“Pedir para que um paciente com obesidade emagreça somente com treino e dieta, é o mesmo que pedir para um paciente que tomou um tiro pare de sangrar. Não adianta”, a declaração é do médico nutrólogo Rhuan Serra, especialista em emagrecimento e profissional bastante procurado em Teresina.
Em tempos de Instagram, dailys – formatos de perfis voltados para postar a rotina, das fotos profissionais de corredores amadores nas avenidas e do crescimento do mercado fitness, vive-se um boom de novas ferramentas e métodos para o emagrecimento, incluindo medicamentos mais eficientes.
O que – frequentemente- os criadores de conteúdo não postam? O que está por trás das fotos e dos resultados que despertam inspiração e até inveja num mundo com tantos haters? O que permanece inalterado e dando certo transcendendo épocas e modas? A Coluna Ápice traz para você um panorama do que os teresinenses andam fazendo para emagrecer. Os tratamentos variam entre R$400 até R$10 mil.
30 KGS A MENOS EM SETE MESES

A micropigmentadora e designer de sobrancelhas vivia um processo muito doloroso com a obesidade. Por recomendação médica, utilizou um remédio emagrecedor e iniciou um processo de mudança de hábitos que resultou em 30 kg perdidos na balança em sete meses de tratamento.
“O que foi mais difícil foi ter que lidar com os altos e baixos emocionais porque não envolve apenas o físico, mas a mudança de mentalidade. Houve momentos de muito desamino. Aprender a respeitar meus limites foi um grande desafio. O medicamento me ajudou muito a controlar a ansiedade e o apetite, onde facilitou a mudança dos meus hábitos alimentares. Acho que foi um conjunto de gastos, exames, medicamentos, alimentação, mas cada centavo que eu gastei valeu muito a pena. Falo que nem foi gasto foi investimento porque eu não estava apenas mudando o meu corpo, eu estava me salvando”, afirmou Thayanne Rodrigues.
O MITO DO GORDO PREGUIÇOSO
É um estereótipo enraizado na cultura acreditar que uma pessoa com obesidade é “preguiçosa” ou que “falta disciplina” e uma série de outras categorizações rasas que tornam esse processo frustrante para quem vive.
“A obesidade nem sempre é uma coisa que o paciente consiga resolver por conta própria. Por isso, o uso da terapia medicamentosa é tão importante. A gente cansou de ver várias e várias pessoas sendo frustradas nesses processos de protocolo de emagrecimento, de dieta cetogênica, de dieta intermitente, dieta da maçã, dieta daquilo, porque não houve uma estruturação nesse processo de emagrecimento e não houve o tratamento dessas distinções metabólicas, que a principal delas é a resistência insulínica”, analisou o médico Rhuan Serra.

Ou mesmo agora, com o crescimento na adesão de emagrecedores como Mounjaro, Wegovy e Ozempic, nasce um outro tipo de crítica associada a um certo “demérito” pela conquista do emagrecimento através da via medicamentosa.
“Tive um paciente que já tinha feito duas cirurgias bariátricas. Fez todo tipo de dieta maluca que você imagina até chupar gelo para emagrecer e depois ainda teve reganho. Ele estava ali frente a um caso que ele teve dois episódios de reganho depois de duas cirurgias e depois de ter tentado de tudo. A gente fez com que ele perdesse 56 quilos em sete meses e hoje ele se manteve estável depois do tratamento com a tirzepatida, que é a Mounjaro, foi um dos casos mais bonitos porque ele mesmo já estava já tinha desistido de fazer o tratamento, já tinha entregue a vida dele para Deus”, relembrou Rhuan Serra.
QUANTO CUSTAM OS MEDICAMENTOS?
As “canetas” emagrecedoras, tecnicamente chamadas de análogas de GLP-1, que são as mais modernas, Ozempic, o Wegovy e Mounjaro, têm mostrado uma eficácia maior nos tratamentos. A partir disso, criou-se uma disputa entre as empresas sobre quem fabrica a medicação com a maior eficácia.
“A Wegovy, por exemplo, que é a semaglutida, que é a medicação aprovada para a obesidade, hoje ela custa mil reais na farmácia. A tirzepatida, que é a Mounjaro, ainda não foi comercializado ainda oficialmente no Brasil. As pessoas estão comprando de origens extremamente duvidosas, a gente não sabe a eficácia, a gente não sabe a procedência. Vai chegar no Brasil a Mounjaro, por cerca de R$1700, segundo alguns representantes. No início do tratamento, geralmente a Wegovy, ela dura dois meses, mas esse valor na manutenção do tratamento é mensal”, afirmou Rhuan Serra.
TRATAMENTO INTRAVENOSO E INTRAMUSCULAR
O nutricionista Marcelo Teixeira conta que as terapias envolvidas no processo de emagrecimento aceleram resultados, mas defende que não substituem o “feijão com arroz”, e são coadjuvantes.
“Nós temos também algumas terapias que podem ajudar no processo. Mas elas não são os atores principais, são coadjuvantes no processo de emagrecimento. A gente têm algumas opções de soroterapia, de alguns suplementos que são utilizados também durante essa fase de emagrecimento, mas deixando sempre, sempre claro que esses protocolos, essas suplementações, seja por intravenosa, seja via oral, são coadjuvantes nesse processo. Realmente evoluiu muito e são cada vez mais específicas, mais personalizadas. Então, com base nos exames você pode prescrever uma suplementação tanto intravenosa como também intramuscular ou oral bem específica para o paciente, para as demandas que ele tem e para as deficiências que ele apresenta”, narrou Marcelo Teixeira.

