A terra de Torquato Neto, um dos maiores poetas do Brasil, é o Piauí. A coluna começa esta edição com essa frase porque ouviu relatos de um Torquato Neto esquecido. Relatos de quem aprecia arte e sabe o que está dizendo. O Piauí, que é também um dos estados mais pobres do país. Por aqui, falta indústria. Falta ampla circulação de recursos. Faltam incentivos governamentais. E sobra escassez de fomento à produção cultural.
Em diálogos com a Ápice, é o que retratam os estudiosos e nomes imersos na área. Uma relação de causa e efeito: economia e cultura. Um contexto extenso. E um compromisso persistente com a arte, por parte de alguns. Diante dos componentes da equação, como sobrevive o mercado literário piauiense? Falta talento literário? Faltam leitores? Faltam escritores? Abaixo, algumas histórias e muitas realidades de um mesmo Piauí.
A ECONOMIA DA ATENÇÃO
Questionado sobre a maior dificuldade em tornar-se um escritor piauiense atualmente, o acadêmico e ex-presidente da Academia Piauiense de Letras, Zózimo Tavares, respondeu:
“Nós temos um desafio grande que é de fazer o leitor se interessar pelo livro. São muitas as opções de distração com o advento do mundo digital, os dispositivos digitais e etc. A dificuldade é essa, mas sempre foi muito difícil isso, em todo lugar e em todo tempo. O que nos cabe é persistir nisso, persistir na produção e na tentativa de sedução do leitor. O que nos atrapalha também a nossa principal ferramenta que é a questão digital, hoje é muito mais fácil você divulgar e fazer conhecida uma obra sua, justamente por conta dos meios digitais, portal, internet, site e essas coisas”, declarou Zózimo Tavares.

O SISU FOI UM GOLPE
De acordo com a Pesquisa Retratos, do Instituto Pró-Livro, divulgada em 2024, sobre a leitura no Brasil, foi constatado nos últimos quatro anos que o país perdeu 7 milhões de leitores. Uma das apostas do que se pode atribuir é a metodologia utilizada no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).
“Porque antigamente, bem ou mal, ou pouco, a gente tinha um incentivo à leitura quando o vestibular, ele exigia isso. Depois, com a implantação do ENEM, do SISU, para o acesso ao ensino superior, isso foi abolido. Nós estamos vendo que o prejuízo foi grande e algumas instituições já estão voltando atrás. Como é o caso do IFPI, que abandonou o SISU e hoje retomou o seu vestibular tradicional e está exigindo conhecimentos regionais, literatura, história, geografia, etc. Porque isso sem dúvida vai dar uma melhorada”, explicou Zózimo Tavares.
Em paralelo a isso, com o novo formato de aferição do ensino, o acesso a bibliografias de autores locais passou a ser desincentivado, pois perdeu a “utilidade” para as provas. Esse aspecto foi refletido na pesquisa do Instituto Amostragem, encomendada pela Academia Piauiense de Letras (APL), em 2022. Mais de 56% dos entrevistados afirmaram que não foram influenciados pela literatura piauiense.

“Em lugar nenhum do mundo existe que a pessoa vai ler só porque acha bonito, não. A gente tem que ter uma função utilitária para a leitura também. Daí, depois é que você desenvolve outras habilidades como gosto, prazer, etc”, defendeu Zózimo Tavares.
O IMPACTO DO SALIPI
Para o professor Welington Soares, o Salão do Livro do Piauí (Salipi), que acontece anualmente, fortaleceu o cenário literário do estado. Ele é um dos criadores do evento, que teve sua primeira edição em 2003, e ficou à frente da organização por dez edições.
“Isso ajudou muito os autores piauienses que passaram a publicar mais, a vender mais. Tivemos o surgimento de novos escritores, esse é um fato muito importante. Tivemos o surgimento de algumas livrarias em Teresina porque antigamente elas eram muito restritas. De certo modo, eram focadas em papelaria, eram mais papelarias do que livrarias. Hoje nós já temos livrarias na acepção da palavra. Quisera que tivéssemos mais feiras literárias”, pontuou.

QUANDO SUASSUNA VEIO AO PIAUÍ
Wellington Soares está no time dos que acreditam no gosto dos piauienses pela leitura. Para ele, não existe isso de que não se tem por aqui um público numeroso – em níveis equivalentes proporcionalmente a outros estados – que prestigia os eventos e é fiel às agendas culturais.
“Eu não acredito que o leitor piauiense seja diferente do leitor nacional. Ao longo desse meu período organizando feiras literárias, quando os autores vêm aqui eles ficam deslumbrados com os nossos leitores, principalmente em termos de qualidade de leitura. Não basta também ler qualquer coisa. Tem que ver o que lê e a compreensão dessa leitura. Então, eles acham nossos leitores muito inteligentes, com perguntas inteligentes e instigantes. Eles ficam maravilhados. Quando fazíamos o Salipi no Centro de Convenções, que tinha uma capacidade para quase mil pessoas, nós lotávamos. Ariano Suassuna (escritor, dramaturgo e poeta paraibano) ficava deslumbrado (em 2006) ”, relembrou o professor.

FIM DA REVÉSTRES
Por outro lado, ele que também foi um dos criadores da Revista Revestrés, que através do Jornalismo Literário, abordava a cena cultural piauiense, admite a tendência nacional do desuso ao formato impresso das publicações e a dificuldade de sobrevivência no mercado. “Nós tínhamos a Revestrés, uma revista cultural da melhor qualidade, que não deixava a desejar a nenhuma revista nacional. Com o desaparecimento dessas bancas (de revista), nós não tínhamos mais espaço onde deixar. Isso nos entristece bastante”, mencionou Wellington Soares.

