
“O meu necessário é alimento, é só alimento”
A frase, dita com uma naturalidade, é de Lúcia Maria Pereira, de 47 anos. Ela vive em situação de rua há anos e está, atualmente, às margens de um córrego, perto dos trilhos do metrô de Teresina, na região da Avenida dos Ipês. Para ela, o pequeno abrigo improvisado é o seu lar. “Eu acho que eu não deveria morar na rua ou na praça. Eu acho que aqui é melhor”, explicou.
Ao dizer essa frase com tanta naturalidade, Lúcia está afirmando que sua necessidade básica e urgente se resume à comida. Não há espaço para sonhar com bens materiais, lazer, conforto ou qualquer tipo de luxo. O essencial, para ela com a perspectiva que pode usar para sobreviver até aqui, não é “melhorar de vida” em termos abstratos, mas garantir o que comer no dia.

Lúcia contou ter nascido em Campo Maior, no interior do Piauí, distante 83 km da capital. Lá, morava em condições que descreveu como “muito piores” das que convive atualmente, até que a fome a empurrou para a capital. “Lá também estava passando fome, no interior”, diz. Veio à Teresina pedindo carona sem ter um destino certo. Ela descreve que a esperança era a de encontrar um emprego e oportunidades de vida que não teve na cidade natal.
Não encontrou. Atualmente, para sobreviver pede no sinal, segurando placas para atrair moedas e alguns trocados. Ela também contou ser mãe de dois filhos adultos (um de 24 anos, e o outro de 18) que vivem com ela no mesmo espaço. Os dois, no entanto, não foram vistos durante o momento da apuração. Ela ressaltou que aceita fazer serviços de limpeza de jardins, calçadas, assim com a dupla de rapazes também faz. Perguntada pela Todavia sobre como estão as finanças com essas atividades ela responde:
“Nem um real pra contar”, resume Lúcia.
O córrego, é para ela um motivo de apreciação e uma das razões de ter se instalado ali. Porém, contou um episódio onde ficou sem água para beber, ingeriu o líquido dele e ficou com diversas manchas na pele. Quando perguntada se gosta de morar ali, responde sem hesitar: “Adoro. É muito melhor do que quando eu morava em Campo Maior”
A vida de Lúcia é, em si, um retrato do lado mais vulnerável de Teresina, uma cidade que se ergueu planejada e se expandiu desordenada. Mas, foi nesse centro urbano, marcado por tantos contrastes, que Lúcia encontrou, à beira de um córrego, a possibilidade de existir com alguma estabilidade, ainda que frágil, mas o suficiente para sustentar vida dela e a do filhos que contou ter.
Por trás dos números, o que as histórias reais revelam
O número de pessoas que não tem uma moradia digna, ou seja, com condições básicas para a vida, em Teresina, é de 35 mil, de acordo com dados da Fundação João Pinheiro. A Todavia optou por iniciar este texto com uma história, porque os números, muitas vezes, não conseguem transmitir rostos humanos nem sensibilizar a sociedade. Por trás de cada número existe uma vida complexa, com histórias de vulnerabilidade, violência e resiliência de pessoas que, mesmo estando nas ruas que cruzam diariamente com o restante da população da cidade sem serem realmente vistas.
O abrigo organizado na calçada da Barão

Outro caso emblemático, e que chama atenção justamente por acontecer em uma das vias mais movimentadas da cidade, é o do homem conhecido como “Carlos”. Ele ergueu um pequena “abrigo” improvisada com placas, panos e papelão na calçada da Avenida Barão de Castelo Branco, zona Sul de Teresina.
A estrutura fica próxima a um posto de gasolina e a um restaurante, locais de intenso fluxo de trabalhadores e clientes. Carlos é comunicativo com quem se aproxima, mas resiste a qualquer tentativa de entrevista. Não aceitou ser fotografado e nem quis contar a sua história, explicando que já foi abordado por jornalistas antes e que não pretende conceder entrevistas.
A partir de conversas com pessoas da vizinhança, apurou-se que ele seria natural de Parnaíba. Além disso, vizinhos relatam que ele cuida do pequeno abrigo com atenção e cuidado.
As pessoas que vivem totalmente em situação de rua: um problema ainda mais extremo
O Piauí tem 1.6 mil pessoas vivendo em situação de rua, de acordo com um levantamento realizado em 2025 pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A maior parte vive em Teresina. O perfil é de pessoas que são negras, entre 40 e 59 anos. A maioria até começou a estudar, mas, respondeu que tinha o Ensino Fundamental incompleto. Pelo menos 13 chegaram ao ensino superior, porém, não concluíram.
A Todavia conversou com o Francisco dos Santos, de 40 anos, que viveu em situação de rua e contou sobre a vida dele nas vias da cidade. “Costumamos dizer, no nosso meio, que passamos por essa situação, que só muda o personagem, a história é a mesma”, começou.

