Teria sido uma ação social rotineira da Rede de Voluntários “Seja Uma Benção”, não fosse o borracheiro Rubens Ferreira dos Santos, de 44 anos, que atualmente vive em situação de rua em Teresina. No último domingo (25), em um evento do grupo em frente a Prefeitura de Teresina, o homem pediu para usar o microfone e começou a cantar a música “Meiga Senhorita”. Com roupas simples, uma camisa azul, short e chinelos, barba por fazer e um sorriso, ele logo chamou a atenção de quem participava da ação. À medida que os versos da canção avançava uma pequena plateia se formou ao redor.
O momento foi gravado pelo secretário municipal da Juventude, Geraldo Jaques, e compartilhado também nas redes sociais do prefeito Silvio Mendes. Em seguida, as imagens foram replicadas por diversas páginas no Instagram, alcançando grande repercussão, com milhares de curtidas e compartilhamentos. Após a repercussão nas redes e estar recebendo a ajuda de voluntários, afirmou em entrevista à Todavia que quer viver desse talento.
No dia a dia das ruas na capital piauiense, para conseguir algum dinheiro, Rubens Ferreira oferece ajuda, limpa calçadas, observa o movimento da cidade e, sempre que encontra um som ligado, se aproxima. A música parece atravessar os dias como identidade e refúgio. Ele disse ter mais de 100 canções em seu repertório e preferir o estilo “modão”, música sertaneja raiz.
“Um dia ai eu cheguei todo sujo num aniversário, na casa de uma mulher muito rica e pedi para cantar. Ela olhou pra mim e disse: ‘é de onde a gente menos espera que sai merda, né?’. Mesmo assim, me deixou entrar. No fim da história, eu cantei, eles gostaram e, graças a Deus, eu estou com a esperança de mudar a minha vida”, pontuou.
Ele foi descrito pelos voluntários e outras pessoas em situação de rua com quem a coluna conversou como uma pessoa divertida, leve, religiosa e que encanta. No Centro ele fica pelas imediações da praça da Bandeira e também costuma ser visto na igreja Universal da região. A principal referência quando falam dele é a paixão que tem pela música e também a altura, sendo constantemente descrito como “o baixinho”.
Encontrado pelo boletimbrio, que quis descobrir mais sobre a história dele e da sua voz, Rubens contou que era borracheiro em Goiânia, vem de uma família evangélica, sendo o pai um pastor da igreja Madureira e a mãe uma missionária. Apesar de nunca ter feito aulas de canto ou música, lembrou que costumava cantar enquanto trabalhava, sem imaginar a música como destino.
À coluna, ele revelou que a separação da ex-esposa, há pelo menos sete meses, foi o ponto de inflexão na vida que o levou a capital piauiense.
“Quando eu minha mulher separamos, eu fui por esse caminho. Eu fui para um cabaré [ uma casa de prostituição]. Lá, a mulher que eu tinha pagado me pediu para comprar a porcaria da pedra [de crack]. E eu comprei. Ela me ofereceu, e eu falei para ela que não ia usar. Aí ela falou que eu não ia viciar. Mas não é assim, não, com a pedra. Deu um beijo no cachimbo, já era”, explicou.
Ele acrescentou que, aquilo que veio depois foi a perda gradual do controle, descrita como um engano que aprisiona.
“Sabe por que o pessoal vira esses escravos aí? Porque, desculpa o que eu vou falar agora, e não é incentivando ninguém a usar, a pessoa vira escrava porque ela [a pedra] é boa. Foi o “capeta” que fez ela mesmo. Porque ela é boa, ela é gostosa, ela é suave, a fumaça dela é muito louca. Por isso que o pessoal vira escravo dela. E os usuários não enxergam. Falam: ‘ah, eu uso porque eu uso’. Não. Usa porque ela engana. Mas eu não dou conselho para ninguém usar, porque é a desgraça. A desgraça do homem é a pedra”, refletiu Rubens sobre a própria história.

