“Não somos desocupados”: os bastidores de como perfis de fofoca movem conversas, reputações e influência em Teresina

Um dos perfis de fofoca mais antigos e com maior número de seguidores em Teresina nasceu, na verdade, como uma loja online. O nome foi uma estratégia comercial para atrair atenção em 2020, durante a pandemia. A Babados Teresina, seis anos depois acumula 138 mil seguidores e costuma publicar memes, fofocas, ou como chama “babados”, trechos de notícias de portais e assuntos curiosos. Geicieli Silva, dona da página, concordou em falar com a Todavia e autorizou que seu nome fosse citado na coluna, embora tenha preferido manter a própria imagem ainda em anonimato para o grande público.

“Eu dormi e acordei com 10, 15, 20 mil seguidores. Até então eu não conhecia blogueiro, eu não sabia de nada. Eu criei a página unicamente, estrategicamente, para ganhar seguidores. O que eu pensava era em dois mil seguidores. Aí as pessoas começaram a me perguntar de blogueiro tal, blogueiro isso, blogueiro aquilo e começaram a me mandar também um monte de fofocas”, relatou.

Postagens divulgadas na página Babados Teresina (Foto: Montagem/ Boletim Brio)

“Minhas fontes são meus seguidores”

Hoje, ela afirmou que suas principais fontes são os próprios seguidores e atribui a longevidade da página à credibilidade construída junto ao público. “Em todos esses anos eu nunca revelei uma fonte de informação minha”, disse. Nesse universo, seis anos é muito tempo, perfis costumam morrer quase tão rápido quanto surgem no complexo funcionamento do algoritmo do Instagram.

Para Geicieli, a fórmula de manter a página ativa por tanto tempo está na leitura correta da audiência. “Eu acho que o segredo é você conhecer o seu público, saber filtrar informação. Eu conheço o meu público, eu sei o que vai engajar e o que não vai. É difícil você manter”, disse.

Tem que saber filtrar, diz administradora

Ela também acrescentou que é importante escolher o tipo de público que se quer atrair. Na avaliação dela, páginas que apostam apenas em futilidades acabam reunindo seguidores interessados somente nesse tipo de conteúdo. Geicieli disse ainda que, ao longo dos anos, aprendeu a reforçar os filtros.

“Tem muita página nova aparecendo que elas não filtram, não vão atrás da informação. Eu não posto fake news. Sempre falo isso na minha página: você não vai ler fake news aqui, porque antes de postar aquela notícia, eu vou atrás. Eu pergunto às minhas fontes, eu vou atrás de quem vai me passar a verdade e busco saber o que realmente aconteceu”, declarou.

Questionada pela coluna sobre fofocas que envolvem assuntos mais sensíveis, ela disse que esse também é um filtro que costuma adotar. Segundo Geicieli, conteúdos que possam atingir de forma mais dura a vida privada de alguém tendem a ficar de fora. “Se eu sei que vai prejudicar outra pessoa, eu prefiro não postar”, afirmou.

“As pessoas nos procuram para resolver de tudo”

Mais acessíveis, presentes na DM e, muitas vezes, moderados por uma única ou duas pessoas, esses perfis acabam parecendo mais próximos do público do que grandes veículos. Nesse tipo de ecossistema, parte dos veículos tradicionais, ainda opera com uma comunicação de massa, onde são apenas emissores da mensagem nas redes. Já os “fofoqueiros de plantão” se apresentam como peças dentro da própria circulação da informação. Eles recebem a informação, conversam com o público, decidem o que soltar, o que cifrar e o que segurar e muitas vezes conseguem trazer a público informações que teriam uma dificuldade maior de sair de uma redação tanto por questões econômicas, quanto editoriais de grandes veículos.

