Centro de Zoonoses de Teresina abandonado: ratos sendo alimentados com ração de gato e servidores fazendo vaquinha para medicar animais

Sede do Centro de Zoonoses de Teresina (Foto: Arquivo pessoal)

As imagens falam por si. Uma parede descascada, portas de madeira carcomidas, móveis que um dia serviram a algum propósito público, deteriorados. O cenário é de um prédio em ruínas. Mas não se trata de um casarão abandonado antigo na cidade. É a sede do Centro de Zoonoses de Teresina, órgão responsável por conter doenças como raiva, leishmaniose, zika, chikungunya e dengue, essa última que ocasionou óbito na capital, confirmada há três dias.

O vestígio recente de cuidado é um grande portão azul, que separa o espaço do restante da cidade. A sede, localizada na zona Norte da capital, virou uma espécie de metáfora concreta da política de saúde ambiental da cidade: cercada, isolada, e empurrada para fora do debate público.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Um relatório interno, feito pela própria gestão para ser enviado ao prefeito Sílvio Mendes (União Brasil), ao qual a Todavia teve acesso, expõe o que as imagens, que foram registradas nessa última semana, não deixam esquecer: a unidade está em situação de abandono. O documento descreve com precisão cirúrgica as fragilidades estruturais e operacionais que hoje comprometem completamente a atuação do órgão.

A sede apresenta infiltrações, riscos estruturais e condições sanitárias inadequadas. Mais de 80% da frota está inoperante — inclusive a carrocinha, veículo para recolher animais doentes ou com suspeita de zoonoses. Os uniformes dos servidores não são renovados há mais de cinco anos.

O documento ainda aponta que, mesmo com o período chuvoso, tradicionalmente acompanhado do aumento de casos de dengue e outras arboviroses, a Gerência não recebeu qualquer plano de contingência por parte da Diretoria de Vigilância em Saúde (DVS). Há uma suspeita de subnotificação, sobretudo, em casos de dengue na cidade.

A Todavia conversou com profissionais do Centro de Zoonoses. Eles falam sob anonimato, temendo represálias, mas todos confirmam o mesmo: há um sentimento generalizado de desmotivação, abandono e descrédito. Eles apontam falta de ração adequada até para os camundongos de laboratório, que estariam sendo alimentados com ração para gato. Há vezes também em que, segundo os servidores, é preciso fazer vaquinhas para arrecadar dinheiro para comprar medicamentos para fazer a eutanásia nos animais.

FMS afirma tem plano de reestruturação para Zoonoses

Procurada pela apuração, em resposta, a Fundação Municipal de Saúde (FMS) se manifestou por meio de uma nota (Veja na integra ao final do boletim). A pasta, presidida pelo médico Charles da Silveira, informou que ao assumir a rede municipal em janeiro deste ano, encontrou um cenário delicado, com problemas estruturais, carência de insumos e desorganização administrativa.

Diante disso, Sílvio Mendes decretou estado de emergência na saúde, o que, segundo a gestão, permitiu o início de uma série de ações de curto, médio e longo prazo. A ideia, segundo a FMS, é reorganizar a rede com base em prioridades urgentes, incluindo a recuperação da Gerência de Zoonoses.

A nota reconhece que o prédio é antigo e que precisa de reforma e diz que um projeto de reestruturação estaria em curso. Também informa que a frota de veículos da unidade está sendo recuperada para retomar gradualmente as ações de campo. Em relação aos insumos, a FMS garante que não há falta de medicamentos ou ração, e que novos fardamentos estão com entrega prevista para logo após o feriado da Semana Santa, embora ainda sem data confirmada.

“Esclarecemos que a Gerência de Zoonoses é um órgão responsável por proteger os seres humanos contra Zoonoses, que são doenças transmitidas por animais. O trabalho realizado é diverso e envolve ações fundamentais para a saúde pública, sempre pautado pela ética e em conformidade com a legislação vigente, incluindo as normas do Ministério da Saúde”, destacou o texto.

“Corredor da morte”: eutanásias superam devoluções e doações, aponta estudo

O Centro de Zoonoses de Teresina é “apelidado” por protetores de animais e pessoas mais ligadas a causa animal como “corredor da morte”. Muitos veem o lugar mais como um centro de abates para animais que foram ou nasceram abandonados na rua do que um espaço pensado para combater zoonoses na capital piauiense. Ao longo dos anos as denúncias e casos considerados de maus-tratos tendem a se repetir, mas, sem nenhuma mudança efetiva se consolidar.

Cachorra é arrastada com corda no pescoço em Teresina (Foto: Reprodução)

Em 2019, um vídeo viralizou nas redes sociais. Nele, uma cadela sangra pela boca logo após ser capturada por uma equipe da Gerência de Zoonoses. Outros três cães aparecem com os focinhos amarrados por cordas. A cena gerou revolta.

A prefeitura, na época, se manifestou e disse ter atendido a um ofício enviado por uma empresa, que relatava ataques de cachorros contra funcionários. Por mais surreal que pareça, os quatro animais envolvidos no caso foram resgatados das mãos do poder público (que deveria cuidar deles), levados para um abrigo e, felizmente, pela repercussão das imagens, conseguiram uma disputada lista de adotantes.

