Quatro anos depois da morte de Tainah Luz Brasil Rocha, em 2022, no bairro Mocambinho, em Teresina, a família deixou o Tribunal Popular do Júri, que deu o veredito sobre o caso no último dia nove de setembro de 2026, com a sensação de ter vivido novamente o crime que tirou a vida da jovem bacharel em Direito de 27 anos. As rés Fernanda Maria Lobão Ayres, ex-namorada de Tainah, foi absolvida e Geovana Thaís Vieira da Silva, que na época namorava Fernanda, teve a acusação de homicídio doloso qualificado desclassificada para homicídio culposo por excesso culposo em legítima defesa de terceiro.
Vinícius Brasil, irmão de Tainah, afirmou à Todavia acreditar que o Ministério Público do Piauí (MPPI) recorrerá da decisão. Após contato do Boletim Brio, o advogado de defesa Smailly Carvalho declarou que, caso a Justiça acolha um possível recurso e determine a realização de um novo júri, levará o caso às instâncias superiores, entre elas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF).

Tainah foi atingida por 13 golpes de faca dentro de uma residência, em maio de 2022. Socorrida e encaminhada ao Hospital de Urgência de Teresina (HUT), ela morreu no dia seguinte. No julgamento que ocorreu neste mês de setembro, os jurados não reconheceram a participação de Fernanda na morte. Em relação a Geovana, entenderam que ela agiu para defender Fernanda, mas ultrapassou culposamente os limites dessa defesa. Para a família, o resultado também deixou uma marca sobre a memória de Tainah, apresentada durante o processo como a pessoa que teria iniciado a agressão.
Irmão contesta versão da defesa e conclusão da polícia

Outro irmão da vítima, o advogado Thales Brasil, disse que na avaliação dele, a investigação aceitou como verdade, desde o início, a versão apresentada pelas duas pessoas que estavam com Tainah no momento do crime. Ele pontuou que considera que não foram produzidas provas de que a irmã estivesse tentando matar Fernanda, situação que justificaria a intervenção de Geovana em defesa de uma terceira pessoa.
“Da mesma forma como eles estavam defendendo que não havia nenhuma prova que apontasse que a Fernanda teria dado alguma facada na Tainah, não tem também nenhuma prova que comprove que a Tainah estava tentando matar a Fernanda, que a outra pudesse entrar para defender a Fernanda. A única prova que existe é a palavra delas. Desde a fase do inquérito policial, isso foi tomado como verdade”, afirmou.
Para ele, além da perda, o que também machucou foi a imagem da irmã que, em sua avaliação, permaneceu depois do julgamento. “No final das contas, ela ficou como uma agressora, uma pessoa que tentou agredir outra, que tentou matar outra, e a outra, para se defender, matou ela. A Tainah que eu conheci nunca foi essa”, descreveu.

“Tainah não morreu. Ela foi assassinada”, diz irmão de Tainah
O irmão da vítima, Vinícius Brasil, também pontuou rejeitar a forma como a morte da irmã passou a ser descrita na imprensa.
“Muito se fala que a Tainah morreu. A Tainah não morreu. Ela foi assassinada. Existe essa diferença”, afirmou.
Vinícius disse que o julgamento fez a família reviver o crime e que, no dia seguinte, ninguém conseguia retomar a rotina. Ele afirmou compreender a demora até o julgamento, realizado quatro anos após o crime. Ainda assim, afirmou que a família não esperava esse desfecho e acreditava que as duas rés receberiam algum tipo de pena.
“O que acontece é que, quatro anos atrás, houve essa tragédia na nossa família. A gente ficou esperando por causa da demora da Justiça. A gente reconhece que existe essa demora, mas você espera quatro anos e, no final de toda a situação, vê as acusadas pela morte da sua irmã saírem livres com a alegação de legítima defesa”, declarou. “Foi igual ao dia depois do velório da minha irmã. Ninguém almoça direito, ninguém sente fome, ninguém tem vontade de fazer nada”, completou.

