Boletim 03/04/25

Por que os vereadores de Teresina não vão cassar Tatiana Medeiros e outros bastidores sobre voto e facções no Piauí

Vamos escrever sobre facção, investigação policial e política. Sei a enxaqueca em andamento que isso representa. Ok, hora de começar.

“Bota uma coisa na cabeça: nós, vereadores da Câmara de Teresina, não vamo cassar ela (a vereadora Tatiana Medeiros, do PSB). Eu lá vou me indispor com facção? Se a Justiça Eleitoral diplomou, empossou e se não cassou até agora, aí lá vai eu, o bonitão, me expor? É corporativismo mesmo! Quem anda em periferia somos nós, vereadores!”, analisou à coluna, sincero ao extremo, um vereador da capital sobre o pós-prisão da vereadora e advogada Tatiana Medeiros, eleita com 2.925 votos e detida nesta quinta-feira, 03, pela Polícia Federal durante a segunda fase da Operação Escudo Eleitoral.

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A defesa: “Presa por apagar mensagem?”

“Nós temos uma prisão preventiva, diversas cautelares e eu vejo que não tem necessidade de prisão. Qual é o sentido da preventiva? Estou tendo acesso ao processo nesse minuto, irei analisar com calma. Mas a Tatiana está sendo presa por que apagou uma mensagem no celular, de novembro do ano passado?”, questionou o advogado Dellano Sousa, que integra a defesa de Tatiana, ao ser questionado pelo boletim sobre o posicionamento da vereadora a respeito das acusações.

A Polícia Federal diz que há indícios de que a campanha que elegeu a vereadora foi custeada com “recursos ilícitos oriundos de facção criminosa”, o Bonde dos 40.

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Os supostos milhões e o namorado

Por que a Polícia Federal e não a Civil prendeu Tatiana? Bom, é que o namorado de Tatiana Medeiros, Alandilson Cardoso, é investigado pela Polícia Civil do Piauí sob a acusação de ser uma liderança financeira da facção Bonde dos 40, transacionando supostamente milhões de reais.

Ele foi preso em novembro do ano passado em Belo Horizonte (MG), onde estava com Tatiana em um quarto de hotel no momento da prisão. “O trabalho da Polícia Civil é em cima dele como operador financeiro de facção, não atuamos com atribuição eleitoral, que é a acusação que a vereadora responde”, explicou uma fonte da Polícia Civil ao boletim sobre as atribuições de cada órgão.

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Precisa prender por crime eleitoral? O que não se sabe?

Ora, o pensamento corrente no senso comum é que “no Brasil não se prende rico”. O leitor sabe que em crimes não violentos como caixa 2 de campanha eleitoral, a regra é cautelar diversa e não prisão preventiva. A vereadora não tem histórico criminal e o suposto crime que ela é acusada não tem indício de violência.

O natural não seria apenas afastar da função e colocar tornozeleira? O que pode ter acontecido no curso da investigação para justificar um segundo ato, mais severo, contra a vereadora (o primeiro ato foi a busca e apreensão de dinheiro em espécie e elementos de informação com Tatiana)? A investigação é sigilosa até o momento.

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Situação é generalizada

Situações similares em graus diferentes, envolvendo facções, polícia e política, têm se repetido em outros estados, entre eles o vizinho Ceará, onde o Ministério Público Eleitoral conseguiu na Justiça recontagem de voto e inelegibilidade de suplente de vereador em Iguatu por envolvimento com facção criminosa. Já em Belém do Pará, a PF investigou a necessidade de acordo ou ajuste com facções para que políticos pudessem acessar determinado bairro e fazer carreata.

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Voto e facção: os dois são territorializados

 “Em qual lugar o crime é mais territorializado no país? O Rio de Janeiro. O que mais também é territorializado? O voto. Mas pelo menos aqui no Piauí não tem domínio territorial de área pelo crime. Quando isso acontece, tudo pra girar ali dentro tem que ter a ciência das facções, como uma série de serviços. É muito mais complexo e envolvem também negócios e não apenas política”, analisou ao boletim, em reserva, um especialista em segurança pública no Piauí.

“Dinheiro todo mundo tem, agora dinheiro e arma, não”, frisou o interlocutor do mundo policial sobre a disputa teoricamente desigual por votos.

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Tem outros dois casos

Pairam sobre outros políticos (pelo menos um estadual e um municipal) suspeitas sobre algum tipo de ligação com facções (que não o Bonde dos 40). Nesses casos, o nexo da relação envolve, supostamente, recursos financeiros via empréstimo, digamos assim. Vamos encerrar aqui esse tema, quem sabe voltamos depois…

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Reserva de mercado 

Para políticos e integrantes de forças policiais ouvidos pela coluna, a prisão de Tatiana Medeiros, mesmo que temporária, não deixa de ser lida como um recado, seja da classe política, seja de parte do Judiciário, de que há um limite a não ser ultrapassado na busca pela influência de determinados grupos em esferas distintas. A resposta ao recado, não se sabe ainda.

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Foi para cima ao invés de mergulhar

Conta ainda o fato de a vereadora ter usado a estratégia de visibilidade, questionamento enfrentamento público das acusações. Elevando o tom, Tatiana também trouxe para si mais atenção, aumentando a pressão da opinião pública a respeito do caso sem deixar, por sua vez, de dar sua versão. 

