“Teresina não tem homem”? O que dizem as mulheres sobre a “falta de material” para o amor

“Teresina não tem homem, entendeu? Eu estou me sentindo feia já. Os homens olham para a gente, fica meia hora olhando para a gente e não chegam na gente”. O relato é da dançarina piauiense Thayssa Belo. Em um vídeo divulgado nas redes sociais no dia 17 de fevereiro, ela aparece relatando sua frustração em uma festa de pré-carnaval em Teresina.

O vídeo, publicado no Instagram @falatuteresina, viralizou e teve mais de 6,7 mil compartilhamentos. O relato não é isolado, são constantes as publicações de insatisfação feminina na rede social X (antigo Twitter) e nas rodas de conversa entre as mulheres solteiras. A Ápice conversou com o público feminino essa semana e traz a visão da Ciência, cruzando vivências e olhares para tentar explicar o que está acontecendo com esse “mercado” afetivo no Piauí.

Mulheres relatam insatisfação com comportamentos masculinos – Foto: Captura de tela/ X

“ATITUDES GROTESCAS”

A influenciadora e ex-Miss Piauí, Shenia Magalhães, compartilha insights sobre relacionamentos no Instagram para sua audiência de 500 mil seguidores. Semanalmente, são muitos os relatos e pedidos de conselhos que partem das seguidoras. Em entrevista à coluna, ela falou sobre as reclamações femininas mais frequentes que chegam até ela.

A influenciadora Shenia Magalhães – Foto: Instagram

“Os homens querem dividir conta, querem uma mãe não uma companheira. Sempre falei muito sobre machismo e divido muito minhas experiências com elas, terminou sendo algo natural como se fosse uma troca de opiniões”, afirmou Shenia Magalhães.


Questionada se a “falta de atitude” também a atingia, ela respondeu: “Não digo que não tenham atitude, digo que as atitudes são grotescas. [Erram mais] na abordagem quase sempre sem noção. De forma agressiva e invasiva. Aprendi o meu valor e não aceito sob hipótese alguma menos do que eu mereço. Eu diria para elas [as mulheres] se valorizarem, homem não valida a mulher como pessoa. Se não vier pra somar é melhor não vir”, declarou a influenciadora.

ANTROPOLOGIA EXPLICA “FALTA DE GENTE NOVA” EM TERESINA
A astróloga, cientista social e mestre em Antropologia, Dai Caroline, revela que questões geográficas tornam Teresina uma cidade com uma comunicação mais distanciada das outras capitais do Nordeste, seja pela ausência de um litoral ou de um turismo aquecido. O que, segundo ela, gera um fluxo muito local, com a sensação de que as pessoas têm sempre que se esbarrar com as figurinhas repetidas. Em seus atendimentos como terapeuta holística ela recebe muitas demandas femininas em congruência com essa dificuldade de firmar laços amorosos sólidos.

“As principais queixas das mulheres quando se envolvem com homens teresinenses giram em torno de, em primeiro lugar, muitos deles serem comprometidos e, mas mesmo assim, estão em busca de uma nova relação, paralela à sua relação de casamento. Ou pode ser um noivado, mas é algo mais sério, mais estável e de longo prazo”, destacou Dai.

“Outro ponto muito comum é que, no momento em que elas subvertem essa noção e chegam ao ponto de perceber que dá sim pra começar um novo relacionamento a partir de conseguir conversar, trocar telefones, vem a ideia do não querer nada sério, como se aquelas pessoas [os homens] achassem que precisam de um período de experimentação, como se eles aguardassem novas opções”, mencionou Dai Caroline.

Dai Caroline – Foto: Instagram

DE ONDE VEM O MOLDE CONSERVADOR PARA AS RELAÇÕES

Somado isso, ela explica que a cidade é permeável ao pensamento tradicional, à ideia que se popularizou anos atrás do comportamento da “bela, recatada e do lar” como uma verdade social, a verdade da necessidade de comportamentos muito bem definidos entre homens e mulheres.

“Então, a gente soma esse fator de Teresina ser um local que não recebe fluxos muito grandes de pessoas à ideia de que aqui as coisas têm que seguir uma cartilha do namorar para casar. Muitas pessoas sentem isso, que não têm um relacionamento, não têm homens para elas, porque elas estão também trazendo uma noção de que esses homens teriam que ser homens interessados em relacionamentos mais sólidos, relacionamentos a longo prazo, que geraria uma família, que é um dos princípios conservadores mais bem estabelecidos. Mas essa família não se estabelece num molde qualquer, tem que ser um molde mais tradicional também”, explicou a cientista social e astróloga.

