Paulo Henrique, Jesus Abreu e Nouga Cardoso: bastidores e “pepinos” na eleição de reitor da Uespi

Palácio Pirajá da Uespi, onde fica a reitoria (Foto: Divulgação/ Governo)

Enquanto o dia a dia da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) segue o curso com salas de aula, TCCs no cerne do ensino, pesquisa e extensão, nos bastidores se desenrola uma movimentação intensa pela sucessão da reitoria e o jogo político que se desenha revela muito sobre os rumos da instituição e sua relação com o Governo do Estado.

A eleição para a escolha do próximo reitor vai acontecer neste ano de 2025. Se tudo ocorrer dentro do cronograma previsto, no mês de novembro, mais especificamente.

Como a duração do mandato de gestão da universidade é de quatro anos e com possibilidade de uma única recondução, o atual reitor, professor Evandro Alberto, não deve disputar a próxima eleição. Docente da área da Comunicação, ele foi o primeiro reitor eleito vindo de fora de Teresina. Assumiu a reitoria em 2021 (após a saída de Nouga Cardoso, que deixou o cargo para integrar a equipe do então prefeito de Teresina, Dr. Pessoa (PRD)). Ainda naquele ano, submeteu-se à consulta da comunidade acadêmica e ganhou a reeleição. Por isso, embora com dois mandatos, teve um período de gestão mais curto.

Evandro Alberto, reitor da Uespi (Foto: Divulgação)

Com isso, grupos começam a se articular para disputar uma sucessão. A escolha do futuro reitor e vice-reitor acontece por meio de eleição direta com consulta à comunidade acadêmica. O processo é conduzido com voto secreto e exige a participação da maioria absoluta dos votantes para ser validado. Podem se candidatar professores que estejam em exercício na instituição há, no mínimo, cinco anos consecutivos antes da data da eleição. Após a consulta, os nomes escolhidos são submetidos à nomeação formal pelo governador do Estado em uma lista tríplice. A regulamentação da eleição é de responsabilidade do Conselho Universitário da Uespi.

Um diagnostico dos bastidores da eleição: Jesus Abreu, Paulo Henrique e Nouga Cardoso

Paulo Henrique, Jesus Abreu e Nouga Cardoso, respectivamente (Foto: Montagem)

No campo da atual situação, no centro desse tabuleiro, dois nomes ganham destaque: o atual vice-reitor, professor Jesus Abreu e o professor Paulo Henrique, ambos do Centro de Ciências da Saúde (CCS), o setor que mais tem professores em toda a Uespi. Pelo fato de ser o vice, havia entre alguns grupos, a expectativa de uma indicação natural de Jesus Abreu, cirurgião vascular respeitado e ex-diretor do CCS, para a sucessão da reitoria.

No entanto, três fontes diferentes apontaram à Todavia que esse não será o caminho adotado pela atual administração. A composição da chamada “chapa da situação” caminha para outro rumo, deixando o professor Jesus fora da cabeça de chapa e, até o momento, sem uma indicação como vice também.

Segundo a apuração constatou, a “pré-campanha” de Jesus Abreu só teria começado, agora, em 2025, o que o coloca em desvantagem frente a nomes que vêm se articulando há muito mais tempo. Para além disso, o grupo ligado ao professor Jesus sofreu um revés importante: seu candidato à direção do CCS, o proctologista Miguel, perdeu o pleito para a professora Fabiana. Como já citado, pelo número de professores o CCS funciona, na prática, como um termômetro de força política local.

Jesus Abreu (Foto: Divulgação/ Uespi)

Até o momento, Jesus Abreu é visto como um “candidato coringa”, mas, também de suma importância para a construção do retrato de como será a eleição: caso decida ser candidato em uma chapa independente, pode rachar a base, uma vez que mantém ligação muito próxima com pró-reitorias, além de cursos como o de Fisioterapia. Caso ele se descole da articulação central, pode levar consigo uma parcela decisiva dos votos, principalmente entre técnicos administrativos e setores da universidade.

Enquanto isso, o nome que desponta como favorito da situação é o do professor Paulo Henrique, odontólogo, professor do CSS e com atuação em pró-reitoras da administração superior da Uespi em diferentes gestões.

Paulo Henrique já participou de pelo menos outras duas eleições para a reitoria da Uespi e é visto como alguém com experiência técnica e política na gestão da universidade pela passagem nas pró-reitorias. Mais recentemente, ganhou novo fôlego ao se aproximar do núcleo de confiança do governador Rafael Fonteles (PT). Ele atua no Governo do Estado na Secretaria de Governo (Semgov).

Rafael Fonteles e Paulo Henrique (Foto: reprodução/ Instagram)

Para as fontes ouvidas pela apuração, além da proximidade com o Palácio de Karnak, o que reforça a posição de Paulo Henrique como um possível candidato competitivo, é que ele também já teria iniciado uma movimentação para visitar campi no interior e dialogar com lideranças acadêmicas, representando a continuidade de um projeto alinhado com o governo estadual.