A BAIXA AUTOESTIMA DOS PIAUIENSES
A escritora há 18 anos e Membra do Conselho Municipal de Cultura, Laís Romero, aponta a falta de valorização, remuneração e visibilidade como um tratamento perene dado aos autores no estado.
“A gente não tem aqui no Piauí uma educação voltada para a nossa autoestima, há pouca apreciação literária. Por exemplo, Torquato Neto fez 80 anos. Nenhum órgão público, que trabalha na cultura diretamente, se dignou a fazer nenhuma nota de aniversário para ele. Eu e outros escritores, fomos chamados para fazer uma leitura e participar de uma roda de conversa sobre o Torquato Neto em Fortaleza, em homenagem a esse aniversário de 80 anos do nosso maior expoente. É muito estranho a gente viver num lugar que não se fala dele e onde ele nasceu e morreu”, analisou Laís Romero.

IDENTITARISMO DE OPORTUNIDADE
A forma como lida-se com o passado é um termômetro para as preocupações e ações produzidas nos tempos de hoje. O passado tem muito a dizer sobre o futuro de um povo. Fomenta-se, atualmente, de maneira pujante, a escrita no Piauí? Pela voz dos próprios escritores: a resposta é não.
“Todo mundo que é escritor, é escritor e alguma coisa. Você trabalha e é escritora. Enquanto a própria escrita requer uma dedicação quase exclusiva. Os eventos daqui visibilizam muito mais autores, pesquisadores, pessoas ao redor da produção literária que vêm de fora, até porque a gente quer ver também. Quer ter essa troca”, frisou Laís Romero.
As barreiras aumentam quando trata-se de uma Literatura feita por mulheres, negros e povos originários. Os escritores ainda que vivam da produzir subjetividades e contribuir com a sociedade com um olhar analítico, sensível e plural, são tratados a partir de uma lógica mercantil e estigmatizante.
“A própria produção daqui (do Piauí) acaba à margem. Principalmente quando não é hegemônica, quando não é masculina, quando não é branca. E quando é convidada é como um fetiche, porque está na moda o identitarismo. Não é um espaço real, é um espaço que não tem uma representatividade que perdure. Ele acontece naquele momento quando há a crítica”, destacou a escritora Laís Romero.

AOS RESISTENTES: COMO FABRICAR UM ESCRITOR?
“Há muito tempo, eu escrevi meu primeiro livro, em 1989. Mas, quando eu escrevi, eu já era um grande leitor e continuei sendo: pesquisando, me interessando, viajando. Não é de uma hora pra outra que você se faz um autor. Quer dizer, um escritor, um autor pode ser. Eu, ainda hoje, tenho muita dúvida se eu sou escritor. Mas tem muita muita gente aí com segurança que já é no primeiro livro, né?”, narrou Zózimo Tavares.

HÁ PÚBLICO E PRECISA-SE DE PÚBLICO
A leitura está na seara dos hábitos. E para consolidá-los o caminho é muito maior do que apenas 21 dias, como apontam alguns gurus na internet. Segundo a pesquisa realizada pela Academia Piauiense de Letras, em 2022, a maior dificuldade dos piauienses no acesso ao livro ainda é o preço das publicações. Fora isso, soma-se o ambiente, o fator “família”, os hábitos repetidos, as influências escolares.
A construção de um público leitor é coisa para “muito tempo”, é um reflexo geracional, e um sintoma do que o Poder Público e a sociedade escolheu priorizar em termos de investimentos e iniciativas coletivas.
“Existe no Piauí um público leitor, assíduo, presente, interessado. As pessoas têm curiosidade e interesse. Mas quando a gente faz alguns recortes, a gente encontra quase sempre as mesmas pessoas. Existe uma limitação e ela cai exatamente nessa falta de construção a longo prazo de um público leitor e receptor e apreciador da arte. Porque apreciar a arte é uma coisa extremamente inútil para o mundo do trabalho, então não vai haver esse fomento e espontaneidade de criar esse espaço. A gente tem que pedir”, enfatizou Laís Romero.
O estigma do piauiense da seca e sertanejo é refletida também em como o mercado literário piauiense é visto lá fora?
“E quando esses autores falam que se surpreendem, se surpreendem por dois motivos. Primeiro, porque eles acham que estão indo para um fim do mundo que ninguém lê. E em segundo, porque quando eles chegam aqui as pessoas estão curiosas, a gente precisa desses lugares, existe um público ávido, necessitado realmente”, considerou a escritora Laís Romero.
A INSISTÊNCIA E O CANSAÇO
O caminho está na insistência pública, coletiva e individual. A colonização brasileira nunca proporcionou ao seu povo um solo fértil para a valorização à arte e à Literatura. Um país continental, desigual, onde a luta pela sobrevivência é uma urgência, que não se deixa ignorar. Apostar na arte quase sempre foi uma questão de resistir. A arte existe porque a vida não basta. Há omissão do Poder Público. Há mérito individual. Há cansaço, mas há também esperança.
“Recorro ao Antônio Candido que era sociólogo e crítico literário. A literatura tem que ser vista como um direito. É um direito humano. Como a alimentação é um direito humano. A moradia é um direito humano. A saúde é um direito humano. A leitura tem que passar a ser um direito humano”, defendeu o professor Wellington Soares.



