Quem atravessasse o bairro Cabral, em Teresina, na Avenida Pinel – que recebeu esse nome em homenagem ao médico francês Philippe Pinel, pioneiro na Psiquiatria – dava de cara com uma estátua imponente de Dom Quixote. Era o cavaleiro andante, aquele que enlouqueceu de tanto ler livros de cavalaria, que recebia, logo na entrada, todos os que iam ao Sanatório Meduna, na zona Norte.
O que um dia foi o maior hospital psiquiátrico da cidade, um símbolo de inovação e modernidade que chegava na capital que nasceu planejada, fechou suas portas em 2010, após a morte de seu fundador, o ex-deputado federal Clidenor de Freitas.
“Ele se considerava um idealista, um sonhador, como Dom Quixote era. Era a imagem que ele tinha de si mesmo […] Quando criou o Meduna, ele fez uma cerimônia na Praça Pedro II quebrando as correntes dos pacientes que estavam no antigo Hospital dos Alienados, porque ali os internos eram acorrentados. Ele introduziu novos métodos, transformou e deu uma concepção mais de tratamento e alguma recuperação”.
A fala é do sociólogo e ex-deputado federal Antônio José Medeiros (PT), ao lembrar que, certa vez, ainda jovem, Clidenor o apresentou a um exemplar da versão espanhola de Dom Quixote, um dos livros de sua vasta biblioteca de mais de 8 mil volumes.

A pedra onde um dia esteve a estátua de Dom Quixote ainda permanece lá, mas o espaço ao seu redor foi tomado por entulho. Carcaças de animais mortos espalhadas pela calçada, parte do teto desabando, roupas deixadas por quem talvez, sem um teto, buscava abrigo.

Onde antes havia uma biblioteca imensa e até um quadro do artista plástico brasileiro Candido Portinari – considerado um dos maiores pintores do Brasil – hoje restou um vazio profundo. Atualmente, o lugar é visto por muitos teresinenses como um local “mal assombrado”. Nas redes sociais, não há dezenas, mas sim, centenas de relatos de teresinenses que afirmam já ter visto, ouvido e sentido algo ou que conhecem alguém que já o fez.

Os comentários foram retirados dessa provocação feita pela página Fala Tu Teresina no Instagram:
Na edição desta semana, a Todavia foi em busca de entender o que mudou nos 71 anos do Sanatório Meduna, desde sua inauguração em 1954, até os dias atuais, onde o que ainda está de pé é uma capela ao lado de um grande e moderno shopping, o Rio Poty.
Apesar do Meduna ser o tema central de diversos trabalhos acadêmicos e até livros, não foi fácil achar quem pudesse ou quisesse descrevê-los. A cidade se transformou, mas a história, aquela que temos o dever de preservar, tem se perdido entre as rachaduras de um edifício que ainda resiste ao tempo. O Meduna, o sonho de Clidenor, é hoje um eco distante, em uma Teresina que, talvez, tenha esquecido de olhar para trás antes de correr para o futuro.
Não podemos falar do Meduna, sem começar pelo “Asilo dos Alienados”

O Meduna não foi o primeiro espaço destinado a tratar de pacientes com problemas psiquiátricos – os denominados loucos ou doidos, na época. Este título pertence ao “Asilo dos Alyenados” (Asilo dos Alienados), como se escrevia também na época, e que mais tarde passaria a se chamar Hospital Areolino de Abreu, em homenagem ao então governador. A elite teresinense, juntamente com a classe médica, arrecadou a maioria dos recursos usados para comprar um terreno chamado de Campo de Marte, perto da Santa Casa de Misericórdia, hospital geral da capital, onde essas pessoas eram atendidas até então.
Inaugurado em 1907, sem sequer contar com um médico psiquiatra na equipe e nem estar totalmente construído, tinha como objetivo abrigar os doentes que necessitavam de acompanhamento especializado, o qual a Santa Casa não conseguira suprir. Mas, o verdadeiro motivo por trás da construção desse espaço seria limpar as ruas desses sujeitos e transformar Teresina numa cidade moderna, conforme contaram os historiadores ouvidos pela Todavia.

