Ajustes de contas, climão e incertezas: os bastidores da reunião de Rafael com a turma do MDB e PSD
Na casa do deputado estadual João Mádison (MDB), em Teresina, estavam sendo servidos cafezinho, suco, caldo de carne, pãozinho artesanal, salada de fruta e queijo com goiabada da Fazenda JM. No meio da fala do governador Rafael Fonteles (PT), na noite de segunda-feira, 17, para os parlamentares do MDB e do PSD (a reunião começou 18h30 e terminou por volta de 21h), um deputado, que vamos chamar de X, não aguentou e se levantou.
“O governador falando e o X se levantou pra comer, atrapalhando a reunião o tempo todo. Aí foram uns seis numa lapada pra mesa, comer. O povo é muito inconveniente”. Entre apetites e farelos, salvaram-se todos. Ou quase todos…

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Quem mais levou pancada
Um resumo honesto do encontro? “Castro Neto (deputado federal do PSD) levou muita pancada e o Georgiano (Neto, deputado estadual do MDB) também”, resumiu um parlamentar presente: “Inclusive minhas”, admitiu o político. A maior ausência foi a do senador Marcelo Castro (MDB), que estava em Brasília destravando imbróglios urgentíssimos, segundo conta a justificativa dada. A alegação não aplacou a turma do deputado federal Júlio César (PSD), que deseja ser candidato a senador ao lado de Marcelo.

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Então ele está mandando prefeito pro Ciro?
“O pessoal do Júlio tavam pistola. Perguntaram: ‘Cadê o Marcelo?’. Aí falaram, ‘Não, ele tá numa viagem pra Brasília’. E questionaram: ‘Viagem de quê? E a gente não tem compromisso não?’”, narrou um interlocutor que ouviu tudo in loco (as informações foram checadas pelo boletim com mais de uma fonte, como mandam as boas práticas jornalísticas).
Os julistas (defensores de Júlio César) classificaram a ausência de Marcelo como uma “falta de respeito” e um fato “muito estranho”. Ah, e mais: “Isso só confirma a informação que o Marcelo está mandando prefeito dele ir pro Ciro (Nogueira, senador do Progressistas)”, disse um, na hora da reunião. Climão.
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Ele nunca mandou prefeito pro Ciro!
Sobrou para Castro Neto defender o pai. Segundo contam os que lá estiveram, Castro Neto lembrou que o pai “é um homem sério”, e considerou a acusação como “muito grave”. Na defesa de Marcelo, se seguiu essa linha: “O que Marcelo faz é perguntar em quem o prefeito vota para o Senado e anota, só isso”. Ah, os deputados emedebistas Ana Paula, Henrique Pires e Severo Eulálio defenderam Marcelo Castro, afirmando desconhecer totalmente a especulação de que o senador tenha mandado algum prefeito para compor uma dobradinha informal com Ciro Nogueira. Para isso servem os amigos!

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A vaga de primeiro suplente está no circuito
Claro, nem tudo são farpas, estocadas e piadinhas. O deputado Júlio César deu uma notícia que alegrou a todos: a vaga de primeiro suplente dele para o Senado está à disposição do MDB, PT ou do governador indicar. “Os caras gostaram desse aceno, foi muito forte, os olhos brilharam. E ainda foi dito que eles lá do PSD gostam muito do Themístocles (Filho, vice-governador), mas apoiam o vice que o Rafael escolher. O Themístocles não estava, só os meninos dele (deputados Marcos Aurélio, federal, e Felipe Sampaio, estadual)”, narrou um outro deputado ao boletim.

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Critério: ou tem voto ou tem dinheiro
Um deputado, conhecido pelo bom humor e pragmatismo, pegou a deixa e disse então que a vaga de primeiro suplente deveria obedecer a dois critérios: “- Ou alguém que traga muito voto, ou tenha muito dinheiro pra ajudar na campanha”.
Na mesma hora, alguém gritou: “ -Se for esse último critério bota o X (vereador de Teresina bem votado e presente na reunião)!”. Risadas gerais.
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Queremos o anúncio formal da chapa pra ontem
O que o pessoal do PSD queria mesmo, não será possível. Para eles, o governador deveria anunciar, formalmente e o quanto antes, que os candidatos ao Senado são Júlio Cesar e Marcelo Castro. Sem o anúncio, para o público e o mundo político, eles acreditam que tudo caminha para terminar em uma guerra interna entre Júlio e Marcelo Castro, beneficiando o adversário Ciro Nogueira.
Ao ouvir o apelo pela publicização da chapa de Senado, um emedebista completou: “Pois anuncie logo também o candidato a vice porque nós queremos nos organizar! (em referência a situação de Themístocles Sampaio)”.

