“Eu sou uma carioca, morando em Teresina e que não quero ir embora por nada”. A frase resume o sentimento da enfermeira Gabriela Detrano, que deixou a vida no Rio de Janeiro para começar uma nova trajetória no Piauí. A escolha, que muitos poderiam imaginar ter sido motivada por trabalho, teve outra origem: o casamento com o filho de um piauiense e o encantamento pela cidade. Em seu perfil no TikTok, ela narra as vantagens de morar na capital do Piauí, recebe o apoio de muitos e a crítica de muitos outros também. Pelo seu posicionamento “incomum”, os vídeos já somam algumas centenas de milhares de visualizações.

Os temas são variados. O calor intenso da capital, por exemplo, não foi motivo de lamentação. Pelo contrário, Gabriela afirma que entende a natureza e aprendeu a ver beleza nas peculiaridades locais. Entre os pontos que destaca em sua facilidade na adaptação, estão a hospitalidade da população, o ar puro, a riqueza cultural e a tranquilidade para criar filhos. “Teresina é um céu comparada à violência que a gente tem em outros lugares”, diz.
Gabriela também se deixou conquistar pela gastronomia. Ela se diverte ao contar das descobertas: o cuscuz de milho, o arrumadinho e até a popular bomba, um salgado típico das lanchonetes locais. Para ela, festivais gastronômicos como o “Maria Isabel” evidenciam “a grandiosidade da cultura que a gente tem aqui”. Nas redes sociais, é comum que internautas questionem aspectos da vida em Teresina, levantando dúvidas como “que qualidade de vida você tem aí?”. E ela responde de forma direta: “De que me vale ter tanta coisa no Rio se eu não tinha o principal? Tranquilidade, paz, poder de compra, qualidade de vida”.
NÃO É UMA QUESTÃO DE DETESTAR O RJ
“Se eu detesto o Rio de Janeiro? Jamais. Seria muita ingratidão da minha parte desgostar ou odiar um local onde eu nasci, vivi, cresci, me desenvolvi profissionalmente e que, inclusive, é a maior bagagem profissional que eu tenho até os dias de hoje. Dizer que eu não suporto esse lugar seria muita ingratidão”, pontuou Gabriela Detrano.
A coluna tentou contato com a tiktoker para uma entrevista, mas não teve a mensagem respondida. Um ponto que chama atenção são os comentários críticos que surgem nas postagens e são feitos pelos próprios piauienses.

Apesar disso, Gabriela destaca que, inclusive, um dos motivos que a leva a gostar mais de Teresina são os moradores calmos, pacíficos e que carregam uma fé notável, o que contribui para uma atmosfera positiva na cidade.
“Gente, eu adoro a população daqui. As pessoas são muito calmas, pacíficas. Eu acredito que seja por questões religiosas, de religiosidade, né? Porque a cidade em si é uma cidade bem religiosa. Não estou isolando religião, estou falando de espiritualidade mesmo. As pessoas aqui carregam uma fé muito grande no que elas querem, no que elas gostam. Então isso traz uma egrégora muito positiva para a cidade, que eu acho que tem crescido bastante”, destacou a enfermeira carioca no TikTok.

Apesar de sentir falta da vida com comércio aberto 24 horas do Rio, Gabriela garante que não retornaria à capital fluminense. “Eu sinto falta da facilidade de 24 horas. Isso eu sinto muita falta. Porque no Rio tudo funciona o tempo inteiro. E se eu voltaria a morar lá? Não. Não voltaria a morar no Rio de Janeiro, não. Nem se fosse no interior do estado. Não voltaria a morar no Rio. Foi bom naquele momento, naquele estado de espírito da minha vida. Mas hoje, não mais. Hoje eu prefiro ficar quietinha aqui em Teresina”, narrou Gabriela Detrano.
Se você acha que esse é um caso isolado, encontramos mais um piauiense para dizer que não.
EX-ATOR DA GLOBO TORNOU-SE PIAUIENSE DE CORAÇÃO E POR ESCOLHA
Bruno Gradim, ex-ator da Rede Globo e carioca de nascimento, encontrou no Piauí não apenas um destino temporário, mas um lugar para viver e investir em projetos culturais. Em 2011, ele veio a Teresina para um curso de interpretação de teatro e TV e ficou impressionado com a riqueza cultural do estado, que, segundo ele, não tinha a visibilidade nacional que merecia.