“As pessoas acham que a gente consegue resolver tudo da cidade. ‘Ah, eu peguei o Uber que ele sumiu com minhas coisas, expõe bem esse ladrão.’ Gente, eu não posso fazer isso. Como é que eu vou falar que o cara roubou um celular. E ela esqueceu? Como é que eu vou dizer? ‘Ah, esse aqui tá me devendo, eu emprestei mil reais, expõe esse caloteiro.’ Eu não posso, é melhor procurar a polícia. ‘Ah, a minha vizinha tá tendo um caso com outro homem que é casado com uma fulana.’ Eu não posso postar isso, não são pessoas públicas. Não vou postar, eu não tenho como provar, não tenho como fazer isso”, detalhou algumas informações que chegam e são filtradas.

Grandes páginas de fofoca de Teresina chegam a reunir de 130 a mais de 200 mil seguidores (Foto: montagem/ Boletim Brio)

Páginas de fofoca em Teresina tem CNPJ e faturam até R$ 10 mil: “Não somos desocupados”

Um administrador de perfil ouvido pela Todavia, que atua nesse universo, afirmou que uma página de fofoca ou de notícias no Instagram pode faturar entre R$ 8 mil e R$ 10 mil com publicidades. Segundo o relato, empresários, empresas e até agentes públicos costumam procurar esse tipo de perfil para divulgar ações, serviços, campanhas e iniciativas institucionais.

O blogueiro que pediu reserva de seu nome também rebateu um estereótipo recorrente sobre os administradores dessas páginas. “Nós não somos desocupados”, frisou. Segundo essa pessoa, muitos dos nomes por trás dos perfis mais conhecidos têm graduação, trabalho formal, família constituída e uma rotina de responsabilidades que passa longe da caricatura de alguém que vive apenas de internet e fofoca.

Medo de falar de políticos e o cuidado com fofoca em “cidade pequena”

Segundo um entrevistado ouvido, em seu nicho de fofocas, as postagens que tem mais visualizações são aquelas que envolvem acusações de traições, reclamações sobre serviços de lojas, tretas familiares, relacionamentos que começaram ou terminaram e até cortes de cabelo malfeitos.

Em Teresina, a Todavia apurou que há uma particularidade que difere de grandes perfis que atuam em São Paulo, Brasília ou nacionalmente, por exemplo. Embora seja uma capital, Teresina ainda opera sob a lógica de cidade pequena. Como a cidade é menor, as pessoas se conhecem, os vínculos são próximos e qualquer postagem pode voltar diretamente para quem publicou.

Uma das pessoas entrevistadas informou que existem muitas fofocas que sequer chegam a circular, justamente por passarem por um filtro informal. Isso vale, por exemplo, para bastidores da vida privada de políticos, que costumam ser tratados com mais receio. “As pessoas não gostam muito de entrar nessa área por um certo medo”, resumiu o blogueiro ouvido. “Eu já tive vereador para me ameaçar. Já tive de tudo. Mas é normal. A gente sabe que não vai chegar às vias de fato, né? Mas pode existir alguma retaliação”, frisou a fonte em reserva.

Câmara Municipal e Assembleia Legislativa do Piauí (Montagem/ Boletim Brio)

Quando a fofoca passa pela apuração jornalística

A Todavia conversou também com o jornalista Carlos Gaeth, com passagens pela editoria de entretenimento da Rede Meio Norte, da Antena 10 e hoje na IelTV. Gaeth contou à coluna que, no começo da carreira, imaginava seguir por outro caminho. Queria trabalhar com jornalismo político. Mas acabou entrando no entretenimento por incentivo do apresentador Ieldyson Vasconcelos, que o levou para esse universo e ajudou a construir o personagem que o público passaria a reconhecer.

“Pra te contar um pouco sobre a experiência, eu tive que fazer terapia com psicólogo e tudo pra eu aceitar, porque na época eu havia planejado ser jornalista político. Então pra eu aceitar foi uma dificuldade, já que dentro da universidade você não é incentivado, ninguém fala do assunto entretenimento de fato de verdade, sendo que é um mercado multimilionário, né? Em todo sentido, música, entretenimento, fofoca também”, contou.

