O coordenador Antônio Quaresma lotado para o Museu da Imagem e do Som (MIS) foi exonerado. Nomeado ainda na gestão do ex-prefeito Dr. Pessoa (PRD), a saída era esperada – praxe em transições de governo. O prédio está pronto. A estrutura foi concluída, já contando até com um acervo. Entre os tesouros guardados ali, a obra do poeta piauiense Torquato Neto. Mas as portas continuam fechadas.
A cena cultural teresinense, inquieta, se pergunta: e agora? Qual será o destino do MIS? A coluna Todavia foi ouvir os interlocutores envolvidos no processo até aqui e traz os detalhes nesta apuração.
Ao lado da Rua Climatizada, uma corrente larga foi instalada em frente ao prédio do MIS, impedindo que a calçada seja usada como estacionamento por motoristas que circulam pelo Centro de Teresina.

Museu não existe no atual organograma da prefeitura
Embora estruturalmente pronto, o MIS não existe no organograma da Prefeitura de Teresina. A informação foi confirmada pelo próprio prefeito Sílvio Mendes (União Brasil) à Todavia após ser procurado por Whatsapp. Se algo não existe no organograma de uma prefeitura, significa que essa estrutura, cargo, setor ou departamento não está formalmente reconhecido dentro da administração municipal. Assim, não pode ter orçamento próprio, atribuições definidas ou até mesmo servidores designados para atuar nele.
Seria esse o grande empecilho para colocar o MIS em funcionamento?
Sílvio Mendes confirma à Todavia que mudará a sede da FMC para o MIS
Em conversa com a coluna, Sílvio Mendes adiantou, com exclusividade, outra mudança: a sede da Fundação Monsenhor Chaves (FMC) será transferida para o prédio do MIS. Hoje, a pasta que cuida da Cultura em Teresina opera em um edifício na Rua Félix Pacheco, no Centro, sob o comando do maestro Aurélio Melo.
“Verdade. A Fundação Cultural Monsenhor Chaves vai pra lá (prédio do MIS) e cuidará de tudo. Tem espaço suficiente e deixaremos de pagar aluguel”, disse Sílvio.

Quem administrará o MIS? A pergunta que não quer calar
Há pouco mais de 10 dias do início da gestão e 22 dias após a inauguração do MIS, ainda pela administração de Dr. Pessoa, o secretário de Planejamento municipal de Sílvio Mendes, Marco Antônio Ayres, fez uma visita ao prédio junto de uma equipe técnica. O objetivo era constatar o que precisava ser feito para abrir e colocar o MIS em funcionamento.
Marco Antônio Ayres: “MIS foi feito a toque de caixa”
Em entrevista à Todavia, Marco Antônio Ayres avaliou que o MIS foi feito “a toque de caixa” (expressão popular para dizer que algo foi feito às pressas) na gestão anterior, sem planejamento sobre como seria operada. Para viabilizar o museu, ele defendeu que prefeitura estude a possibilidade de passar a administração do MIS para uma entidade privada ou semi-privada. Uma possibilidade ventilada é o Serviço Social do Comércio, o Sesc – presidido no Piauí pelo empresário Valdeci Cavalcante.
“Eu sou da corrente e, essa é a minha corrente pessoal, Marco Antônio, de que um órgão público deve construir um equipamento, mas não deve operar pois, muitas vezes, tem a burocracia de aquisição. Às vezes, algo não pode funcionar, porque falta um papel ou caneta e você não pode [adquirir logo], porque tem que licitar. Então, com a iniciativa privada ou semiprivada você dá uma destinação mais tranquila. Estamos estudando uma maneira de operar esse museu, agora a FMC vai se instalar no último pavimento até para poder habitar o imóvel”, disse o secretário, ressaltando que a ideia ainda será levada a Sílvio Mendes e que será o prefeito a dar a palavra final.

João Henrique Sousa: “O MIS não está solto no espaço”

Procurado pela Todavia, o ex-secretário de Planejamento da gestão Pessoa, João Henrique Sousa (MDB), confirmou que o museu, de fato, não está no organograma. Mas acrescentou que o MIS não está “solto no espaço”.
Segundo ele, existe um decreto ligando o Museu da Imagem e do Som à Secretaria Municipal de Planejamento (Semplan). Isso, de acordo com ele, significa que a pasta poderia destinar recursos para operá-lo. Já para transferir o museu para a Fundação Monsenhor Chaves (FMC), seria necessário um novo decreto revogando o anterior.
“O museu não está solto no espaço. Existe um decreto ligando-o à Semplan. Se a Semplan quiser usar do seu orçamento hoje para funcionar o museu, pode.”, destacou. “Se, por exemplo, eu contratei um coordenador, via Semplan, o Quaresma, foi nomeado e tirado agora porque era um cargo em comissão. Então, no dia 31, ele caiu, mas foi escolhido um coordenador do museu”, explicou.

