
Direto da década de 80, a Todavia recebeu o recorte deste jornal, identificado como uma página de um artigo de opinião do “Jornal O Dia” de 1987, onde o autor, José Eduardo Pereira, não localizado pela apuração, fala sobre uma “onda de sapatões” em Teresina. Ele chega a relatar que era um “Deus nos acuda”, quando uma pessoa assumia a sua sexualidade na capital piauiense e que a cidade inteira se agitava-se em “absoluto choque”. Além disso, o texto sugere que a situação seria resultado de influência do meio e que haveria um “recrutamento” de novos integrantes a comunidade LGBTQI+, que ele nomeia no texto como “invertidos”.
“É preciso que os pais encarem seriamente este problema. Com a coragem de olhar para a frente, para a verdade, ao notar o primeiro sintoma de ‘frescura’ do seu jovem filho […] Nem tudo está perdido. Se a verdade for encarada com coragem, muitos desses rapazes e moças que andam misturados na promiscuidade e dos andrógenos, poderão retornar ao sadio convívio dos normais, abandonando a fantasia humilhante dos invertidos da natureza”, escreveu o autor no artigo de jornal.
O pensamento se perpetua
Quase 40 anos depois, esse pensamento não mudou na cabeça de muita gente. Prova disso é a onda de ataques nos comentários do vídeo publicado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, onde a professora travesti, Letícia Carolina Nascimento, fala sobre sua vivência como docente do curso de Pedagogia.
“Eu não chego sozinha a esta instituição como docente. Chego representando uma população extremamente excluída. Sou a única docente travesti nesta instituição, e isso reflete um contexto educacional muito maior, no qual muitas meninas trans são expulsas da sala de aula ainda no ensino fundamental e médio. Assim, elas sequer conseguem prestar vestibular para estar aqui dentro. Minha presença na UFPI reforça o compromisso da instituição em construir cada vez mais políticas de inclusão, acesso e permanência para segmentos populacionais historicamente vulnerabilizados”, destacou a professora em seu vídeo.
A gravação teve mais 1,6 mil comentários. Parte deles com ataques e até ofensas: “Ninguém vê mulher de verdade fazendo representação, tudo agora é homem vestido de mulher”, chega a provocar uma das mensagens deixadas. Uma segunda parte dos comentários são de outro grupo de internautas, que se solidarizaram e foram até lá para prestar apoio à professora.
Veja o vídeo completo aqui:
Professora do curso de Pedagogia e doutora em Educação, ela seguiu explicando que foi a primeira docente de um programa de pós-graduação da UFPI a ingressar, através de cotas para pessoas trans.
“Tive que estudar muito, ler diversos livros de Pedagogia. Mas, além desse esforço acadêmico que todas as pessoas enfrentam, também tive que lidar com o racismo e a transfobia, desafios que se somaram à minha jornada. Por tudo isso, me considero uma mulher vencedora. Uma pessoa que contribui para construir uma UFPI mais diversa, inclusiva e justa”, acrescentou.

Um breve perfil dos haters
Os ataques em resposta são os mais diversos e usam argumentos, a maioria, com base em senso comum e que também não correspondem à realidade:
“Não é nem discriminação. É a genética”, escreve um. “Mulheres estão perdendo espaço para homens fantasiados”, opinou outro.
A apuração verificou o perfil do Instagram dos autores destes dois comentários. O primeiro tem um perfil fechado, sem nenhuma publicação e colocou apenas a frase “Jesus Cristo é o meu senhor”. Já o segundo possui mais de 170 mil seguidores e é de um internauta que intitula-se como “gay de direita”.