Nesse ponto, o nome de sua possível vice também já está sendo ventilado como o da professora Fábia de Castro Buenos Aires, do curso de Direto do Campus Clóvis Moura, uma indicação direta do reitor Evandro Alberto.

Reitor e pró-reitora de Administração, professora doutora Fábia Buenos Aires, à esquerda (Foto: reprodução)

Ainda nesse tabuleiro, há mais uma peça a ser levada em conta: Nouga Cardoso, ex-secretário e também ex-reitor da Uespi. Atualmente, ele é diretor do Centro de Ciências da Natureza (CCN). À frente da universidade duas vezes, é visto como um “coringa” que pode decidir os rumos da eleição, dado o seu trânsito tanto com parte do professores. Se for candidato mesmo, o cenário indicaria uma divisão na base tradicional da situação e poderia complicar a disputa para Paulo Henrique, abrindo espaço para uma disputa mais fragmentada.

Ex-secretário de Educação Nouga Cardoso (Foto: reprodução)

Oposição deve buscar chapa de consenso e formata nomes

Professores Rosângela, Antônio Dias e Lucineide (Foto: Montagem)

Já no campo da oposição, a Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Piauí (Adcespi), que é o sindicato que representa os professores, não pode se envolver diretamente no pleito eleitoral. Mas, um grupo de professores já se organiza desde o ano passado através de um coletivo.

O chamado “GETação” tem três possíveis nomes sendo ventilados, sendo eles o da professora Rosângela Assunção do Clovis Moura, o professor Antônio Dias e da professora Lucineide Barros. Apesar de existirem três possíveis nomes, a chapa que se desenha deve ser de consenso e definida nas próximas semanas.

“O que a gente tem discutido nesse coletivo é que devemos ter candidatura. Foi apresentado nesse processo o nome da professora Rosângela, do professor Dias, ambos se colocaram de acordo com a possibilidade de serem candidatos, então, qualquer possibilidade é de acontecer em termos de candidatura da representação desse grupo, que vem lutando contra as medidas governistas e da reitoria de ataques à nossa autonomia, de medidas autoritárias, que vem alterar dinâmicas internas sem discussão, como foi a questão do PL9, que desencadeou a nossa última greve. Então, qualquer candidatura que venha a sair desse grupo será por decisão do grupo”, afirmou Lucineide Barros em conversa com apuração.

Ela também informou que o sindicato está pleiteando uma alteração no regimento eleitoral da Uespi, visando a implementação de um processo mais amadurecido e com prazo maior para sua organização.

Os possíveis candidatos… Um breve perfil!

Paulo Henrique

Evandro Alberto e Paulo Henrique (Foto: reprodução)

-Odontólogo e professor associado da Uespi;

-Experiência em pró-reitorias da Uespi e atual superintendente na Secretaria de Educação do Estado (Sedu);

-Técnico, articulado, com bom trânsito com pró-reitorias e no governo Rafael Fonteles e teria o apoio do atual reitor Evandro Alberto;

-A possível vice ventilada seria a professora Fábia Buenos Aires (Direito, Clóvis Moura), também ligada a Evandro Alberto;

Jesus Abreu

Jesus Abreu em posse de novos docentes na Uespi (Foto: Divulgação)

-Professor efetivo e Cirurgião vascular no HGV e Unimed;

-Atual vice-reitor e ex-diretor do CCS;

-Técnico e com bom relacionamento interno (pró-reitorias e servidores);

Pode ser um “candidato coringa” e, se lançar uma candidatura independente, pode rachar a base;

Nouga Cardoso

Nouga Cardoso em ação da Semec (Foto: Divulgação)

– Professor efetivo do curso de Química;

-Ex-reitor da Uespi por duas gestões, ex-secretário de Educação de Teresina, atual diretor do CCN;

– Experiente e com forte trânsito político e institucional, reconhecido internamente;

-Caso se lance, fragmenta a base.

Campo da Oposição (Coletivo GESTação, crítico à reitoria e ao governo)

Rosângela Assunção

Rosângela Assunção no Campo Clovis Moura (Foto: reprodução)

-Professora de história e Sindicalista no Campus Clóvis Moura;

– Engajada, ligada às pautas universitária e à crítica à gestão atual;

-Nome de consenso em construção no coletivo; boa aceitação interna no campo da oposição;

Antônio Dias

Antônio Dias (Foto: reprodução)

 -Professor de Pedagogia;

-Ampla experiência no sindicato e comissões;

-Nome de consenso e ventilado como possível cabeça de chapa ou vice dentro do GESTação.

Lucineide Barros

Lucineide Barros (Foto: Divulgação/ Psol)

-Professora na área da Pedagogia e educadora popular;

-Já foi candidata a prefeita pelo partido Psol;

-Referência entre movimentos sociais e firme nas críticas à atual gestão e ao governo estadual, defensora de mudanças no regimento eleitoral; -Pode não ser candidata, mas apoiará a chapa de consenso.