A Orquestra Sinfônica: patrimônio de Teresina
O ex-ministro disse mais: destacou que, atualmente, a prefeitura mantem um equipamento cultural de grande porte, assim como o museu: a Orquestra Sinfônica de Teresina, criada com apoio dele no passado. Segundo o ex-secretário, a orquestra custa cerca de R$ 300 mil por mês.
“A orquestra custou um milhão de dólares. Dificilmente, hoje, alguém ou algum prefeito tiraria um milhão de dólares, [fazendo a conversão] R$ 6 milhões, para aplicar na orquestra, até porque a prefeitura não tem esse fôlego. E muito pior, há vinte anos”, pontuou relembrando a época em que fora presidente do Correios e destinou recursos para pagar músicos e adquirir novos instrumentos, como trompa, fagote, oboé e outros para a Orquestra Sinfônica.
“Seria um erro transformar o MIS em sede de repartição pública”
Ele finalizou dizendo, embora avalie positivamente a ida da FMC para o MIS, teme que o museu acabe sendo usado para outro fim administrativo da prefeitura, como sede de secretarias. Para ele, seria um erro transformar o MIS em repartições públicas. “O museu é uma estrutura importantíssima para a cidade”, disse João Henrique Sousa.
Caso a prefeitura não consiga manter o MIS, ele defendeu que seja feito um “comodato”– empréstimo gratuito de um bem, onde a parte que cede permite que a outra parte utilize-o por um período determinado, sem custos, mas com a obrigação de devolver em bom estado ao final do contrato. Uma parceria sugerida por ele também foi o Sesc.
Valdeci afirma que Sesc está aberto ao diálogo

Procurado pela Todavia, Valdeci Cavalcante afirmou que o Sesc está aberto ao diálogo, mas ressaltou a necessidade de examinar as condições antes de qualquer decisão. “Poderíamos ser sim uma opção. Mas precisamos examinar as condições dessa parceria”, disse o empresário.
Prédio já foi banco, Câmara, Salve Sainha…. O que esperar do futuro?

Construído em meados de 1920, o prédio que hoje abriga o MIS, com o acervo do Torquato Neto, já foi a sede da primeira agência do Banco do Brasil em Teresina e também abrigou as dependências da Câmara Municipal de Teresina em 1946 e foi até do Exército Brasileiro. Originalmente, as obras para a transformação no museu foram planejadas para serem concluídas em 2014, o que não aconteceu.
Nesse período, o prédio chegou a ser ocupado pelo “Coletivo Salve Rainha”, um projeto cultural que tem o objetivo de valorizar o patrimônio histórico da cidade, e que usou o espaço para diversas atividades culturais, principalmente ligadas à arte, música e poesia. Um dos idealizadores, o jornalista Francisco das Chagas Júnior, morto em um acidente de trânsito, chegou a ter o nome cogitado para batizar o museu.
Quase 10 anos depois, a reforma e revitalização foi concluída pela extinta Superintendência das Ações Administrativas Descentralizada (SAAD) Centro.
Com um investimento de quase R$ 8 milhões, além da exposição de Torquato Neto, o museu tem uma pinacoteca, salas especiais para edição de vídeo, gravação de som, revisão de filmes e digitalização de fotografias, biblioteca, restaurante, auditório, lojas, cafeteria e um salão externo.
Centro enfrenta esvaziamento, avalia produtor Cultural
A história vivida pelo MIS, ao longo dos anos, não é um reflexo muito diferente do que o próprio Centro de Teresina tem vivido atualmente. Fontes ouvidas pela Todavia concordam que a região está cada vez mais “esvaziada”, não só culturalmente, mas também populacional e comercialmente. Até o ano de 2010, o Centro de Teresina era um ponto pulsante da cidade.
No entanto, houve um declínio gradual desse movimento. Na avaliação do publicitário e produtor cultural, Richard Henri isso tem acontecido, principalmente, por dois fatores: 1) a mudança de perfil da área, com a transformação do centro de residencial para comercial. 2) a questão da segurança pública e do aumento da criminalidade, com o crescimento do número de pessoas em situação de rua e dependentes químicos, especialmente após a pandemia.
“Tem sido cada vez mais difícil ocupar o Centro. Não só a cena cultural e artística de Teresina está diminuindo no Centro da cidade, como também o próprio comércio está se deslocando, porque nem o comércio consegue lidar com a marginalidade que toma conta do local após às 18h, quando fecha. Assim, o que percebemos no Centro da cidade é muito mais do que um esvaziamento cultural; é um esvaziamento comercial em geral e um esvaziamento populacional, um esvaziamento completo do que se entende como a capacidade de uma cidade manter a vida ali”, disse.

Para ele, esse processo incluiu a revitalização estrutural que já foi feita, com a instalação de calçadões, iluminação, além da necessidade de um reforço na segurança, mas também uma política para as pessoas em situação de rua e dependência química. Em Teresina, após a pandemia, a população em situação de rua cresceu 100% nos últimos três anos, segundo levantamento da Pastoral do Povo de Rua, que já atendeu mais 1,5 mil pessoas na cidade no projeto “Consultório Rua”.
Olhando para a história do Centro, é importante compreender que, em uma cidade, tudo está interligado. A cultura, infraestrutura, saúde e segurança são curvas de uma mesma corda, se uma se rompe a outra vai junto. Para manter Teresina viva, pulsante e boa de se viver, é preciso olhar para todos os seus ângulos, reconhecendo que nada existe de forma isolada. Cada pedaço da cidade – seja uma rua, um bairro, um museu ou o comércio – é parte de um todo que, ao ser cuidado de maneira integrada, garante o equilíbrio e a continuidade da vida naquele lugar.