Embora algumas religiões, de fato, acreditem na existência de apenas dois sexos, o masculino e feminino, partindo de uma crença individual, ou seja, aplicada a si mesmo ou aquele grupo em específico, a construção de uma identidade de gênero leva outros fatores em consideração, além da biologia, como vamos explorar mais adiante. Também é importante ressaltar que apenas 0,38% dos postos de trabalho no país são ocupados por pessoas trans no Brasil, segundo o Datafolha. Pelo menos quatro em cada 10 desta comunidade já sofreram alguma discriminação no ambiente de trabalho, aponta um levantamento divulgado pelo Linkedim.
“Me adoeceu bastante”
Há dois anos, em 2023, um caso semelhante aconteceu com a pesquisadora Luara Dias Silva, mestra em Políticas Públicas pela UFPI por conta do trabalho desenvolvido por ela no programa de pós-graduação e que recebeu o nome de “Sapatonas Caminhoneiras Negras e o Mercado de Trabalho como um Desafio”. Na época, uma página no Instagram incitou seus seguidores após replicar o convite para a sua banca de defesa da dissertação de mestrado. Segundo ela, as mensagens com xingamentos começaram a chegar no seu celular logo depois que a banca examinadora aprovou sua pesquisa.
Ela relatou que contou com o apoio de amigas para a defenderem e que chegou a apagar algumas das mensagens que recebeu no direct. “Me chamaram de sapatão para baixo, questionando o tema do trabalho”, pontuou a professora, classificando o dia como “estressante”. Ela também observou que, muitos dos perfis usados para disseminar o ódio eram “fakes”. “As pessoas, às vezes, criam uma conta só para isso”, acrescentou.
“Na época, foi algo que me adoeceu bastante”, disse Luara Dias, que é uma mulher lésbica, referindo-se a sua saúde mental.

Como pesquisadora em gênero e sexualidade, Luara Dias avaliou que Teresina é uma “cidade conservadora” e que tem uma crença enraizada de que determinados grupos, principalmente aqueles considerados marginalizados, não devem ou não merece ocupar determinados espaços. Essa é uma realidade, segundo ela, que também se estende a outros grupos como negros e pessoas mais pobres.
“Muitas pessoas LGBTs são tratadas como se não merecessem o mesmo respeito e isso é especialmente visível quando uma pessoa trans ocupa um cargo de poder, como o de professor em uma universidade federal, que é um espaço extremamente importante. O professor é um formador de opinião, alguém que influencia a sociedade. Quando uma mulher trans ocupa esse espaço, causa incômodo, porque muitas pessoas cis-heterossexuais acreditam que esses lugares são exclusivos para elas. Esse sistema perpetua a presença das mesmas pessoas no poder”, avaliou.

Brasileiros consomem mais pornografia com pessoas trans
A nível de Brasil, essa realidade se traduz em um paradoxo: o país lidera o ranking de homicídios contra pessoas trans enquanto também figura entre os maiores consumidores de pornografia com essa população. A contradição evidencia um sistema que, ao mesmo tempo em que explora e lucra com a vulnerabilidade dessas pessoas, busca apagá-los dos espaços de poder e decisão.
O filme “Taxi Driver” (1976) de Martin Scorsese faz uma crítica a esse tipo de postura: o protagonista, o taxista Travis Bickle, interpretado por Robert De Niro, anda pela cidade e sente nojo do que ele considera a “imoralidade” que se espalhou por Nova York, enquanto ele próprio vai ao cinema assistir filmes pornográficos, sem ver nenhuma contradição nisso.

Mas por que Piauí (e o Brasil) é assim?
É possível ver que passados quase 40 anos, boa parte desse pensamento não mudou na cabeça de algumas pessoas. Mas, pesquisando a fundo sobre o tema, a verdade é que esse é um preconceito que está ali, incrustrado, há séculos.

Para entender o que gerou e o que faz essa concepção se perpetuar na capital piauiense, a apuração buscou o psicólogo Francisco Lamartine Guedes Pinheiro, professor na Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e doutor em Psicologia pela Universidade de Fortaleza, atualmente coordenador do projeto Corpo Freudiano do Piauí. Ele iniciou a entrevista, feita por meio de ligação, explicando que o uso do termo “homoafetivo” é mais atual, uma forma mais inclusiva, do que a “homoxessualidade” ou “homoxessualismo”, sendo este último pejorativo, por conta do sufixo “ismo” no final, que refere-se a uma doença.
Para o psicanalista, o que parece ser uma resistência do povo teresinense ao novo, tem raízes históricas. O Nordeste, a primeira região do Brasil a receber os portugueses, que trouxe diversas tradições feudais consigo, foi fundado com uma estrutura muito parecida com as “SesMarias”, grandes terrenos que eram dominados por famílias poderosas.
Esses feudos abrangiam estados como Ceará, Pernambuco, Alagoas e Maranhão, e o Piauí estava incluído nesse contexto. Isso trouxe várias tradições de Portugal. A prova disso está em traços da nossa cultura por toda parte que imitam o que o professor classifica como “medieval”. Um exemplo são as vaquejadas, antigamente chamadas de cavalhadas – que eram encenações de batalhas em que vaqueiros, vestindo roupas típicas, reverenciavam Nossa Senhora após vencer uma batalha. Ou até mesmo a tradição de construir templos para um determinado santo que concedeu uma graça. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) apontam que, atualmente, que, há mais templos religiosos do que escolas e hospitais no Piauí. São mais de 10 mil em todo o estado.