FREUD EXPLICA?

A psicanalista Liana Gonçalves traz que, sob a ótica da Psicanalise, desde o início da vida, dependemos de um Outro para sobreviver e, mesmo com o desenvolvimento físico e cognitivo, e com a busca por independência, as relações continuam a atravessar toda a existência. Algumas pessoas tornam-se mais dependentes delas, outras menos.

Cada sujeito desenvolve uma forma singular de se relacionar, influenciada por diversos fatores, como suas relações parentais e o contexto cultural em que está inserido. A cultura tem um papel importante na forma como o sofrimento e os conflitos se apresentam.

A psicanalista Liana Gonçalves – Foto: Arquivo Pessoal

“Não enxergo a insatisfação feminina apenas como uma queixa contra os homens. Afinal, tanto homens quanto mulheres estão inseridos em um mesmo contexto sociocultural. O que frequentemente está em questão é o impacto do conservadorismo enraizado na cultura, que limita possibilidades de mudança e perpetua padrões que geram sofrimento. Será que mulheres e homens estão aprisionados em certos ideais?”, questiona Liana.

“O que tem impedido a possibilidade de um verdadeiro encontro, de um laço genuíno entre as pessoas? Essas perguntas devem permanecer em aberto, porque o essencial é justamente ampliar o debate e buscar outras saídas. No entanto, há quem insista na manutenção de um padrão, sustentado por esses mesmos ideais, resistindo às mudanças que poderiam transformar essas relações”, analisou Liana Gonçalves.

QUANDO A PAIXÃO VIRA VIOLÊNCIA
A estudante de Direito, Victória Soares, denunciou nas redes sociais em maio de 2023 agressões sofridas pelo namorado, o empresário Matheus Vitor. Na época, ela publicou no Instagram uma foto com o rosto coberto de sangue, após o namorado arrebentar a porta do apartamento da mãe dela, em meio a uma discussão, em Teresina. Passados quase dois anos do crime, com a condenação do agressor lavrada, Victória conversou com a Coluna Ápice.

A jovem Victória Soares – Foto: Reprodução/Instagram

“Hoje estou bem, graças a Deus e a todos que demonstraram solidariedade comigo. Sou eternamente grata a cada um. Não sinto vergonha de nada que passei; hoje, isso é um testemunho para mim. Foram meses vivendo um pesadelo… muitos sentimentos: medo, culpa (até perceber que não tenho culpa de nada), raiva, exposição, mudança na rotina, mudança de cidade, etc. As duas partes mais difíceis foram a dependência emocional e os julgamentos, com pessoas tentando justificar o injustificável. Foi de extrema importância procurar ajuda de profissionais de saúde para o meu processo de despertar”, declarou Victória Soares.

A jovem afirmou que só percebeu estar em um relacionamento abusivo quando viu “a morte bater à porta”. “Foi quando senti que não tinha mais controle sobre a minha própria vida. Sou apaixonada pela vida, tenho muitos sonhos, converso com Deus sobre todos eles e, quando se concretizarem, eu os contarei. Mas posso adiantar que quero muito, um dia, retribuir toda a ajuda e apoio que recebi e continuo recebendo. Hoje me sinto mais segura. Estou andando mais por Teresina, antes não”.

O QUE QUEREM AS MULHERES? RELACIONAMENTO SIMPLES

Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, em seus estudos, apontou o cerceamento dos desejos femininos como a razão do seu sofrimento. A pergunta acima foi feita por Freud, no século XIX, depois de 30 anos de estudos sobre a alma feminina. Dois séculos depois, onde estamos? Onde viemos parar?

“A frase parece continuar muito atual, ela continua um enigma e ao mesmo tempo traz um viés masculino muito importante. Eu não vou chegar a colocar um viés machista, mas eu sinto que as mulheres sabem bem o que elas querem. Se a gente puder fazer essa generalização, eu encontro uma situação, um sentimento transversal a todas elas, que é a necessidade, a vontade de estabelecer relacionamentos simples, relacionamentos em que fatores externos não impactem tanto o relacionamento entre as pessoas envolvidas”, opinou Dai Caroline.