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Vai ficar pra depois esse anúncio da chapa
Resposta: nenhum nome da chapa majoritária, exceto o de Marcelo Castro, que busca a reeleição, e do próprio Rafael, será lançado agora. O que o governador Rafael Fonteles vai continuar dizendo para a imprensa é que na chapa majoritária tem uma vaga para o MDB e outra para o PSD.
Por que não anunciar então, ora bolas? Simples. Para não antecipar a eleição e prejudicar a gestão. Se anunciar candidato a senador, tem que anunciar o vice e aí começa o falatório antes do tempo. O leitor entendeu ou precisa desenhar?
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Vou ser eleito só com meus amigos
Até que chegou a hora em que um suplente de deputado (e que no passado soltou os cachorros em Georgiano Neto por conta da invasão de suas bases), disse que já tinha perdoado o colega e que de agora em diante iria focar sua campanha com os votos dos “amigos e amigas”.
Uma deputada sem papas na língua pegou a deixa e emendou: “Por isso tu não se elege nunca, Fulano. Fica querendo fazer eleição só com voto dos amigos!”. A turma não segurou o riso…
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Lapada
“Não tenho problema nenhum com essa prostituição de liderança, meu problema é não usarem da instituição majoritária pra pegar voto pra uma pessoa só”, alertou um federal na reunião. Silêncio sepulcral. O alvo das falas aguentou calado.
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Batidinha do bem
Coube a um político tranquilo tentar harmonizar o pós-reunião com a senadora Jussara Lima (PSD), que viu quase todo mundo batendo no filho, Georgiano Neto: “Mas é uma batida boa, dizendo que ele é forte. Eu queria é que todo mundo falasse de mim, que eu sou um trator…”, argumentou o político.

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A gente pode fazer o Ciro desistir
Sim, é possível segundo as pesquisas (do Governo, claro), eleger dois senadores na base aliada. Há, inclusive, a aposta de que um crescimento de Júlio César poderia resultar na retirada da candidatura de Ciro Nogueira, lá na frente: “Ele (Ciro) poderia não ser candidato para não perder”, apostou um interlocutor do encontro. Será pra tanto?

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Indireta pra todo lado
Líder: “Pois é, para ser candidato majoritário, tem que querer…”
Esposa do candidato, em defesa: “Mas ele quer. É que deixaram ele na mão outras vezes…”
Líder: “Na minha eleição eu saí às cegas… tem que ter essa coragem!”
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Se todo mundo fizer o combinado…
Por fim, a fala do governador foi lida como pragmática e incisiva, mais ou menos nesse estilo: “Meus amigos, eu acho que vocês estão perdendo oportunidade grande de se entenderem… São 25 testemunhas. Se cada um fizer sua parte me dou por satisfeito”. E aí, leitor, cada um vai fazer a sua parte?
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Te resumo tudo em um parágrafo
Saldo final? “O PSD ficou satisfeito, mas não ficou 100% porque acham que tem que ter uma conversa com Marcelo (Castro) presente. O MDB também ficou satisfeito porque os caras queriam o fortalecimento da chapa estadual. E a maioria dos que estiveram lá percebi que também se comprometeram com essa ideia dos dois senadores”, resumiu um deputado governista com quem a colunista foi checar o burburinho.
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Federal de jeito nenhum; estadual, quem sabe
Na percepção dos presentes, a cúpula Governo estadual dá mostras concretas de não querer chapinha de federal (uma terceira chapa além do PT e do PSD, que poderia ser montada no Solidariedade, Republicanos ou PDT): “Claramente não concorda (com chapinha) porque acha que rodou uma vaga de federal na eleição passada assim”. Mas a de estadual? “Li nas entrelinhas que é algo que não depende do Governo, mas a turma foi pra cima, dizendo pra travar tudo de quem fizer chapinha. Vamos ver ainda…”. Quem viver, verá?
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O dia depois da reunião: as consequências
Membro de uma chapa média, um político importante ficou sabendo da reunião MDB/PSD e garante que, até o momento, nada muda na estratégia dele: “Por que eu tenho que me agoniar pra correr atrás do Rafael (Fonteles)? Só digo que não vaí ter chapinha (federal/estadual) quando o Rafael me chamar e dizer que não vai ter chapinha. Ele pode não dar o apoio, mas não pode impedir ninguém não”. Então…