Foto: Reprodução

Outro episódio emblemático envolveu um cão chamado Tufão. Retirado de dentro da casa do tutor, Hernande Costa, por suspeita de leishmaniose visceral canina (o calazar), o animal foi enviado ao Centro de Zoonoses com indicação de eutanásia. Hernande à imprensa que encontrou muita dificuldade e desorganização para reaver o amigo de quatro patas.

Mesmo disposto a arcar com o tratamento, precisou acionar advogados para garantir o direito de manter vivo o próprio cão. O caso ganhou visibilidade. O debate, mais uma vez, se reacendeu. E morreu logo depois.

A política da eutanásia como rotina — e não como exceção — foi registrada em números por um estudo conduzido por alunos da Universidade Federal do Piauí (UFPI), publicado na revista Arquivos de Ciências Veterinárias e Zoologia da UNIPAR. O levantamento analisou dados da própria Gerência de Zoonoses de Teresina e identificou que, em diversos períodos, o número de animais eutanasiados superava o de adoções ou devoluções.

O estudo acende o alerta sobre o uso de testes rápidos como critério único para o sacrifício de animais com suspeita de calazar, sem confirmação laboratorial por exames mais precisos. Ou seja, cães são eliminados com base em resultados que, sozinhos, não bastariam.

Protetores não concordam com gestão do Zoonoses (há muito tempo)

Em 2019, Raíssa Rocha, protetora de animais independente, subiu as escadas da prefeitura de Teresina com a esperança de que alguma coisa mudasse. Ao lado da veterinária Roseli Klein, da Apipa, foi recebida pelo então prefeito Firmino Filho. Levavam consigo não só a indignação dos protetores de animais, mas também propostas concretas.

Documentos com a recomendação de uma empresa especializada em capacitação de agentes, sugestões de como abordar tutores e capturar cães de forma não violenta, sem cordas, sem cortes, sem sangue. O gestor se comprometeu em realizar uma reestruturação no centro, no entanto, a medida não se concretizou.

Oriana Bezerra, ex-gerente do Centro de Zoonoses de Teresina (Foto: Divulgação/ FMS)

Na época, a gerente do Centro de Controle de Zoonoses de Teresina era Oriana Bezerra. Agora, em 2025, quando foi cotada novamente para assumir o cargo, diversas ONG de proteção de animais divulgaram uma carta aberta contra a possibilidade. Um documento criado contra a nomeação dela recebeu mais de 2 mil assinaturas.

“O Zoonoses era conhecido como corredor da morte justamente pela forma como tratavam os animais, todo animal que eles pegavam saiam na carrocinha como forma de contenção e de abate para diminuir a quantidade de animais na ruas e muitos animais morriam dessa forma. Em 2021, veio lei, que é federal e tem a estadual que é do deputado Fábio Novo e sancionada pelo governador no final do ano proibindo a eutanásia de animais saudáveis. Então, eles não podem ser capturados e muito menos abatidos. Essa lei respalda os animais agora”, contou a Raissa Protetora.

O movimento deu resultado. O presidente da FMS Charles da Silveira, anunciou em uma entrevista à Radio Meio News, que Oriana Bezerra desistiu de assumir a gestão. O médico também saiu em defesa dela: “A Oriana é uma profissional competente, séria, e ela seguia, à sua época, os protocolos do Ministério da Saúde, com relação à leishmaniose, que tinha que fazer o abate”, disse Charles.

Uma nota oficial de desagravo público emitida pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Piauí (CRMV-PI) também saiu em defesa, diante de críticas públicas feitas por ONGs e associações. Foi nomeado para o lugar dela o médico veterinário Joaquim Gomes.

“Políticos sempre vêm tirar fotos na eleição”, mas falta orçamento!

Em entrevista à Todavia Isabel Moura, fundadora e coordenadora da Associação Piauiense de Proteção e Amor aos Animais (Apipa), afirmou que é preciso incluir animais no Orçamento Público de Teresina. À frente da ONG há 18 anos ela já perdeu a conta de quantos animais chegaram com fome, fraturas ou medo. Os mais recente foram filhotes de cachorro deixados na frente da sede em baldes.

Ela contou que na avaliação dela, Teresina nunca teve políticas públicas voltadas para os animais por parte do Poder Municipal. Acrescentou também que o Governo do Estado iniciou uma ação voltada ao bem-estar animal, mas que ainda sim, não foi o bastante para sanar a demanda na cidade. Um castramóvel foi instituído para fazer cirurgias gratuitas em animais de pessoas em situação de vulnerabilidade.

A estrutura de um hospital veterinário também foi concluída em meados de novembro do ano passado. A compra de equipamentos e administração, no entanto, ficaria a cargo da prefeitura que, até o momento, não anunciou um futuro para o espaço.

Estrutura do prédio foi concluída, mas nunca usada (Foto: Divulgação/ Governo)

Isabel Moura fez um desabafo forte sobre o comportamento dos políticos que aparecem apenas em época de eleição para tirar fotos, prometer ações, mas que, “quando sentam à mesa”, não colocam a causa animal como prioridade. Ela denuncia o caráter imediatista e simbólico, que atua com discursos e visibilidade, mas não com planejamento e orçamento. Para ela, isso mantém a causa animal num estado crônico de abandono.