Segundo relatos jornalísticos da época, a lotação do asilo foi rápida. Edmar Oliveira, médico psiquiatra aposentado do Ministério da Saúde, autor do livro “A incrível história de Von Meduna e a Filha do Sol do Equador” também descreveu outra função destinada ao hospital em entrevista à Todavia. O país passava por uma grave seca e as pessoas de diferentes cidades e até estados, buscavam uma chance de sobrevivência na capital. Mas, acabavam vivendo como indigentes aqui.
“A questão da psiquiatria do Piauí era parecida com a do Brasil inteiro. Os sanatórios começaram a ser feitos no final do século XIX. O primeiro hospital do Brasil é de 1850, no Rio de Janeiro, e o Areolino de Abreu, o Asilo do Alienados, de 1907. Ou seja, [Teresina era] uma cidade muito nova para ter um sanatório. O Asilo foi antes do Getúlio Vargas, foi antes de todos os outros hospitais do Piauí, só tinha ele e a Santa Casa. O que a gente vai realmente entender é que ele foi feito, muito mais, para internar as invasões que vinham das secas e adentravam a cidade do que para internar a loucura mesmo. Um hospital que é feito em 1907 e só 33 anos depois chegou o Clidenor, que foi o seu primeiro psiquiatra”, declarou o médico que chegou a trabalhar com estagiário há muitos anos no antigo Areolino.

Pacientes eram divididos em cor, raça e classe social
Um levantamento feito pelo acadêmico Douglas Araújo, para o mestrado em História da Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN) aponta que o Asilo dos Alienados dividia os internos por classe social: 60% eram indigentes, internados compulsoriamente pelo Estado, sem direito de sair até que fossem considerados “curados”.
A maioria dos internos era pobre, negra e periférica, e muitos foram parar no asilo simplesmente por não se encaixarem nos padrões sociais da época, incluindo alcoólatras, mendigos e mulheres consideradas “histéricas”.
O trabalho ainda descreve que os indigentes eram mantidos em condições sub-humanas, frequentemente acorrentados e imobilizados no chão de terra batida, enquanto os que podiam pagar tinham acesso a acomodações melhores. A má elaboração do projeto de construção, em comum com a pouca vigilância, permitia o acesso de pacientes do sexo masculino nos compartimentos femininos, resultando em inúmeros casos de gravidez e também de abusos.
Entre as práticas no local, estavam o acorrentamento de pacientes, duchas frias e uso de óleo de cânfora, usados como forma de disciplina para punir o paciente por ações reprováveis.
“O Clidenor chegou na década de 40 com 27 anos para ser o diretor do hospital (o Asilo) e denuncia o que os internados passavam lá, amarrados em troncos de cajueiros, fazendo as suas necessidades no espaço comum. Era algo absurdo”, avaliou Edmar.
“O Dom Quixote moderno” e a cerimônia para quebrar correntes





Nascido em Miguel Alves e tendo concluído os estudos no Liceu Piauiense, as palavras mais usadas pelas fontes ouvidas para descrever Clidenor de Freitas eram de que ele era um idealista e tinha grandes sonhos. Na direção do então Asilo dos Alienados, fez pequenas e grandes mudanças. Primeiro, mudou o nome para Hospital Areolino de Abreu, depois, angariou apoio para construir seu próprio hospital psiquiátrico: o Sanatório Meduna.
“O Clidenor chegou a ser candidato a prefeito de Teresina e era um idealista, um sonhador, como se fosse um Dom Quixote moderno […] Ele se via como alguém que estava sempre em busca de uma cidade melhor, mas não era apenas um político comum, ele acreditava em transformar o entorno e fazer as coisas acontecerem, com um espírito sonhador e de mudança”, descreveu o ex-deputado Antônio José Medeiros.
O médico Edmar Oliveira também faz um ponto interessante ao lembrar que Clidenor deu ao seu hospital o nome do psiquiatra húngaro László Meduna, criador do cardiazol – um composto usado para induzir convulsões como uma técnica de terapia de choque. Acreditava-se que as convulsões induzidas ajudariam a tratar doenças mentais ao “resetar” o cérebro dos pacientes. Ele o convidou para a inauguração do Sanatório Meduna em 1954. No entanto, devido a questões financeiras, Meduna não pôde comparecer, mas, em uma carta escrita em inglês, expressou sua gratidão pelo convite.