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Como travar uma chapa: receita infalível
Mas, e aí? Sem apoio do Governo, dá para montar chapa? Com a palavra, um político de Brasília: “Só não ajudando já é uma trava doida. Se não der orçamento pro povo não vai ter extra pra fazer chapa”. Ihhh…
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A diferença dos amadores para os profissionais
Um novato gente boa, que almejava ser eleito numa chapinha de estadual em 2026, saiu de lá desolado: “Não dá pra ir contra o chefe não, o chefe não quer chapinha. Eu vou pelo PT…”, informou aos ex-aliados de empreitada. Mas essa visão não é unânime: “Se não houver entendimento eu vou correr pra salvar o meu e pra mim é chapinha”, respondeu outro político, esse um profissional, em conversa com o boletim. Consenso? Hoje não!
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Se conselho fosse bom
Lutar por aprovação é exaustivo e desnecessário. Alguns vão gostar de você, outros não, mas nada disso deve abalar o seu ser. Você pode ser o pêssego mais maduro e suculento da árvore, mas algumas pessoas não gostam de pêssegos. Preocupar-se em agradar a todos é uma perda de tempo e energia. Agora, por favor, não confunda isso com mostrar exatamente quem você é na internet ou vida pública. O que você mostra é o que você quer que as pessoas vejam. Faça isso de maneira estratégica e calculada. Sua reputação não é quem você é, ela é apenas a sua sombra. Aprenda a modelar o que você projeta e deixe os outros perseguirem a parte que eles conseguem ver.
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Cifrada das Desforra
Considerando ter sido vítima de uma perseguição com fins eleitorais, um político desabafou recentemente quando os ventos da história mudaram a seu favor. Até aí tudo bem. É legítimo a quem se sente injustiçado, ter sua desforra. O problema é que o político comemorou um pouquinho (eufemismo) acima do tom. Uma turma que entende do assunto alerta para as consequências inevitáveis: “Véi, que tiro no pé. Colocou um alvo nas costas. Agora esse cara vai ser caçado (no sentido de caçar animal)!”. É de bom tom não procurar sarna pra se coçar?
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Foto do dia
Se Daniel Oliveira vai deixar o Meio Ambiente para a pasta de Turismo (adiantado na semana passada por essa humilde cronista), quem vai para a Semarh? “Zero a possibilidade de um político lá na Semarh”, afirmou um gestor de primeiro escalão, questionado pelo boletim se tinha alguma chance do ex-deputado e atual diretor da Agespisa, Zé Santana, ir pra lá.
Ok, mas a Agespisa, todo mundo sabe, virou uma Parceria-Público-Privada. Não será juridicamente complicada a permanência de Santana, que é um diretor político, subordinado à PPP, que presta contas à União? “Ele (Santana) pode ir para um cargo intermediário (no Governo)”, apostou um interlocutor de cima, que frequenta salas geladas. Outro politico com cacife, aponta caminho distinto: “Ou pode só cuidar da campanha dele mesmo de deputado federal…”.
Não sendo Santana, quem vai para a Semarh? Pedro Rocha, secretário-chefe do gabinete do governador (equivalente a Casa Civil), seria bem-vindo na Semarh (inclusive se reuniu ontem com Daniel Oliveira)? Mais sobre isso no boletim de amanhã. Paciência, leitor.


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A frase para pensar
“Se alguém realiza algo bom com esforço, o esforço passa, mas o bem permanece. Se alguém faz algo desonroso com prazer, o prazer passa, mas a desonra permanece”, Musónio Rufo, filósofo estóico do século I.




1 comentário
Raphael Silva
Parabéns pelo trabalho.