A coluna quis saber também como funciona a apuração de um jornalista formado dentro de um veículo com presença nas redes, nesse tipo de cobertura. Gaeth explicou que, na prática dele, a diferença está justamente na checagem. Em termos jornalísticos, apurar significa pegar uma informação inicial, ligar para as pessoas envolvidas, confrontar o que foi dito, buscar elementos concretos e só então decidir o que é comprovado ou não para ser publicado. É um processo que muita gente não vê quando consome esse conteúdo, mas que separa uma informação minimamente verificada de uma postagem feita apenas para viralizar.

“O lado diferente, por exemplo, da rotina de uma página de fofoca, que não é conduzida por um jornalista, é que aqui a gente liga para as pessoas. Aconteceu isso e a gente vai cruzar. Às vezes, as pessoas se xingam. Eu vou atrás de uma informação que o fulano disse isso de você. Aí essa pessoa já xinga a outra, então aquilo ali já vai virando uma pauta, vai virando um conteúdo. Mas a gente vai atrás e a gente traz aquilo que de fato está acontecendo, não só uma especulação”, relatou.

Carlos Gaeth (Foto: reprodução/ Redes sociais)

Esse ponto ganhou ainda mais peso depois do caso envolvendo a página Choquei e a jovem Jéssica Canedo, que tirou a própria vida, após receber inúmeros ataques nas redes sociais. Em dezembro de 2023, a página admitiu ter divulgado conteúdo falso sobre um suposto relacionamento entre ela e humorista piauiense Whindersson Nunes. Meses depois, a Polícia Civil de Minas Gerais concluiu que a própria jovem havia criado e enviado prints falsos a páginas de fofoca, mas também apontou que ela foi alvo de ataques virtuais e que houve investigação sobre mensagens que a incentivavam a se ferir. O caso expôs, nacionalmente, como a lógica de publicação acelerada, sem filtros suficientes, ou qualquer apuração, pode ampliar danos graves à vida de uma pessoa.

No fim da conversa, a coluna perguntou qual conselho ele daria para quem trabalha ou pretende trabalhar com esse tipo de informação. “Primeiro, é responsabilidade. Jornalista é diferente. A gente tem que sempre trazer essa diferença. Checagem, nunca deixar disso, porque às vezes a pessoa vai simplesmente contestar a informação, e a checagem é super importante para você não cair no descrédito. E o outro contato também é com a honra das pessoas, até que ponto as limitações éticas permitem a gente observar dessas coisas”, afirmou.

Outra frente no Instagram: os perfis de humor político

Se os perfis de fofoca e entretenimento mobilizam milhares de curtidas e os nervos dos personagens envolvidos, outra vertente que ganhou força no Instagram em Teresina é a dos perfis de humor político. Na plataforma, essas páginas, assim como as fofocas que expõem a vida alheia, também movimentam temas que atravessam a opinião pública e influenciam a imagem de gestões, figuras e grupos políticos.

Para falar sobre esse universo que traduz a complexidade das disputas políticas em memes, a Todavia conversou com Xavier Neto, administrador da página Terehell. Ele contou que o perfil nasceu de uma dissidência editorial do antigo Teresina Comedy News e ganhou força sobretudo a partir de 2020, quando viralizou com a série Histórias Teresinenses, em que relatos enviados pelo público eram transformados em animações e conteúdos de humor regional.

Segundo Xavier, o projeto permanece fortemente ancorado na realidade local. “A gente adapta muito conteúdo nacional, muita coisa que funciona, para a realidade teresinense, mas sempre focando só em Teresina. Você vê, os conteúdos são só sobre Teresina e, às vezes, também foge um pouco assim para o Piauí, mas a base é Teresina”, afirmou.

Para o administrador da página, o Terehell prioriza conteúdos mais amplos, que já estejam circulando publicamente e evita postagens que possam atingir pessoas sem grande projeção pública. “Quando uma coisa que é notória e tá todo mundo falando, a gente vai e tem que falar desse conteúdo em forma de meme”, destacou.

