Boletim 17/02/25

Expectativa, promessa e comunicação: o que o mundo político espera da gestão Rafael, ano III Rafa

Prólogo

Todos os textos da humilde cronista são baseados numa máxima de Nicolau Maquiavel (capítulo 15 de “O Príncipe”), o pai da Ciência Política moderna: “Mas, como minha intenção é escrever algo de útil para quem quiser ouvir, pareceu-me mais conveniente ir direto à verdade efetiva das coisas do que à imagem que se tem delas”. Mãos à obra!

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Uma eleição é como uma guerra: nunca é unilateral.

O governo Rafael Fonteles é popular. Prova disso é a pouca força que o campo político oposto (leia-se, senador Ciro Nogueira, do Progressistas) faz para lançar um candidato competitivo em 2026. Ninguém quer gastar munição (dinheiro, capital político) numa disputa que os próprios oposicionistas admitem, em reserva, que se desenha como quase (atenção!) perdida de antemão. 

Mas, eleições ganhas (em tese) já foram perdidas (vide Geraldo Alckimin, então no PSDB, atropelado por Bolsonaro em 2018 ou, mais longe, Fernando Henrique Cardoso, que se afobou sentando, literalmente, na cadeira de prefeito de São Paulo em 1995, posando para uma revista e perdeu para Jânio Quadros1). Não adianta, eleição só termina quando acaba. Essa, nem começou, por mais antecipada que pareça. 

O que o mundo político espera de Rafael Fonteles em 2025 (falando de gestão, pelo menos uma vez na vida)? Já se passaram quase dois meses, podemos arriscar algumas apostas. Em comum, afirmado pelos atores relevantes ouvidos pela colunista, há pelo menos uma coisa: entregas. As grandes.

Tentarei ser objetiva, mas há uma narrativa se você estiver procurando por ela.

Fique comigo aqui e leia com atenção.

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Tem que entregar agora

Palavras de um deputado federal piauiense, da base do Governo, ouvidas pelo boletim: “Ele (Rafael) avançou na saúde, malha rodoviária, educação, isso aí tá rodando. Só que ele é uma pessoa fora da curva e pensa grande. As pessoas têm uma expectativa muito maior, como hidrogênio verde, porto, projeto de interligação do intermodal da soja. Essas obras precisam começar a se colocar em prática aqui, mostrar que a promessa começou a virar realidade, que vai sair do papel. Se a gente tem uma dificuldade, que eu enxergo que existe, é essa”. 

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Está tudo dentro do nosso cronograma

Ok, a base acha que o Governo tem que começar a fazer as entregas maiores. E da parte de lá, como eles enxergam? “Vai ser o ano de entrega, que é o rito normal: primeiro, organiza a casa, depois, lançam os projetos e no terceiro ano, concretiza, pra ser avaliado no quarto ano pela população”, pontuou um gestor do lado de dentro. 

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Nem tudo pode ser rápido 

A frustração é um sentimento advindo da criação de expectativas não realizadas, parcialmente ou ao todo. É um sentimento que qualquer gestor deve vigiar. “O Rafael tem característica de entregas rápidas, então todo mundo achava que o porto de Luís Correia ficaria pronto em 1 ano, por exemplo, aí gera alguma frustração”, completa um secretário estadual, em off.

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Uma leve mudança na comunicação

O melhor comunicador do Governo Rafael Fonteles é ele próprio, acredito que temos um consenso nesse ponto, leitor. E, ao que tudo indica, Rafael não está alheio às expectativas da população a respeito de tudo aquilo que ele prometeu há dois anos.

“Acho que governador vai começar a comunicar mais como está o andamento das obras. Está sendo feito o levantamento dos números, mas também tem muita coisa que, infelizmente, é burocrática. Tem coisa que depende da gente e coisa que depende de um todo…”, justificou um gestor do núcleo duro ao boletim. 

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Nosso mentor, Maquiavel

Ler Maquiavel é como consultar o vade-mécum da tomada de decisão. É urgente ler Maquiavel no presente. Claro, para Maquiavel nenhum “príncipe” estava à altura do cargo, nenhum estava disposto a agir com a velocidade ou precisão enérgica que os momentos exigiam. O que todo governante deve ter em mente? “Não deve ter outro objetivo nem outro pensamento a não ser a guerra e as instituições e a ciência da guerra”

Mas, o que realmente fazem os “príncipes”? Mais de Maquiavel:

“Nossos príncipes italianos pensam que basta imaginar, em seus gabinetes, uma resposta brilhante, escrever uma bela carta, demonstrar nas palavras sutileza e presença de espírito, saber traçar um estratagema, adornar-se de ouro e de joias, dormir e comer de modo mais abundante do que os outros…”.