“Em 2011, eu tive a oportunidade de ficar aqui uma semana, num curso de interpretação para teatro e TV. E ali eu consegui conhecer um pouco mais do Piauí, entender o que era esse lugar, sabe? Fiquei muito intrigado com o fato de um lugar tão poderoso, com tanta riqueza, não ter tanta expressão nacional”, conta o ator e diretor de projetos culturais.
Ele lembra ainda que parques nacionais e atrações naturais, como a Serra da Capivara, Sete Cidades e o Delta do Parnaíba, eram pouco reconhecidos. “Como é que esses lugares, que hoje estão mais em evidência, mas lá em 2011, 2012 não tinham essa expressividade, não eram reconhecidos? Quando fizeram uma novela aqui, por exemplo, foi mais para fazer chacota de uma das personagens que vinha do Piauí.”
A VALORIZAÇÃO LOCAL PELO OLHAR QUE VEM DE FORA
Motivado a valorizar a cultura piauiense, Bruno idealizou o projeto Cajuína Carioca, que conectava a cultura do Rio de Janeiro com o Piauí. Entre 2012 e 2015, ele desenvolveu o projeto, tornando o Piauí sua morada temporária, e retornou em 2022 para criar o Encantos do Piauí, um documentário em fase de montagem que percorre os principais cenários naturais e culturais do estado.
Bruno observa que um dos aspectos que mais o encantou foi o respeito aos mais velhos, traços culturais e da tradição que tantas vezes nem sequer são percebidos. “Tem uma coisa que me chama muita atenção, que é o valor da referência aos mais velhos em vários lugares. Quantas vezes eu vejo famílias em que as pessoas se cumprimentam com beijo na mão, pedindo a bênção. Isso é muito forte: a reverência pelo ancestral, pelo mais velho, por aquele que veio antes. Eu acho que esse combo de coisas foi o que mais me impactou”.
“O PIAUÍ NÃO FOI O QUE ME SOBROU”

Apesar de sua paixão pelo Piauí, Bruno admite que, por vezes, sente estranheza em relação a algumas reações de moradores: “Uma das coisas que mais me incomoda aqui são pessoas que olham para mim como se eu não tivesse escolha para estar aqui. Como se, tipo, ‘ah, o que ele está fazendo aqui? Tá aqui porque?’ É como se fosse o que tivesse me sobrado, e não o que fosse a minha escolha. E eu deixo muito claro: o Piauí é uma escolha. Eu, graças a Deus, poderia estar em qualquer lugar”.
Além da atuação cultural, Bruno também foi responsável por trazer a série Milagres de Jesus, da Record TV, para o estado, apresentando à direção da emissora locações que serviram de cenário para a produção. Ele ressalta que a riqueza natural do Piauí é uma oportunidade estratégica: “Porque o que é melhor é o que está em Fortaleza, ou em São Paulo, ou em outro lugar? Aqui vocês têm um dos estados mais poderosos e ricos desse país, com belezas incríveis e situações culturais fortíssimas.”
Bruno Gradim considera que, acima de tudo, o que o mantém no estado é a gratidão pelo que vivencia. “Hoje tenho muita gente que vem falar comigo, que viu algo do Piauí e me envia mensagens, ou que vai fazer uma viagem para cá e me procura. Isso é muito importante. Sinto que hoje já existe a colheita disso: pessoas que vêm ao Piauí por coisas que estão ganhando o cenário nacional, e quando chegam aqui, conversam comigo. Isso, pra mim, é uma das maiores alegrias e o que há de mais gratificante na minha vivência”.
O QUE EXPLICA A POSTURA ARISCA DOS PIAUIENSES COM A PRÓPRIA TERRA?
A antropóloga Mariane Pisani, professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), questionada pelo Boletim Brio reforça o ponto de vista sobre a valorização externa do estado. “Isso tem a ver tanto com processos históricos de estigmatização regional quanto com o que o sociólogo Pierre Bourdieu chamaria de ‘violência simbólica’: a internalização de visões negativas impostas de fora, que acabam levando as pessoas a falarem mal de si mesmas e de suas origens”, explicou.

Segundo Mariane, fortalecer espaços de memória e investir em turismo são estratégias importantes para resgatar o orgulho piauiense. “O turismo, quando bem conduzido, devolve à população o valor simbólico de seus próprios territórios e ajuda a ressignificar a identidade local. É preciso investir em campanhas públicas e educativas que enfatizem a diversidade cultural, artística e social do povo piauiense”.
Do ponto de vista antropológico, esse movimento pode ser lido como uma tensão entre identidade e reconhecimento. O piauiense busca ser reconhecido em um cenário nacional que, historicamente, pouco valorizou o estado. Quando alguém de fora enaltece Teresina ou o Piauí, isso provoca reações ambivalentes: orgulho, mas também desconfiança, já que localmente muitas vezes falta esse mesmo reconhecimento.
“Por isso, considero fundamental que o poder público invista mais nos espaços de memória, museus, arquivos, centros culturais e em políticas de reconstrução e valorização da história e da identidade local. Esses lugares não apenas preservam, mas produzem orgulho coletivo e sentido de pertencimento. Também é preciso pensar no turismo como um eixo estratégico. Se o estado investir em infraestrutura turística, roteiros culturais e divulgação qualificada de seus atrativos naturais e urbanos, criará não apenas oportunidades econômicas, mas também uma nova forma de os piauienses se enxergarem”, analisou a professora da UFPI.
Gabriela Detrano e Bruno Gradim, que trocaram a vida carioca pela experiência piauiense, mostram como a conexão com o estado vai além da geografia: envolve cultura, pessoas e identidade. Para eles, o Piauí é mais do que um lugar de passagem, é um lar escolhido, apreciado e valorizado. Cabe a reflexão aos piauienses sobre esse olhar de encantamento que, muitas vezes, nos faltou e por que nos faltou, dentro da experiência individual de cada um. Sempre é tempo.