TECNOLOGIA INVESTIDA NO DIAGNÓSTICO
O médico cardiologista e do esporte, Fernando Giordano, explica que existem diversos protocolos ofertados no mercado teresinense, que podem variar em média de três meses a um ano. Todos eles, individualizados, com base no estilo de vida e comorbidades do paciente.
“Existem exames que ajudam muito no processo de emagrecimento. A bioimpedancia é fundamental para avaliarmos a composição corporal (percentual de músculo e gordura) afinal, para emagrecer saudável, visamos em perder principalmente gordura e a balança comum não identifica isso, apenas o peso. Existe também o exame padrão ouro para avaliar o nosso metabolismo e o quanto de calorias estamos gastando no dia, que é a Calorimetria Indireta. Além disso, temos também a ergoespirometria, que conseguimos mensurar durante a atividade física como está nosso metabolismo e gasto de calorias durante a prática de atividade física”, contou o médico Fernando Giordano.

“DISPOSTOS A FAZER QUALQUER COISA“
O nutricionista André Teles trabalha há mais de dez anos com processos de emagrecimento. De lá para cá, foram cerca de oito mil pacientes atendidos e tem identificado mais recursos tecnológicos agregados à queima calórica, como máquinas que potencializam exercícios cardiovasculares, e de avaliação na composição corporal.
“Sobre situação mais inusitada, eu diria que aqui a gente já teve de tudo, pode ter certeza que a gente já escutou de todo tipo de proposta. Inclusive, uma coisa que acontece com muita frequência é exatamente isso, os pacientes dispostos a fazer qualquer coisa que eu mandar, o que eu disser em busca desse emagrecimento. E aí, na verdade, a nossa conduta acaba sendo um pouco diferente, em vez de eu pedir coisas extremamente restritas ou fora do comum, a gente acaba trabalhando a conscientização desse paciente para ele entender melhor como que os processos funcionam e o que de fato vale a pena ele fazer”, relatou André Teles.

PACIENTES IMPACIENTES E ADEPTOS ÀS MODAS
André Teles pontua que o comportamento dos pacientes até melhorou, mas que grande parte ainda busca esse emagrecimento realmente mais rápido e são adeptos às dietas da moda.
“Esses protocolos da moda têm cada vez mais impactado nessa procura desenfreada pelo emagrecimento urgente, digamos assim, mas confesso que alguns já estão com grau de consciência bem maior e bem mais elevado no sentido de entender que realmente é um processo de longo prazo. Querendo ou não, as mídias sociais, apesar de trazer esses protocolos da moda, que nem sempre são as melhores escolhas, mas também têm muitos profissionais trabalhando a conscientização do público”, ponderou o nutricionista.
PERIGO: ACREDITAR EM MILAGRE E EM APROVEITADORES
Em todas as áreas da saúde – e da vida – surgem os aproveitadores vendendo falsas promessas, sejam medicações falsas ou suplementos que não funcionam ou que não têm respaldo científico.
“A gente nota que as pessoas não são tão empenhadas em realmente entender o processo do emagrecimento, entender que é um processo de médio prazo ou até de longo prazo e trocam tudo isso por pílulas, por remédios que eles acham milagrosos”, relatou Marcelo Teixeira.
O risco de complicações graves é outro assunto pouco falado quando se trata de optar pela via medicamentosa. “Na prática clínica, alguns pacientes são mais suscetíveis a ter complicações. Pacientes que podem ter pancreatite, pacientes que podem ter alguma outra, uma colangite aguda, por conta do uso inadequado. E também, não é pra todo mundo o uso dessas terapias. Por isso que a consulta médica é importante, ela vai fazer essa decisão de tomar ou não, de fazer ajustes e adequações”, alertou o médico Rhuan Serra.
REALIDADE RECORTADA
O Brasil saiu de um indicador de 4%, em 2019, da população brasileira adepta ao exercício físico. Esses tempos pós-pandemia fez com que o país chegasse a 7,5%, segundo uma pesquisa da Universidade de São Paulo com os critérios do American College of Sports Medicine, que são 150 minutos semanais de atividade física aeróbica de intensidade moderada ou 75 minutos semanais de atividade física aeróbica de intensidade vigorosa.
O que ainda é um número extremamente baixo. Ainda que o aumento seja notável comparativamente aos frequentadores de academias de musculação e corredores de rua amadores, a conferir no crescente número de pessoas se exercitando em avenidas como a Raul Lopes e Marechal Castelo Branco, na zona Leste e Centro/Norte de Teresina, respectivamente.

“O que a gente vê, basicamente, nas redes sociais, são as pessoas que têm um poder aquisitivo de médio para elevado. Então, a gente não vê a grande realidade do Brasil. A grande realidade do Brasil, ela é destruidora. A gente está aumentando o índice de obesidade de uma forma assustadora. E junto com elas, várias doenças crônicas, diabetes, câncer, doenças metabólicas, que é esteatose hepática (gordura no fígado), entre várias outras. Hoje, a obesidade é a maior causa de câncer no Brasil”, declarou Rhuan Serra.
Os tempos da modernidade líquida, da ode à aparência, da comparação e consumo massivo das formas de viver via redes sociais, têm provocado consequências diversas na saúde mental humana. A amplitude das ferramentas, a transparência dos métodos, dos valores investidos e facilitadores na busca pela saúde nem sempre são expostos. Há mérito sempre, quando a alternativa é a busca pelo autoaperfeiçoamento. Mas há também evidências de quem nem todos encaram o mesmo problema, olhando o “prisma” do mesmo lugar.