O Sanatório Meduna era, originalmente, formado pela capela, oito pavilhões, dois pátios e um edifício de dois andares – a casa onde Clidenor morava também ficava logo ao lado. Uma estrutura neoclássica do tipo espanhola que lembrava muito um castelo. O local tinha 180 leitos e trabalhavam oito médicos, um dentista, um enfermeiro, três auxiliares de enfermagem, um farmacêutico, 18 atendentes, um nutricionista e um técnico de laboratório para atender um total de 994 pacientes dos quais 961 tiveram alta do local, segundo documentos da década de 70.

O Asilo do Alienados, agora Hospital Areolino de Abreu, continuou a funcionar, sendo mais direcionado a receber os indigentes. O Meduna, no início era um hospital privado e recebia pacientes da elite, na época. Mas, posteriormente, também passou a receber pessoas da rede pública. O paciente mais famoso foi o poeta tropicalista Torquato Neto que se internou lá, em 1972, mesmo ano de sua morte. Segundo relatos divulgados na Revista Revestres, Torquato Neto saiu do hospital com a cabeça raspada e chegou a ganhar uma peruca de amigos próximos. O seu cabelo era tido com uma das marcas de sua personalidade rebelde.

Questões sobre o uso da terapia de eletrochoque no Piauí

Era um tempo de grandes mudanças na Medicina. Uma época em que a Psiquiatria se encontrava na encruzilhada entre o avanço e o que foi um capítulo de horrores para muitos pacientes que passaram por esses lugares. No Piauí, Clidenor empregou técnicas usadas até hoje, como algumas atividades sociais, do tipo pintura, artesanato, confecção de manufaturados, entre outros, que funcionava como espécie de reabilitação.
Mas, também acompanhando o grande destaque de modernização da época, usou técnicas como o eletrochoque. O aparelho usado no Meduna, segundo o livro “Dom Clidenor: O Último Quixote”, do médico Humberto Guimarães, foi construído pelo próprio Clidenor com a ajuda e do eletrotécnico teresinense, Benedito de Almeida.
Em um dos capítulos do livro, o pesquisador descreve um paciente que teria sido submetido a 11 sessões de eletrochoque: foram realizadas dez sessões, associadas a medicações e psicoterapia. No entanto, durante a 11ª aplicação, enquanto aguardava sua vez, o paciente, conhecido como Mudinho, entrou na sala e, de forma clara e decidida, disse: “Doutor, eu já tô falando tudo o que o senhor quer que eu diga! Não precisa mais de choque. Eu gosto do senhor!” Ele também afirmou que não deixaria mais de falar. Apesar de ser perceptível a melhora do paciente, ela aconteceu mais por medo da dor do que por outra coisa.

Procurado pela Todavia para uma entrevista, Humberto Guimarães, estava em meio a uma agenda corrida. Mas ele enviou a sua avaliação sobre o legado do Meduna à apuração, via mensagem de WhatsApp:
“O um legado de grandeza humanística, muitas vezes incompreendido por alguns apequenados, e exemplificado pela dedicação obstinada do grande timão daquele hospital, liderado pelo Dr. Clidenor, juntamente com outros colegas e pelas disciplinadas Irmãs de Caridade, que trabalharam incansavelmente como enfermeiras cuidadoras, oferecendo seu cuidado e atenção diuturnamente durante toda a existência do hospital, de 1954 a 2010”, disse o professor.

Tratamentos eram uma realidade da época
O ex-médico Edmar Oliveira acrescenta que, no Brasil inteiro, a realidade dos hospitais psiquiátricos era similar, e cita o livro da jornalista Daniela Arbex, que compara o tratamento dos pacientes a um “holocausto brasileiro”, fazendo referência aos campos de concentração nazistas na Segunda Guerra Mundial.
“O Meduna com todos os hospitais do mundo, caiu na visão popular como ‘lugares amaldiçoados’, a jornalista Daniela fez um livro chamado de Holoscauto Brasileiro e mostra que esses hospitais são terríveis. O mundo vai mudar fazendo serviços diferentes dos manicômios, era uma questão de que todos os hospícios do Brasil são horríveis e foram sendo colocados outros dispositivos”, avaliou.
Questionado se no Piauí práticas como a lobotomia chegaram a ser realizadas, Edmar Oliveira respondeu que apesar de ter acontecido, no Brasil, em estados como o Rio de Janeiro, não foi encontrado nenhum registro da prática em terras piauienses.
Mas e o futuro do prédio do Sanatório Meduna?
Clidenor Freitas partiu nos anos 2000, em Teresina. Dez anos depois da morte de seu fundador, em 2010, o Sanatório Meduna fechou as portas de vez. O terreno onde o hospital funcionava foi vendido para dar lugar ao Shopping Rio Poty, o que resultou na demolição de boa parte da estrutura. A Todavia entrou em contato com a direção do Shopping, que preferiu não se manifestar sobre as perguntas enviadas, que questionavam se havia alguma previsão de nova destinação para o espaço.
Da estrutura, após a construção do shopping, apenas a capela sobreviveu e algumas ruinas de pavilhões. Segundo informações da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o espaço foi cedido à Arquidiocese de Teresina por um período de 20 anos, em regime de comodato, e passou por reformas.