Rubens veio para o Nordeste de carona em carreta e consegue dinheiro limpando calçadas
Questionado sobre como veio parar em Teresina ele disse que, na verdade, sonhava em conhecer o Maranhão e aceitou uma carona em uma carreta que seguia para o estado, sem imaginar a distância que estava percorrendo. Ele também pontuou que não queria que a mãe o visse daquela forma.
Na viagem, passou por Caxias, onde não conseguiu trabalho nem espaço para a música, até ouvir que Teresina poderia oferecer novas oportunidades. Ao chegar à capital piauiense, há pelo menos uma semana, Rubens diz que sentiu que a cidade representava uma chance real de recomeço, percepção que, segundo ele, se confirmou poucos dias depois.
“Aconteceu de eu estar trabalhando numa borracharia e cara vinha para Caxias e me ofereceu uma carona. Eu entrei dentro da carreta e vim, sem pensar em nada. Quando eu cheguei, foi que eu fui pensar que estava longe de casa. Lá em Caxias eu não arrumei serviço de borracharia, e lá também não tem música. O pessoal gosta mais é de pancadão. Aí os caras me disseram: ‘se você for pra Teresina, lá sua vida pode mudar’. Eu acho que Deus abençoou isso mesmo, porque eu cheguei aqui e minha vida mudou de verdade”, descreveu.

Rubens diz que aprendeu a reconhecer os momentos de maior risco e a reagir a eles mudando de rota, evitando o isolamento. A transformação que ele descreveu é recente, ele mesmo reconhece ainda sentir vontade de usar entorpecentes. Não há garantias no que ele projeta, apenas a tentativa consciente de permanecer. “Hoje de manhã senti vontade de usar, mas ai corri para a igreja”, pontuou.
“Ganhei R$ 20 por cantar e não vou gastá-lo com drogas”

Rubens também fez questão de agradecer à rede de voluntários Rede de Voluntários “Seja uma benção”, responsável pela ação em que ele cantou. Naquela manhã, a equipe da Todavia foi ao centro da cidade à sua procura, mas o encontrou no Palácio da Cidade, onde ele aguardava uma conversa com o prefeito Sílvio Mendes, um encontro articulado pelo grupo de voluntários da ação que ele participou no último domingo (25).
Mais tarde, uma das voluntárias da Rede de Voluntários, Clarissy, enviou à Todavia imagens em que Rubens aparece em ligação de vídeo no WhatsApp com duas pessoas identificadas por ele como seu pai e sua mãe. Ele agradeceu pela ajuda recebida em Teresina. Segundo Rubens Ferreira, é na música e nesse novo grupo de apoio que ele espera encontrar refúgio para preencher o espaço que antes era ocupado pelo vício.
Confira o momento que foi compartilhado nas redes sociais:
Rubens ganha violão e cantará novamente em ação de secretaria

Segundo Geraldo Jacques, secretário da Juventude e também membro da Rede Seja uma benção, a visibilidade despertou a atenção de voluntários e do poder público para a história de Rubens Ferreira, que até então passava despercebida por onde ele já passou. Para ele, o caso revela como ações de assistência podem ganhar outra dimensão quando encontram talentos invisibilizados.
“A Rede Seja Uma Bênção é formada por muitos jovens voluntários que se colocam à disposição para servir pessoas em situação de rua. No domingo, realizamos um café da manhã e atendemos várias pessoas. Depois, deixamos o microfone aberto para apresentações musicais. Foi nesse momento que o Rubens Ferreira apareceu, se apresentou e cantou. Eu gravei o vídeo e publiquei nas redes. A repercussão veio porque ele realmente tem talento e precisa de oportunidades, algo que ele mesmo disse nunca ter tido. Desde então, estamos unindo esforços para ajudá-lo a seguir em frente, se recompor e ter novas chances. Ele também tem se comprometido a não fazer mais uso de drogas desde o dia em que se apresentou. A nossa ideia é dar apoio, orientação e abrir caminhos para que essas oportunidades aconteçam”, explicou.
Procurado pela Todavia, o secretário municipal de Comunicação, Ellyo Teixeira, confirmou que a conversa com o gestor municipal, de fato, aconteceu. O borracheiro fez uma visita na terça-feira (27) ao gabinete do prefeito.
Segundo informações do secretário de Comunicação, durante a visita, Silvio doou um pedestal de microfone e uma caixa de som para Rubens, enquanto Geraldo Jarques, contribuiu com um celular e um violão. O projeto social Rede Seja uma Benção também se colocou à disposição e alinhou com Rubens o início de seu tratamento. Assim que este for concluído, ele retornará para sua terra natal, onde moram seus pais.
Ele acrescentou que, em parceria com a Secretaria Municipal de Juventide, Rubens será o responsável pelo entretenimento musical para as pessoas em situação de rua que acontecerá no próximo domingo (01).