O cuidado também passa, em alguns casos, por pedir autorização antes de transformar alguém em personagem de meme. “Às vezes, até quando a gente quer falar de alguém específico ou alguma coisa, a gente geralmente ainda pede até autorização para fazer”, relatou. Ele também afirmou que o alcance da página, que tem 220 mil seguidores, fez aumentar a responsabilidade com aquilo que é publicado. “Tudo que a gente for falar tem que ter muito cuidado, porque sempre repercute muito”, disse.

Xavier Neto com as cantoras Luísa Sonza e Simone (Foto: reprodução/ redes sociais)

Advogada avalia limite jurídico entre crítica, humor e abuso

A advogada Ana Raphaela, mestranda em Ciência Política e pesquisadora de temas que relacionam redes sociais e Direito, avalia que os perfis de fofoca, humor e sátira política ocupam hoje um espaço legítimo no ambiente digital brasileiro.

“Do ponto de vista jurídico, esses perfis exercem um papel legítimo e constitucionalmente protegido. A liberdade de expressão é garantida pela Constituição Federal, mas não se limita ao discurso formal ou institucional, abrangendo também o humor, a ironia e a crítica política. Historicamente, a sátira sempre funcionou como instrumento de controle e crítica social do poder, desde os pasquins do século XIX aos memes atuais”, afirmou.

Ana Raphaela pondera, no entanto, que existe uma diferença importante entre a imprensa profissional e os perfis de entretenimento que circulam nas redes. “Esses perfis não recebem exatamente o mesmo tratamento jurídico que a imprensa profissional. Um veículo jornalístico opera sob um código de ética e que deve cumprir padrões editoriais e de verificação de fontes, opera sob proteção mais robusta. Perfis de entretenimento puro são analisados sob a ótica da responsabilidade civil comum e dos direitos da personalidade, o que não os torna ilegítimos, mas impõe regras diferentes”, explicou.

Advogada Ana Rafaela (Foto enviada ao Boletim Brio)

Ao tratar das figuras públicas, a pesquisadora ressalta que a jurisprudência brasileira admite um nível mais intenso de crítica, especialmente quando se trata de agentes políticos, gestores e personagens com atuação pública. Isso significa que essas pessoas estão sujeitas a maior escrutínio e podem, inclusive, ser alvo de críticas mais duras, sátiras e humor, desde que o conteúdo esteja ligado a fatos e condutas de interesse coletivo.  Segundo Ana Raphaela, a condição de notoriedade não elimina proteções legais quando o assunto envolve intimidade, dados pessoais e informações sensíveis sem interesse público comprovado.

“Nesse contexto, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) também incide diretamente sobre esses perfis, o que ainda é frequentemente negligenciado na prática. Mesmo quando se trata de figuras públicas, o tratamento de dados pessoais exige base legal adequada e finalidade legítima, nos termos da legislação. A condição de pessoa pública não autoriza a exposição irrestrita de qualquer informação. A divulgação de dados sensíveis, como condições de saúde, informações familiares ou conteúdos que não tenham sido tornados públicos pelo próprio titular, pode configurar violação à LGPD e ensejar responsabilização civil”, afirmou.

Na avaliação dela, a fronteira jurídica entre liberdade de expressão e violação de direitos passa justamente pelo abuso: “Do lado dos deveres, o STJ consolidou três pilares fundamentais para quem comenta fatos de terceiros: o dever de veracidade, realizar uma verificação mínima sobre o que está sendo afirmado; o dever de pertinência, garantir que a informação seja relevante para o debate público, evitando o sensacionalismo gratuito; e o dever geral de cuidado, evitar expressões cujo único objetivo seja humilhar ou desqualificar a dignidade de alguém, desvinculadas de qualquer crítica à função pública exercida”, pontuou.

Na prática, apuração chegou ao ponto do que diverte, o que viraliza e o que expõe. O mundo da fofoca no Piauí é uma mistura de praça pública digital, rede de bastidores e termômetro moral da cidade. O universo da fofoca em Teresina não é homogêneo, que há filtros, interesses, medo, checagem em alguns casos e risco de abuso em outros.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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