Na época, chegou a se especular que ali seria construído um centro cultural ou o Parque Tecnológico do Piauí, mas nada saiu do papel. Também já circulou na mídia a informação que o local seria totalmente demolido, o que gerou comoção de em diversas entidades. Em 2021, o governo determinou o tombamento do Sanatório Meduna como Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico do Estado do Piauí.
“Foi um lugar de violação de direitos humanos e precisamos reconhecer isso”

A pesquisadora Camila Fortes, doutoranda em Informação e Comunicação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, relata que a ideia de um espaço de memória divide opiniões. Enquanto alguns defendem a criação de um museu ou memorial, familiares de ex-pacientes se opõem à ideia, pois não querem reviver as dores do passado.
“O abandono do que restou do Sanatório Meduna é o reflexo de um descaso que está longe de ser apenas social, mas ele é, sobretudo, político. A fachada e a capela foram tombadas, e embora já tenham ocorrido projetos de revitalização, criação de museu, há uma resistência política em assumir que esse foi um lugar de violação de direitos humanos, e que precisa ser considerado um lugar de memória. Alguns familiares de pessoas manicomializadas no Meduna, são contra a construção de qualquer monumento nesse sentido, no entanto, acredito que é importante acessar essas famílias, explicar a importância desse espaço não apenas em termos arquitetônicos, mas simbólicos e históricos, para que compreendam que esses projetos não buscam apagar a história de quem passou pelo Meduna, pelo contrário, é justamente para que essa memória não seja esquecida”, disse.

A jornalista também destaca que, embora os tratamentos adotados no Meduna fossem vistos como inovadores para a época, hoje são encarados sob outra ótica.
“Para que não cometamos anacronismos, é fundamental reforçar que naquele contexto, esses eram os métodos considerados inovadores para a época. Hoje, vemos que foi um reforço da patologização e da psiquiatrização de sujeitos e sujeitas, que foi um ambiente de violação de direitos humanos e que por mais que suas intenções tenham sido no sentido de desenvolver uma cura para o “mal da loucura”, havia uma manicomialização em massa de corpos”, destacou.
O que Teresina fará com essa memória?
A cidade mudou, os tempos são outros, mas a dificuldade de lidar com o que incomoda segue a mesma. O Piauí tem a segunda maior taxa de suicídios do Brasil, e em Teresina, a média é de quatro casos para cada 100 mil habitantes. Os problemas de saúde mental não ficaram para trás. A Medicina avançou, mas a dor ainda existe.
Ignorar a existência de espaços como o Asilo dos Alienados e do Meduna é ignorar uma parte da história que diz quem Teresina já foi e é. A própria biblioteca de Clidenor de Freitas e a estátua de Dom Quixote, que poderia ser fonte para inúmeras pesquisas, permanecem armazenadas em uma casa alugada pela família na zona Sul.
Não se trata de celebrar o sofrimento, mas sim de garantir que essa parte da história não seja esquecida. Lembrar é um ato de resistência e um passo para garantir que erros do passado não se repitam. E pergunta que ainda segue sem uma resposta permanece: o que Teresina fará com essa memória?






1 comentário
Laura Teresinha
Gente eu adorei essa reportagem se podemos dizer assim acho que tem que ir para o bom dia Piauí meu bisa vô trabalhou lá não me contaram nada mas eu acho que ele deve ter visto muita coisa desagradável