“Afinado e canta no tempo certinho”, professora avalia vídeo
Ainda curiosa e movida pelo interesse em compreender o talento de Rubens, a Todavia buscou ouvir uma professora de música, alguém inserido no universo da música, para que pudesse escutá-lo cantar e oferecer um olhar técnico sobre sua performance vocal.
Ao ver o vídeo original de Rubens que viralizou, a professora de canto e cantora Késsia Lopes, mestre pela Universidade de Aveiro, em Portugal, destacou do ponto de vista técnico, ele apresenta afinação e domínio do tempo, fundamentos essenciais para qualquer cantor. Segundo ela, cantar afinado e respeitar o ritmo da música são critérios centrais na avaliação vocal, especialmente quando se trata de alguém que nunca passou por formação formal.
Para ela, a música, assim como outras formas de arte, tem histórico de transformação de vidas em contextos de vulnerabilidade.
“Rubens é afinado e canta no tempo certinho. E para mim, enquanto professora de música, especificamente de canto, é o que mais importa. Cantar no tempo e afinado […] Não só a música, mas a arte em geral pode ajudar a transformar vidas. Mas é claro, isso depende do desejo de mudança de cada um e das oportunidades”, destacou. “Eu costumo dizer que o talento sozinho não te leva a se profissionalizar e/ou fazer sucesso. E sim um conjunto de diretrizes: foco, determinação, prática, paciência e constância. O talento ou dom, como alguns chamam, ajuda, mas não é ele quem determinada se você irá seguir como um profissional ou não”, disse.

“O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos”
O grande desafio para a realização desta reportagem foi, inicialmente, encontrar Rubens. Pessoas em situação de rua raramente permanecem em um único lugar: circulam pela cidade, não costumam ter telefone celular, nem mantêm vínculos familiares ou redes próximas estáveis. A partir disso, a Todavia passou a procurá-lo nos arredores de onde o vídeo havia sido gravado. Na Praça da Bandeira, dos vendedores ambulantes e pessoas que transitam diariamente pelo local, quase todos já tinham visto Rubens. Alguns sabiam seu nome, outros o reconheciam por características físicas, “o baixinho”, diziam, em referência à sua baixa estatura, mas a maioria o identificava pela música, pela paixão em cantar e pelo desejo de ter um violão.
A busca por Rubens também levou a ver uma realidade que muitas vezes passa despercebida. Ao olhar com atenção para as pessoas em situação de rua, frequentemente invisibilizadas no cotidiano da cidade, percebe-se um retrato social, que confronta diretamente a zona de conforto. É difícil encarar quem não tem um lar, não tem garantia de alimentação diária, não pode ou não consegue manter laços familiares, nem conta com alguém que cuide de si. Talvez por isso, tantas vezes, não se olhe. Mas é justamente quando esse olhar é direcionado a quem não costuma ser visto que a realidade se mostra dura e incômoda.

Em Teresina, assim como em outras grandes cidades, pessoas vivem nas ruas por razões diversas. Algumas enfrentam a falta extrema de recursos, outras tiveram vínculos familiares e sociais rompidos de maneira tão profunda que a rua passa a ser o único espaço possível de pertencimento. Há ainda a presença do uso de drogas a céu aberto, uma realidade, que exige enfrentamento por meio de políticas públicas. Nesse contexto, ações voluntárias são importantes também, seja oferecendo um prato de comida, uma escuta ou uma palavra de acolhimento. Mas é indispensável, também, que o poder público se aproxime dessas pessoas com políticas contínuas, humanas e estruturantes.
A jornalista Eliane Brum, colunista do El País, que defende que as maiores histórias estão nos momentos mais cotidianos, escreveu em seu livro “O mundo que ninguém vê” que “O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva”. Foi esse olhar que nos levou a querer contar a história de Rubens. Que o levou a fazer sucesso com seu vídeo cantando e que pode ajudar a mudar a realidade de tantas outras histórias que passam invisíveis todos os dias.