A literatura também ilustra esse cenário. As obras do escritor e filósofo Ariano Suassuna fizeram sucesso retratando o Nordeste com figuras que costumam ser caricatas, com traços exagerados, e representam arquétipos como o poderoso autoritário (coronéis e políticos tradicionais), o pobre astuto (o povo que precisa ser esperto para sobreviver) e o religioso fervoroso (a influência da Igreja na cultura).

Lamartine Guedes atribui a permanência desse tradicionalismo no Piauí à falta de modernização do estado, que é ainda muito interiorano e distante das inovações culturais e sociais por questões históricas e políticas. Ele também pontuou que a sociedade teresinense costuma sentir-se constantemente “vigiada”, como se vivesse em um “Big Brother”, onde o outro é o telespectador de sua vida. Esse interesse pelo que acontece como o próximo, segundo o psicólogo, é também uma herança portuguesa, que vem de práticas da época da Inquisição.
“O curso de Psicologia foi um dos últimos a chegar em Teresina, por exemplo, é uma área nova, havia muita resistência em trazê-lo, por quê? Justamente porque a Psicologia é a ciência que estuda a sexualidade”, pontuou o professor. “O Piauí estado é o último a se modernizar, profundamente interiorano, sem tradição turística e com uma capital distante das grandes inovações. Esse isolamento contribui para essa manutenção de uma moral tradicional e conservadora, especialmente no que diz respeito à moral sexual. Esse conservadorismo, que se traduz em um julgamento constante baseado em fofocas e opiniões, reminiscente também das práticas da Inquisição”, afirmou Lamartine.
A Inquisição foi um sistema de julgamento e perseguição religiosa da Igreja Católica, que visava identificar, punir e eliminar práticas consideradas contrárias à fé cristã, principalmente entre os séculos XII e XVII.
“As pessoas se sentem vigiadas o tempo todo”
Para o professor, essa herança vem criando uma sociedade paranóica, onde o julgamento e a vigilância sobre o comportamento alheio são constantes, resultando em um ambiente de repressão e exclusão.
Questionado pela Todavia, Lamartine também explicou o “medo” que muitas vezes é usado para colocar a população LGBTQI+ como uma “inimiga” a ser vencida. Ele disse que existe uma ideia equivocada de que a homoafetividade se espalha social ou culturalmente, o que é um mito.
“Na verdade, [a sexualidade] está profundamente ligada à formação da identidade desde a infância, dos zero a quatro anos de vida, quando as crianças são influenciadas pela família, não pela cultura externa ou por influências de outras pessoas. Portanto, uma pessoa homoafetiva, seja uma professora, professor ou outro sujeito, não podem ‘transformar’ alguém em homoafetivo, assim como um heterossexual não vai se tornar homoafetivo por convivência. A orientação sexual é uma parte intrínseca da identidade de cada indivíduo”, destacou.
Ele também alertou que essa repressão constante cria uma sociedade onde as pessoas vivem com medo, se sentem constantemente vigiadas e, consequentemente, isso leva ao adoecimento social e psicológico.
“Quanto mais preconceito, quanto mais repressão tiver na infância, mais a curiosidade sobre a situação e mais a identidade sobre a questão homoafetiva pode aparecer. Também observamos que, quando há um interesse sobrecomum, relacionado ao tema, é porque pode existir algo internamente relacionado a homoafetividade também”, avaliou o psicólogo.
O processo é lento, mas tem que acontecer!
Por mais que se avance em algumas frentes, esse processo tem se mostrado especialmente lento no Piauí, onde o medo e a intolerância ainda persistem, muitas vezes de forma silenciosa, mas não menos impactante. Figuras como a professora travesti, Letícia Carolina, são as vozes que desafiam um sistema que tenta, a todo custo, silenciar as diferenças.
O Piauí, com suas estruturas de poder arraigadas, ainda tem muito a evoluir. No entanto, é justamente com a força das histórias que surgem da resistência que podemos acreditar que, com o tempo, as transformações virão. E, talvez, um dia, o medo não será mais um argumento para silenciar aqueles que, com coragem, desafiam as ditas normas sociais vigentes.