Pela ótica psicanalítica, por mais conforto e acolhimento que uma relação amorosa possa proporcionar, ela jamais garantirá satisfação plena. A Psicanálise devolve a pergunta. “Não é comum à Psicanálise oferecer receitas, mas, a partir do seu olhar, pode-se entender que um dos aspectos à solidez de um relacionamento está ligada ao reconhecimento de seus limites e à implicação de cada sujeito em sua manutenção. Antes de buscar no Outro uma resposta, é fundamental saber o que se deseja, e a partir disso construir uma relação um pouco mais consciente das demandas de cada um do par amoroso”, explicou Liana Gonçalves.

Captura de tela da rede social X

O POR VIR

A receita dos relacionamentos é inexata. O viés inconsciente, a forma de lidar com o próprio desejo e as projeções no outro são alguns dos fios que armam esta engrenagem. A subjetividade humana é vasta e os impulsos desejantes também, embora nem sempre confortáveis não trata-se somente do desconforto a baliza de um relacionamento saudável. O amor imprime a falta, os vazios e lacunas impreenchíveis da existência humana, mas há limites entre a linha do aceitável e do insuportável.

“O autocuidado e o olhar para si é muito necessário. Percebo um excesso de carência que as deixam [as mulheres] muito vulneráveis. Os homens sempre deixam muito claro desde o início que são tóxicos, o erro reside na insistência feminina em achar que eles vão mudar. Eu abraço a causa desde a adolescência, no Miss já era minha bandeira e acredito que Deus me deu voz como propósito para ajudar outras mulheres”, contou a influenciadora Shenia Magalhães.

A psicanalista Liana Gonçalves defende que relações saudáveis partem, inicialmente, de um retorno a si mesmo, para então voltar-se para um Outro, reconhecer o que se busca e acessar o que se deseja. “Isso evita que as relações se tornem uma tentativa vã de suprir algo que deve ser, antes de tudo, uma busca pessoal. Uma relação deve ser um encontro entre duas pessoas que reconhecem seus próprios limites e desejos e que, a partir disso, possam conviver melhor com as frustrações inerentes ao vínculo. Dessa forma, as expectativas se aproximam mais da realidade, e os momentos compartilhados podem proporcionar maior felicidade”, frisou.

Victória Soares está refazendo a vida após um trauma que teve o poder de marcar, mas não de definir os rumos da sua trajetória. Para ela, a vida após violência pode ser boa e cheia de novos significados e propósitos. Ela deixa uma mensagem às mulheres que possam estar em relações abusivas e fala o que diria a si mesma, durante aqueles tempos difíceis.

“Se ame. Você é a pessoa mais importante da sua vida. Seja feliz. Não espere pelo pior, eles não vão mudar. Busque e aceite ajuda. As fases ruins vão passar, sempre passam, e Deus honra. Eu me daria um abraço. Até me emociono ao responder essa pergunta… Eu diria que ela [a Victória do passado] lutou bravamente, como uma garota que estava descobrindo sua força. Sinto muito orgulho da coragem dela. Ela não desistiu, não retrocedeu e, com todas as inseguranças, seguiu em frente, sentindo-se uma formiguinha, mas mostrando ser uma leoa”, concluiu.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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1 comentário

  • O pior não é isso , uma vez que eles chegam a se relacionar com algumas mulheres , eles começam a espalhar historinhas tipo: peguei ela ou ela é emocionada ou ela quer namorar, ou fala sobre intimidades …
    Sempre desfazendo a mulher e enaltecendo o ego deles infantis nojentos e imaturos.
    Tipo dançou em uma festa: comeu!
    Ou começou a conhecer: Tô só comendo.
    Sem nunca ter nenhum contato íntimo com aquela determinada mulher.(historinhas de ego doentio)
    Há um tempo me relacionei com alguém da cidade, infelizmente estive em roda de conversas onde eu ouvia absurdos que alguns falam de mulheres…
    Detalhes: De mulheres lindas independentes e bem sucedidas.
    Entendi que eles fazem isso com o intuito em denegrir imagens de mulheres que os mesmos nunca tiveram a oportunidade de se relacionar, ou se relacionaram elas preferiram não ir além.
    Ou levaram um fora .
    Ou por algum motivo foram rejeitados.
    “Eles”Repassam o conteúdo como uma verdade nata entre uns e outros.
    Criam historinhas de difamação!
    Calúnia!
    Detalhe : E sobre alta sociedade
    Homens que dizem elite de Teresina.
    Embustes🤮
    Triste realidade!

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