Ora, se o cenário é assim, não custa dar um aviso: “O príncipe que quiser salvaguardar-se das conspirações deve temer mais aqueles aos quais fez muito bem e menos aqueles a quem fez muito mal”. E mais a colunista não escreve, por falta de espaço…

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Como se escolhe um vice: ponderando ou forjando?

Não está claro como será o critério de decisão do candidato a vice-governador de Rafael Fonteles em 2026. Primeiro: a cadeira é uma prerrogativa do governador, isso ninguém duvida muito. A questão é: vai ser uma decisão ponderada ou só forjada pelo grupo político? 

Explico: a decisão ponderada é a que o grupo é convidado a opinar. A decisão forjada, é assim: “Decidi que o nome é esse e quero o apoio de vocês (políticos) pra ele”. O leitor arrisca um palpite? Aqui não é o caso, como disse o grande escritor argentino Jorge Luís Borges, de “dois carecas brigando por um pente”, afinal, a eleição é de vice, mas a cadeira promete bem mais do que isso.

Washington Bandeira, Chico Lucas e Marcelo Nolleto, respectivamente / Imagem: Redes sociais

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Na época do WDias foi assim…

Se formos olhar para o passado do próprio governador, Rafael viveu uma escolha feita por Wellington Dias (e mais alguns). Wellington deu o sinal e ele foi forjado como candidato indiscutível à sucessão petista. 

Como afirmado em boletins anteriores — não acho que o ponto deva ser controverso — os pré-candidatos postos hoje são esses: Washington Bandeira é o Rafael na educação e Chico Lucas é a escolha de cátedra do PT. Por fora, Marcelo Nolleto está se movimentando como nunca. Só tem uma cadeira, não custa lembrar. Como já disse Tancredo Neves: “Não se faz política sem vítimas”.

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Águas de Teresina: quem regula é a Arsete ou a Agrespi?

A colunista ia resumir uma interessante conversa, mas não quero fazer injustiça.

O serviço de saneamento é extremamente complexo. Arriscaremos alguns pontos sobre o tema. Pano de fundo: a discussão sobre a qualidade e prestação de serviço da “Águas de Teresina” e a possibilidade de que se abra uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o assunto na Câmara de Teresina. Argumento: entre as agência reguladoras, estadual e municipal, Agrespi (dirigida por Antônio Torres) e Arsete (dirigida por Edson Melo), a quem cabe regular? (Como perguntar ainda é de graça…). Deixe-me ver se consigo articular isso2:

  1. ENTRE TAXAS E TAXAS: Uma fonte expert em Políticas Públicas*, fez a pontuação ao boletim: “A gente pode pagar 70% de esgoto em relação a água, sem problemas. Só que isso vai elevar o valor da tarifa de água. Empresa que entra numa concessão, obviamente entra num negócio com uma TIR – Taxa Interna de Retorno. A TIR é acordada contratualmente, o contrato pode mudar de várias formas, menos a TIR da empresa. Então, a gente pode reduzir a conta de esgoto e isso vai gerar aumento na conta de água. Simples assim”. Ok…
Edson Melo, da Arsete e Sílvio Mendes

2- O GOVERNO DO ESTADO PODE ENTRAR? A Constituição de 88 diz que esse é um serviço municipal, mas a lei de 2020 afirma que os estados podem organizar as Microrregiões com os municípios. Aí o município perde o controle do serviço, o que permite a prestação regionalizada (pode ser o caso de Teresina). “É bom para os pequenos municípios que isoladamente não interessam a iniciativa privada. Além disso, há uma regulação de diretrizes do governo federal pela ANA”, analisa o expert ouvido pelo boletim.

3- AGRESPI X ARSETE: Hipótese: se a Agrespi (agência reguladora do Governo do Estado) for a agência reguladora dos 224 municípios, a Arsete (agência reguladora de Teresna) perde o papel de regular o contrato da Águas de Teresina, certo? Claro, a Arsete não acaba porque ela pode regular outros serviços. Mas, hoje ela só regula o contrato da Águas de Teresina…

4- TEM SOLUÇÃO? A questão é se a Arsete e a Agrespi serão agências reguladoras fortes. Pode multar, mas tem que multar pela coisa certa? Como todo mundo sabe, o problema que existe é quando a concessionária presta um serviço ruim. Não conserta as ruas adequadamente… Pagar pelo saneamento é saúde, especialmente para os mais vulneráveis. Porém, o Governo Federal poderia, por exemplo, fazer um fundo para aumentar a base de pessoas na tarifa social, como existe na área de energia. Poderia, mas fará? Melhor não contar com isso.

