidade Estadual do Piauí e doutor em Comunicação, Orlando Berti, analisou o cenário pela lógica mercantil que atinge a profissão.

“Há um grande público com afã de aprender e praticar (o que é normal em uma profissão de campo), há meios que sabem que um estagiário é mais barato que um profissional e assim o mercado se retroalimenta. O problema que o estagiário de hoje é o profissional de amanhã e, a maioria, será substituída por outros estagiários quando se formar, porque o mercado (mais uma vez, busca o lucro e, quase sempre, não atenta para a qualidade daqueles profissionais)”, avaliou Orlando Berti.

Professor Orlando Berti – Foto: Divulgação

Para as mulheres que trabalham no vídeo, a pressão estética é um fator associado aos desafios de gênero, os quais já desencadearam situações que levaram a jornalista Andressa Martins a pensar em deixar a profissão. “Vivemos sob pressão estética, naturalmente cobradas pelo “padrão” da televisão, mas não podemos ser tão femininas porque somos comparadas com homens, que biologicamente têm um tom de voz diferente. Diante disso, percebia a tentativa de algumas pessoas de fazer com que eu comprasse as ideias delas, emitisse a opinião delas, porque como sou mulher parecia ser mais fácil ser influenciada. Em um dado momento me senti menos importante e cheguei a pensar que o jornalismo não era pra mim”, relatou a jornalista.

Em entrevista à Àpice, o jornalista político Gustavo Almeida, relatou alguns dos momentos mais difíceis que já passou na profissão ao longo dos últimos dez anos.

“O mais difícil acredito que tenha sido em alguns períodos eleitorais, quando houve tentativas de superiores de me fazer sair daquilo que considero limites básicos dos meus princípios. Interesses nas empresas jornalísticas são normais, sempre existiram e sempre vão existir, mas há limites que não se pode passar (e muito menos querer exigir que outro passe). Esses momentos são ruins, mas o profissional precisa se impor em nome da sua imagem e reputação”, revelou o jornalista.

Quanto ganha um jornalista no Piauí?

De acordo com o site da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o piso salarial para os jornalistas piauienses é de R$ 2.424,00. Esse valor é pago em TVs, rádios, portais e demais meios.

A Ápice apurou que um profissional que realiza coberturas em Brasília para uma emissora local, por exemplo, pode receber uma média de R$ 8 mil, tendo que arcar com os custos do próprio cinegrafista (uma média de R$2,5 mil) e o alto custo de vida da capital federal, sem ajuda de custo. Outra opção é trabalhar sozinho se deslocando com o equipamento, incluindo tripé, microfone e iluminação. A situação não é ao todo incomum na capital federal, tendo profissionais de outros estados com dinâmicas semelhantes.

Para profissionais com experiência média, os salários chegam a R$3,5 mil no Piauí, a depender de negociações e cobertura do valor que o profissional já ganhava em outro veículo. Profissionais mais experientes, que atingem o grande público, podem ganhar em média entre R$5 mil e R$10 mil. Já os apresentadores, na maioria dos veículos, acrescido dos salários, ganham porcentagens de acordo com a quantidade de patrocínios veiculados nos programas. Apresentadores muito conhecidos, geralmente com décadas de experiência, têm salários no mercado local acima de R$20 mil e levam patrocínios também. Esses são a minoria da minoria.

Para onde caminha o jornalismo piauiense?

O Piauí é um estado com pouca industrialização, ao contrário da realidade do eixo Rio de Janeiro e São Paulo, onde estão sediadas grandes empresas e por meio delas consegue-se investimentos e recursos para manter e expandir veículos de comunicação. Com isso, ganha-se também mais liberdade e equilíbrio no repasse das informações à audiência nacionalmente.

Pensar o Jornalismo como a busca infindável da imparcialidade é o que profissionais aprendem nas faculdades, ainda que se entenda que a imparcialidade é um ideal, já que todos olhamos os fatos com lentes subjetivas que nos constituem enquanto sujeitos. Falar, muitos falam, ser ouvidos também. Mas a credibilidade, por enquanto, segue com o Jornalismo profissional, pilar de qualquer democracia, farol do desenvolvimento crítico e social.

“Vejo dois caminhos. O caminho de ascensão do Jornalismo que procura ser moderno, que interage com as redes sociais e as tecnologias atuais (inclusive com as inteligências artificiais) e consegue traduzir mais fácil o que o público pensa. Esse Jornalismo está cada vez mais afastado dos grandes meios, trabalha mais com nichos e até paga melhor. E o Jornalismo tradicional, que tem sua razão de existir e vai continuar existindo, mas se não mudar, achando que a população se informa apenas por ele vai terminar perdendo espaço”, concluiu Orlando Berti

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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