Em tempo: vereadora nega o crime e não foi sequer julgada. Dessa forma, as análises colhidas pelo boletim refletem as apostas e avaliações de atores políticos sobre os reflexos do caso na seara deles, a política.

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Diga-me com quem tretas…

Diga-me com quem tretas, que te direi para onde aponta o teu futuro político… Pois bem. O secretário estadual de Segurança Pública, Chico Lucas, postou um stories assim, com a leveza de um tijolo de concreto, direcionado ao senador Ciro Nogueira (Progressistas): “Inimigo do povo e do voto. Não ganha no voto, mas já está querendo preparar outro golpe, porque é contra isenção do IR (Imposto de Renda) até R$ 5 mil. Esse senador representa a elite mais mesquinha”. Leia abaixo.

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Chico versus Ciro, um movimento

O movimento de Chico Lucas é interessante primeiro porque nenhum dos Rafaboys (núcleo primário de poder do Governo Rafael Fonteles) é afeito a confrontos públicos, especialmente na seara política. É uma turma polida. Num roteiro de filme, você sabe, leitor: o herói não pode ser arrastado ou enganado entre o Primeiro e o Segundo Ato. Ele deve ser proativo. Ele tem que escolher ir. 

Segundo, Chico sinaliza para o próprio PT e os grupos mais a esquerda do Governo, demarcando lugar de pertencimento. A política é uma história contada por imagens de conflitos, nunca esqueça.

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Toda semana dizem que “sexta resolve”

Um vereador da capital se questiona qual é a mesmo a sexta-feira, de que mês e de que ano, que as coisas vão se resolver no rumo do Palácio da Cidade: “Toda semana é até sexta, até sexta, até sexta! Eu tô pra jogar a toalha!”, lamentou. 

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Não só não ajudaram como ainda atrapalharam

Segundo o homem, que é até paciente, a descrença em promessas é irreversível: “Não ajudaram e ainda atrapalharam porque meu povo está no pé, esperando… Agora vai ter o troco: só ajudo se me tratarem bem. Ah, e antecipado!”. Curiosidade: está prevista alguma votação sobre aumento de alíquota do IPMT nas próximas semanas?

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Se conselho fosse bom

O poder depende, em partes, de como os outros percebem você. As situações são ambíguas. Mesmo em circunstâncias extremas, você deve transmitir que está bem e com tudo sob controle. Já que a maioria das pessoas têm aversão ao conflito, é preciso atuar sempre como se fosse ganhar. Os aliados querem se associar a quem vai vencer no final e os inimigos precisam saber que haverá consequências se comprarem briga. Todos devem sentir, implicitamente, que você está disposto a ir além dos limites normais. Ter autodisciplina e maturidade emocional é também saber não criar tumultos ou inimigos desnecessários. Nunca se esqueça: a imagem cria a realidade. 

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Cifrada dos Menudos

Num reino onde a sombra do crime se estendia como névoa negra, três jovens cavaleiros da Guarda Real surgiram como faróis de esperança. Ricky, o Ágil, Miguel, o Perspicaz e Roy, o Sereno. Eram temidos pelos malfeitores e amados pelo povo. Suas façanhas ecoavam nas tavernas: desbarataram quadrilhas e desvendaram conspirações. 

Mas, como a lua cheia ilumina até os cantos mais vãos, ecos no castelo questionavam se não estavam passando do tom no rumo dos holofotes? O grande rei não gostava de exageros: “Honra não é espetáculo”. Moral da história: Quem veste a armadura deve protegê-la do orvalho da vaidade—antes que brilhe tanto que cegue a todos, inclusive a si mesmo. Sutileza é melhor. Usar uma marreta é um exagero.

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Foto do dia

Foi só para uma casta de convidados seletíssimos o lançamento no Piauí da Lide, tida como a maior organização de líderes empresariais da América Latina. O ex-governador de São Paulo João Doria e o governador Rafael Fonteles foram as estrelas, claro. Muita gente ficou sem entender nada do movimento. Nosso trabalho é explicar, leitor. 

“Lide é um negócio do Dória. O presidente do Lide no Piauí, Felipe Arraes, é sócio do Bruno Santos (vice-presidente do Lide Piauí), todos ligados ao Governo. E o Lide Justiça ficou com o advogado Lucimar Santos (também empresário e dono do restaurante “Carangas”), bem relacionado no Estado e na OAB-PI. Estão passando um recado de que o Piauí está preocupado com os empresários e preparado para receber qualquer tipo de empresa”, explicou ao boletim um presente no evento. Certo…

Puxando para nossa área, a política: a aproximação de Rafael com Dória o insere mais um centímetro na pauta nacional (centímetros formam metros, que formam quilômetros, etc). O Lide tem a nata do establishment financeiro, jurídico e político nacional, faz eventos fora do país com a presença de ministros do Supremo Tribunal Federal, por exemplo. O leitor ligou os pontos ou precisa de ajuda?

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A frase para pensar

“Julgo impossível descrever as coisas contemporâneas sem ofender a muitos”, Nicolau Maquiavel (1469-1527), filósofo e diplomata italiano.

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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