Mas, afinal qual é o grande problema? O copo meio cheio X copo meio vazio

A Uespi é uma universidade grande, com milhares de alunos e uma equipe docente que inclui profissionais reconhecidos nacional e internacionalmente e que teve e continua tendo um papel mais do que importante na história do Piauí. Voltando um pouco no tempo, desde sua criação, em 1984, com a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Educação do Piauí (FADEP), até sua formalização como universidade em 1986, ela foi concebida para suprir uma carência histórica de formação superior no estado. Em 1993, durante o governo Mão Santa, passou a funcionar como sistema multicampi, o que impulsionou a interiorização do ensino superior e garantiu que jovens de municípios distantes tivessem acesso à universidade pública.

Atualmente, alguns dos cursos se destacam nacionalmente. Por exemplo, neste ano, três cursos da Uespi se classificaram entre os melhores do Brasil, com nota máxima no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade): Enfermagem, Fisioterapia e Engenharia Civil, todos ofertados no Campus Torquato Neto, em Teresina. 

Outro exemplo da qualidade de quem faz a instituição é o curso de Química. O professor Laécio Santos Cavalcante foi destacado, por dois anos consecutivos, entre os cientistas mais influentes do mundo em um ranking em parceria com a Universidade de Stanford.

Professor Laercio (Foto: Divulgação)

Também é verdade que, sobretudo, nos últimos anos a universidade também tem investido em expansão e em melhorias de estruturais, com reformas importantes no CCN e CCHL no Campus Poeta Torquato Neto e também outro conjunto de obras no Clovis Moura.

Tudo isso compõe o cenário de um copo cheio, que revela a capacidade e o potencial da UESPI para se consolidar como um centro de excelência e inovação.

O copo meio vazio: o desafio da independência financeira

Por outro lado, a Uespi enfrenta desafios significativos que limitam seu desempenho e impacto social. E, claro, os problemas são muitos, é possível acompanhar no noticiário situações que vão desde greves terceirizados a professores até goteiras inundando salas de aula inteiras. No entanto, a Todavia citará aqui um que foi apontado como o principal pelos professores e alunos ouvidos para a construção desse texto: a ausência de autonomia financeira.

Greve dos professores em 2024 e registro de goteiras em 2025 (Foto: Montagem)

Em 2015, a administração superior da universidade nomeou uma comissão para estudar uma proposta de Autonomia Universitária para Uespi para estudar uma proposta de Autonomia Universitária, mas, o processo não foi para frente. Em 2019, uma audiência com deputados, estudantes universitários, e a presença de setores da OAB-PI também discutiu o mesmo. Mas, o processo não foi para frente.

Embora possua orçamento próprio aprovado em lei, a Uespi depende da Secretaria da Fazenda para liberar recursos. É uma cadeia que implica desde a relação com servidores até investimentos em ensino, pesquisa, extensão e manutenção predial.

Em entrevista à Todavia o atual presidente da Adcesp, Omar Albornoz, disse que a desvalorização salarial enfrentada por professores e professoras também é um dos principais gargalos, destacando que profissionais com titulação de especialista continuam recebendo o mesmo salário que trabalhadores com Ensino Médio da educação básica, por exemplo.

“Outra pauta fundamental diz respeito à criação da categoria de professor auxiliar na Uespi. Hoje, temos várias categorias: professor especialista, mestre, doutor, associado, e, teoricamente, o auxiliar, que ainda não foi regulamentado. A lei que cria essa categoria está parada desde dezembro do ano passado. Ela faz parte do acordo de greve, mas, até o momento, não foi sequer enviada para votação na Assembleia Legislativa”, pontuou.

Uespi, um tesouro do Estado do Piauí

A metáfora do copo meio cheio e meio vazio é frequentemente usada para representar dois modos distintos de enxergar uma mesma realidade: enquanto o olhar do copo meio cheio valoriza o que já foi conquistado, o meio vazio evidencia o que ainda falta ser alcançado. No caso da Uespi, essa dualidade está muito presente. De um lado, temos uma universidade que avança em qualidade acadêmica, conquista notas máximas e tem, sim, melhorado em infraestrutura.

Por outro lado, o copo também está, e visivelmente, meio vazio. A Uespi enfrenta limitações severas que comprometem seu pleno funcionamento e sua capacidade de transformação social. É o retrato de uma universidade com enorme potencial, mas que ainda trava batalhas fundamentais para se consolidar como o que já é, na prática um patrimônio e já ajudou a mudar a história de muitas pessoas do povo piauiense.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Cadastre-se na nossa lista de transmissão
Receba nossos boletins no seu WhatsApp
  • ← Voltar

    Cadastro efetuado

    Você receberá nossos boletins no seu WhatsApp.

Deixe um comentário