Um dos pontos questionados por Vinícius foi a forma como as lesões sofridas por Tainah foram discutidas no plenário. Segundo ele, um dos médicos que prestou atendimento à irmã relatou durante o julgamento a profundidade de algumas perfurações. “Teve uma testemunha que foi um médico que atendeu a minha irmã. Ele relatou diante do juiz que introduziu o dedo em algumas das perfurações, na região abdominal, para avaliar a profundidade e saber se tinha atingido algum órgão vital. Como um médico relata isso e os advogados vêm dizer que foram apenas cortes?”, questionou.
Vinícius afirmou que o Ministério Público deve recorrer e que a família espera a realização de um novo júri. Fora dos autos, ele descreveu Tainah como uma mulher decidida, estudiosa e dedicada ao trabalho. Ela havia se mudado para Curitiba em busca de melhores condições financeiras. Segundo Thales, durante a pandemia, Tainah passou uma temporada em Teresina porque trabalhava remotamente. A viagem em que ocorreu o crime foi posterior, quando ela retornou para visitar familiares e amigos. “Minha irmã sempre trabalhou, sempre foi muito estudiosa e tinha um excelente convívio familiar. Infelizmente, fez escolhas erradas em relação a algumas pessoas”, disse.
Lúpus e histórico no judô
Vinícius também criticou a forma como o lúpus, doença autoimune que Tainah tinha, e a experiência dela no judô foram abordados. Segundo ele, houve a tentativa de relacionar a doença ao estado de saúde da irmã após a cirurgia e Tainah foi apresentada como uma lutadora, embora, segundo ele, ela tivesse praticado apenas o nível básico da modalidade.
“Minha irmã tinha lúpus e os advogados de defesa tentaram relacionar a doença ao estado dela depois de uma cirurgia, após ter sido atingida por 13 facadas. Não precisa ser da área da saúde para entender que uma doença autoimune não tem relação com a morte causada por facadas. A Tainah também praticou judô, mas chegou somente à faixa azul e sabia apenas o básico. Mesmo assim, eles a apresentaram ao júri como uma lutadora, dizendo que ela teria iniciado a agressão e feito imobilizações. Também disseram que ela avançou contra Fernanda depois de pedir um beijo e receber uma negativa. É triste ver sete jurados assistirem àquilo e acreditarem que a Tainah era uma lutadora profissional, porque ela nunca chegou perto disso”, afirmou.

“Ela era uma menina doce e gentil”, diz prima de Tainah
Letícia Brasil, prima de Tainah, cresceu frequentando os mesmos espaços e convivendo com os amigos dela. As duas estudaram durante anos na mesma escola. Ela se lembra principalmente da maneira como Tainah tratava as pessoas próximas.
“Eu basicamente cresci no meio dela e dos amigos dela. Por estudarmos a vida toda na mesma escola, eu sempre tive esse contato com eles. Diversas vezes brincavam comigo e eu sempre via essa mesma relação entre eles. Sempre foram amizades com muito respeito, brincadeiras e acolhimento. Na minha memória, só vêm lembranças boas”, contou.
Para Letícia, a personalidade de Tainah era perceptível mesmo para quem não mantinha uma convivência próxima com ela. “Até quem não a conhecia sabia desse lado dela. Não precisava falar com ela para saber como ela era. Bastava olhar para ela e você enxergava uma menina doce e gentil. Ela sempre foi uma prima carinhosa, tanto que, para mim, era como uma irmã mesmo”, descreveu.
Letícia disse que acompanhou o julgamento esperando que as duas rés fossem condenadas, ainda que não acreditasse na aplicação de penas elevadas. A absolvição de Fernanda e a desclassificação do crime atribuído a Geovana produziram uma reação física.
“A sensação que tive foi a de ter recebido a notícia da morte dela novamente, só que muito pior, muito mais dolorosa. Era um choro que causava uma agonia dentro de mim. Perdi as forças e me sentei rapidamente na cadeira. Só me levantei porque minha mãe ficou me chamando antes que os outros começassem a comemorar na nossa frente”, relatou. Para ela, uma pergunta permanece sem resposta. “Acho que nunca vamos entender como aceitaram que 13 facadas foram legítima defesa e como inocentaram pessoas que, a todo momento, se contradiziam nos depoimentos”, avaliou.
“É inconcebível imaginar que a Tainah tenha iniciado uma luta corporal”, diz amiga
Valéria Neves conheceu Tainah quando ela tinha entre 12 e 13 anos. Sua lembrança é a de uma pessoa tranquila, calma e afetuosa, características que, para ela, não combinam com a figura apresentada pela defesa durante o julgamento.
“Desde que conheci a Tainah, sempre percebi nela uma pessoa muito tranquila, muito calma. Sempre foi uma pessoa muito amorosa, que fazia questão de demonstrar os sentimentos de forma muito afetuosa. Para mim, é inconcebível imaginar que a Tainah tenha iniciado uma discussão, uma luta corporal e desferido a primeira facada contra outra pessoa, porque ela nunca foi uma pessoa violenta”, afirmou.
Valéria também praticou judô com Tainah e contesta o uso dessa experiência esportiva como indício de que ela teria vantagem durante a luta corporal. Segundo a amiga, Tainah fez judô durante um período da infância, não ao longo de toda a vida, e demonstrava preocupação em não machucar os colegas. “Ela sempre foi uma pessoa muito medrosa. Dentro do próprio judô, tinha esse cuidado, no momento da luta, de não machucar os outros. Foi muito injusta a narrativa criada de que ela era uma pessoa violenta e teria usado o esporte para conseguir alguma vantagem”, disse.
Depois de quatro anos, Valéria contou que esperava que o julgamento produzisse alguma responsabilização. O resultado deixou nela um sentimento de frustração e injustiça. “Acho que todo mundo foi para esse julgamento muito esperançoso de que a Justiça fosse feita. Ao longo do julgamento, a gente foi entendendo que talvez a decisão não fosse tão favorável, mas imaginava que, de alguma forma, o que aconteceu seria pago. O sentimento é de muita revolta e muita tristeza”, avaliou.
Para Valéria, o processo não conseguiu mostrar suficientemente quem Tainah havia sido antes do crime. “Acho que o que faltou foi exatamente mostrar esse histórico de quem foi a Tainah, como ela era, como se importava e como se relacionava com as pessoas, inclusive com a própria Fernanda (ex-namorada). Conhecendo a Tainah de verdade e sabendo desse histórico de vida, seria possível ter uma noção maior e fazer um contraponto a tudo que foi colocado”, avaliou.
O que diz a defesa
Também ouvido pela coluna, o advogado Smailly Carvalho, que representa Geovana Thaís Vieira da Silva, afirmou que o resultado do julgamento corresponde às provas apresentadas durante o processo. Segundo ele, Geovana nunca negou ter desferido os golpes, mas sustentou que agiu para defender Fernanda. Sobre a participação de Fernanda, o advogado destacou que ela não foi indiciada pela Polícia Civil.