Músico aos 25 anos, Francisco do Santos viu sua vida virar de cabeça para baixo. Após a separação da esposa, perdeu a casa e todos os seus bens. O consumo de drogas pesadas, especialmente o crack, foi rápido e destruidor, e ele descreve esse período como vivido de forma quase automática. Em um relato emotivo e sincero, Francisco revelou que, no auge do vício, chegou a tentar matar a mulher com quem vivia, um episódio que culminou no fim do casamento e na saída dela de sua vida.
“Eu tinha a minha casa, morava com a minha esposa. Quando ela foi embora, levou tudo. A casa ficou vazia, aí se tornou quase um fumódromo, chegou em uma situação que não tinha como eu ficar dentro dela, porque estava em risco de ser invadida pela polícia, tinha muito usuário lá. Foi esse momento que fui ficando na rua mesmo, andando da Santa Maria, Primavera, Centro, andava em uma situação degradante. Depois que conheci o crack, todo o resto foi automático”, lembrou.
Além das perdas, umas das memórias mais vividas que Francisco tem é da fome e da vida nas ruas. Pela manhã, não tinha sequer café, juntava latinhas e alumínio, vendendo-os para comprar mais drogas. “Todo o interesse naquela rotina era só para a droga”, relatou. Mesmo quando recebia um prato de comida ou água, o efeito do crack tornava qualquer refeição sem sabor: “Era como se colocasse uma sacola de plástico na boca, não tem gosto, não tem nada”, descreveu ao relembrar a degradação física pela qual passou.

A saída do mundo das drogas começou com o apoio da mãe, ele ingressou no tratamento de sete meses, após ele próprio sofrer uma tentativa de homicídio. Após a recuperação, direcionou essa experiência pessoal para ajudar outras pessoas que enfrentam situações parecidas. Ele fundou uma comunidade terapêutica, o “Todos pela Vida”, que atualmente atende 40 pessoas entre Teresina, Timon e Maranhão. Ainda em um CNPJ próprio, a ação funciona com doações e apoio de amigos e familiares, focando na reabilitação física, emocional e espiritual dos membros.
O que leva as pessoas a morarem na rua no Piauí?
As razões, como a coluna mostrou, para as pessoas acabarem nas ruas são diversas e têm raízes diferentes. Algumas se desconectaram da família e do trabalho em razão do vício em drogas, outras vivem em cenários de extrema pobreza, mas, sonham tanto em ter um lar que improvisam um abrigo com o que encontram.
Procurada pela Todavia, Daniely Santos, gerente do Centro Pop, unidade pública municipal que presta serviços especializados e continuados para pessoas que utilizam as ruas como espaço de moradia e sobrevivência, explica o perfil dessa população.
“O público em situação de rua é predominantemente formado por homens, jovens e adultos, embora mulheres também estejam presentes, porém em menor número. O uso de álcool e outras drogas é uma causa ou agravante comum para a saída e permanência na rua”, descreveu.

Em entrevista à Todavia, Daniely acrescenta que o cenário de vulnerabilidade é complexo, já que a ida para a rua pode ser desencadeada por fatores isolados, sequenciais ou simultâneos, como desemprego, rompimento de vínculos familiares e conjugais, além de transtornos psiquiátricos, frequentemente agravados pelo uso de álcool e drogas.
“São pontos que afetam a capacidade de buscar ajuda e manter o acompanhamento profissional, o que, em conjunto, consolida a situação de vulnerabilidade social”, ressaltou.

O autor Johann Hari, no livro lançado, em 2015, “Na Fissura: Uma História do Fracasso No Combate às Drogas”, defende que a dependência química não é só o resultado de substâncias químicas agindo no cérebro e está, na verdade, ligada às experiências de vida e à falta de conexões humanas nessas pessoas. Ele argumenta que muitas pessoas que se tornam adictas carregam perdas, traumas ou rupturas afetivas que deixam um vazio emocional. Esse vazio, segundo Hari, é o que muitas vezes leva os indivíduos a buscar nas drogas uma forma de preencher a lacuna que a vida lhes impôs.
O pesquisador descreve que, quando alguém não consegue se conectar com outras pessoas ou com a própria vida de maneira saudável, a droga se torna um substituto emocional. Em vez de lidar com a dor ou a solidão, o vício oferece alívio temporário e sensação de pertencimento ou escape, mas não resolve a causa do sofrimento.
Um problema enraizado
Histórias como as de Lúcia, Carlos e Francisco são símbolos de uma vulnerabilidade social que se estende muito além de suas histórias pessoais. Evidenciam falta de moradias acessíveis, o cenário de extrema pobreza e a ruptura de vínculos familiares, os problemas que levam ao vício em drogas. É no olhar e na fala dessas pessoas que se percebe a profundidade do problema estrutural de desigualdades históricas e de políticas públicas que falharam em prever e amparar os mais vulneráveis.
Os programas sociais que existem como o próprio POP Rua, mutirões para emitir documentos e promover serviços de cidadania e todo o acompanhamento assistencial são necessários, ajudam dando apoio, e merecem ser ampliados. Mas, sozinhos não curam a ferida. Em outro aspecto também, muitas dessas pessoas sobrevivem graças à solidariedade de teresinenses que doam moedas, refeições ou roupas, mas, na prática, a sociedade continua sem enxergar a dimensão do problema, que é estrutural e exige políticas integradas e outras ações concretas para ser, de fato, enfrentado.