“Muitas vezes, os políticos vêm fazer foto na véspera das campanhas, mas, depois não vê, quando senta na mesa para a gente conversar não coloca na mesa o animal. Quando vai chegando a eleição aparece político aqui de tudo quanto é partido e jeito, cada um querendo fazer isso ou aquilo e fotos. É uma coisa imediatista, como é que vão fazer algo que não está nem no orçamento, não vai ter nunca e, assim, não vamos sair da estaca zero”, contou.

Equipe de protetores da Apipa (Foto: Reprodução/ portal R10)

O caso da Avenida Marechal: um depósito de gatos abandonados

A Avenida Marechal Castelo Branco, em Teresina, é exemplo extremo do abandono urbano em relação aos animais. Os animais, a maioria filhotes, são deixados à sombra dos poderes — a concentração de animais acontece perto da Câmara Municipal e Assembleia Legislativa —, no entanto, não há políticas públicas mínimas para enfrentar a situação.

Enquanto isso, perfis no Instagram como o do Gatinhos da Marechal tentam, sozinhos, fazer o que deveria ser missão do Estado: alimentar, tratar, castrar e — com sorte — doar para tutores responsáveis.

“A gente não sabe como vai ser o dia seguinte”: um perfil da causa animal em Teresina

Atualmente, segundo levantamento estimado, Teresina tem pelo menos 200 mil animais domiciliados, semi-domiciliados ou abandonados nas ruas e 500 protetores de animais independente. Os gastos estimados para um abrigo com alguma estrutura, com uma média de até 300 animais, são de R$ 50 a R$ 100 mil, incluindo a necessidade de funcionários qualificados e impostos. Além disso, existem gastos com as clinicas veterinárias, sendo as mais caras aquelas ortopédicas, o que pode custar de R$ 500 a R$ 2 mil por animal ferido.

Alguns protetores chegam ao ponto de que, para manter o bem-estar daqueles que já acolheram, para de aceitar novos bichos. Mas, mesmo aqueles que são independentes e, muitas vezes, usam a própria casa para abrigar os bichos, chegam a pegar ao menos 30 deles de uma vez só.  

“Muitas vezes a gente nem dorme, porque não sabe como vai ser no dia seguinte. As pessoas já ajudaram bem mais, na época da pandemia conseguimos muito, mas, de 2022 para 2023 caiu muito e do ano passado para cá muito mais. Sempre falta e por isso a gente acaba se sobrecarregando, ficam sem a vacina, pede emprestado, é um jogo de cintura muito difícil e não temos apoio de prefeitura e estado. Hoje vivemos com apoio da sociedade, que também está passando por dificuldades, muitas pessoas perderam seus empregos, estão sobrecarregadas de conta, o custo de cesta básica e remédios aumentou. Então, não podemos exigir ajuda. Hoje eu posto pouco pedidos de ajuda pois a gente se desgasta, a gente pede e ajuda não chega, tenho tentado viver mais a proteção ativamente do que ficar mostrando”, destacou Raíssa.

Raissa que é protetora de animais também foi candidata em 2024 pelo PDT (Foto: Reprodução)

Quem assumirá essa conta?

Segundo um levantamento do IBGE, Teresina tem mais gatos do que qualquer outro estado no país. A situação também é difícil com cachorros de rua. Mas, como apuração constatou, há pouco orçamento, pouco plano e menos ainda quem assuma publicamente essa conta. Enquanto isso, quem protege os animais carrega no colo não só os bichos, mas a ausência do Estado.

Veja nota da FMS na integra:

Nota de Esclarecimento

A Fundação Municipal de Saúde (FMS) informa que, ao assumir a rede de saúde em janeiro deste ano, encontrou um cenário crítico, marcado por problemas estruturais e organizacionais, além da falta de medicamentos e insumos essenciais. Diante dessa situação, o prefeito Sílvio Mendes decretou estado de emergência na saúde, medida amplamente divulgada à população. Desde então, foram implementados planos de ação de curto, médio e longo prazo, com foco nas prioridades mais urgentes.

Sobre a Gerência de Zoonoses, esclarecemos o seguinte:

-Estrutura Física: O prédio da Gerência de Zoonoses é antigo e necessita de reforma. Já existe um projeto de reestruturação em andamento.

-Veículos: A frota de veículos está em processo de recuperação para garantir maior eficiência no atendimento às demandas do setor.

-Insumos e Equipamentos: Destacamos que não há falta de medicamentos e rações. E os novos fardamentos estão previstos para entrega após o feriado da Semana Santa, com data exata a ser confirmada.

-Bem-Estar Animal: esclarecemos que a Gerência de Zoonoses é um órgão responsável por proteger os seres humanos contra Zoonoses, que são doenças transmitidas por animais. O trabalho realizado é diverso e envolve ações fundamentais para a saúde pública, sempre pautado pela ética e em conformidade com a legislação vigente, incluindo as normas do Ministério da Saúde.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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