Antônio Torres, da Agrespi

5- QUEM REGULARÁ? Ninguém está falando, mas há uma certa controvérsia em relação a isso, porque com a MRAE (Microrregião de Água e Esgoto do Piauí, que surgiu com o intuito de cumprir as prerrogativas legais do Novo Marco Regulatório do Saneamento Básico), toda a regulação dos 224 municípios foi para a Agrespi (do Governo). É hora das partes sentarem e se entenderem. Ou uma disputa judicial promete (ou já começou?).

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Se conselho fosse bom

Você deve acreditar que realmente tudo no mundo opera a seu favor. Pare de resistir à realidade. Morar no passado ou fazer investimentos emocionais no futuro irá lhe deixar preso pelo resto da vida. Se algo não funcionou, apenas agradeça pelo tempo dispensado e saia o mais rápido possível. O que aconteceu, aconteceu. A qualidade da energia que você projeta, é o que irá atrair de volta: ame quem você é e onde está agora. Você nunca deve ficar pensando em coisas que já aconteceram: isso é como nadar com pedras nos bolsos. Solte os pesos e viva com facilidade. Sua meta deve ser viver 100% no presente. 

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Cifrada do Povo Ingrato

Era uma vez, um Velho Rei, que partiu para a reclusão após a vitória de um Novo Rei de mãos calejadas. Agora aposentado em sua casa nas colinas, o Velho Rei via, preferencialmente ao meio-dia, as mudanças com olhos ressentidos. Afinal, quando foi a vez dele de fazer a transição, encontrou esqueletos no armário que achou por cortesia não divulgar. Considerava, portanto, uma grande injustiça e uma verdadeira perseguição estar sendo exposto pelo Novo Rei e seus Cavaleiros. Não satisfeito, mandou uma carta direto ao Novo Rei, anexada a um áudio enviado via Pombo-Correio, tomando as devidas satisfações. A resposta é aguardada. O povo é mesmo ingrato?

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Foto do dia

Um pouco de Semiótica (a ciência que estuda os signos e o que eles significam) rasa aqui. Há códigos de vestimenta que dão acesso a determinados espaços, ponto. Quando o bilionário Elon Musk entra no icônico Salão Oval com uma roupa informal e um boné, além de carregar o filho pequeno para uma entrevista com a imprensa ao lado do presidente norte-americano Donald Trump, ele nos informa visualmente: as regras servem para muitas pessoas, não para ele. Musk não precisa segui-las. De fato, esse é um governo diferente. 

O jogo do trumpismo na guerra tarifária com o mundo, por exemplo, tem usado um conceito básico em negociações: alavancagem. Não é que Trump queira uma guerra tarifária de fato, mas ele ameaça alto para dissuadir os adversários. Funciona, em partes, mas também acumula ressentimentos e, por fim, coloca a rival, China, como o “adulto na sala”, o player confiável e estável. Vai ser por aí mesmo?

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A frase para pensar

“Os agricultores que esperam por um clima perfeito nunca plantam. Se eles observam cada nuvem, eles nunca colhem”, Eclesiastes 11:4.

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Música da semana

Ao que tudo indica – e não que a colunista esteja preocupada com isso, claro – o Carnaval já começou realmente para algumas pessoas (para outras, nunca acabou, risos). A aposta do governador Rafael Fonteles como hit do Carnaval é essa: “Vaqueirinha da Hora”, de Junior Vianna e Edvan Batista. Rafael até arriscou cantar um trechinho, bem-humorado, no Instagram (o que vale é tentar, né?). O refrão é aquele: “Tem hora que dá vontade de bater no Piauí…”. E não é que dá mesmo? 

  1. Eça de Queiroz: “Nenhum fato é inútil na história, como nenhuma folha é inútil na vegetação”. ↩︎
  2. No entanto, eu entendo de Políticas Públicas em uma extensão razoável. Comecei um doutorado nisso (terminar é outros quinhentos). Mas falar de concessão é um pouco mais complexo para mim então uma fonte com “know-how” (conjunto de conhecimentos específicos) foi consultada. Ela não quis revelar a identidade, para poder falar com mais liberdade. ↩︎

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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