“A Geovana nunca negou o fato. Ela sempre relatou o que fez e afirmou que agiu em legítima defesa da Fernanda. Em relação à Fernanda, não existe nos autos prova ou indício de que ela tenha participado de qualquer ação para tirar a vida da Tainah. Tanto que a autoridade policial do DHPP não indiciou a Fernanda”, declarou.

Para o advogado, os jurados reconheceram a legítima defesa, mas entenderam que Geovana deveria responder pelo excesso culposo.
O advogado também afirmou que um eventual recurso do Ministério Público, caso seja acolhido pelo Tribunal de Justiça do Piauí, poderá anular o julgamento e levar o caso novamente ao Tribunal do Júri. “Nós acreditamos que isso não vai acontecer, porque a decisão do Conselho de Sentença se amolda às provas colhidas no processo. Mas, se acontecer, iremos recorrer para o Superior Tribunal de Justiça e para o Supremo Tribunal Federal, porque entendemos que o julgamento foi justo e não há motivo para um novo júri”, afirmou.
O advogado também respondeu às críticas feitas pela família de Tainah Brasil sobre as estratégias adotadas pela defesa durante o julgamento. Segundo ele, a doença preexistente da vítima, o lúpus, não foi utilizada como argumento nos debates perante os jurados. “A defesa em nenhum momento questionou a doença preexistente dela. Foi feita apenas uma pergunta ao irmão da vítima, ainda durante a instrução, mas isso sequer foi levado aos debates”, afirmou. Sobre a prática de judô por Tainá, o advogado sustentou que o ponto foi abordado por estar relacionado à dinâmica dos fatos apresentada pela defesa.
“Ela praticava judô e, segundo a tese defensiva, utilizou-se dessa prática para agredir Fernanda. A posição em que Fernanda sofreu as lesões também foi analisada pelo perito. Fernanda afirma que Tainá estava em cima dela, e Geovana apresentou a mesma versão. A partir daí, a defesa sustentou que Geovana tomou a faca e provocou as lesões em Tainá em uma ação de legítima defesa”, sustentou.
Durante e após o julgamento, Fernanda também publicou uma sequência de stories no Instagram, conforme registros divulgados pelas páginas Babados Teresina e Portal OitoMeia. Depois da absolvição, compartilhou um vídeo do momento em que o veredito foi anunciado e uma fotografia ao lado dos advogados, acompanhada da frase “Quatro anos e meio depois, a justiça foi feita”. Em outra publicação, mostrou uma garrafa de água com a personagem Hello Kitty e afirmou que ela estava ao seu lado nos piores momentos.

A cronologia do caso
15 e 16 de maio de 2022 | O crime e a morte
Tainah Luz Brasil Rocha foi à casa da ex-namorada, Fernanda Maria Lobão Ayres, no bairro Mocambinho, onde também estava Geovana Thaís Vieira da Silva, então namorada de Fernanda.
Segundo relatos apresentados durante o processo, as três passaram parte da noite conversando, ouvindo música e consumindo bebidas alcoólicas. De acordo com a versão da defesa, a discussão teria começado após uma suposta tentativa de Tainah de beijar Fernanda. A família contesta essa narrativa.
Da investigação à denúncia
A Polícia Civil indiciou Geovana por homicídio qualificado, mas não encontrou elementos suficientes para indiciar Fernanda. O Ministério Público, no entanto, denunciou as duas como coautoras de homicídio qualificado por motivo fútil, emprego de meio cruel e recurso que teria dificultado a defesa da vítima. Geovana admitiu ter desferido os golpes, mas afirmou que agiu para defender Fernanda.
9 de setembro de 2026 | O veredito
O júri absolveu Fernanda por não reconhecer sua participação na morte. Em relação a Geovana, os jurados reconheceram a autoria, mas entenderam que ela agiu em legítima defesa de Fernanda e ultrapassou culposamente os limites dessa defesa. A acusação foi desclassificada para homicídio culposo, sem aplicação imediata de pena. O Ministério Público ainda pode recorrer.



