Presenças, ausências e os bastidores do churrasco de Ciro com os vereadores de Teresina
“Cheguei e tavam lá. Ciro (Nogueira, senador do PP) mandou o cantor parar de cantar e disse que era só pra receber os amigos em casa e não uma reunião política. Não sei que diabo de amigo é esse que só a visita a casa do outro de quatro em quatro anos!”, relatou, em reserva ao boletim, um bem-humorado e super sincero vereador presente no jantar oferecido por Ciro Nogueira aos vereadores de Teresina no final de semana.
Uma abelhinha da coluna esteve no churrasco, disfarçada, é claro, e relata os fatos e versões para livre apreciação do leitor. Servidos?

_______________
Uma questão numérica
A coluna pediu a um parlamentar a lista de vereadores presentes (compareceram 13 e não os 25 que os ciristas contam como votantes de Ciro na Câmara de Teresina. As ausências serão explicadas mais abaixo, leia a sequência): “Nenhum do PT, já era normal, esperado. E tem uns que são insignificantes que na hora a gente nem lembra!”, comentou o parlamentar que não é tão fã assim dos colegas, como se nota.
_______________
Quem falou e quem faltou falar
Já outro (a) parlamentar aproveitou e improvisou um discurso para Ciro e os “amigos”, para martírio dos pares. Tema? “Aquelas babações que só ele (a) sabe fazer”, resumiu um colega. Mais algum coisa? “Achei ruim o Sílvio Mendes não ter falado e achei que ia mais gente também. Jeová (Alencar) também tava lá e não discursou”. O povo tem uma fixação por discurso, né?

_______________
A única de vermelho
A vereadora do Solidariedade, Fernanda Gomes, foi a única que não aderiu ao tom azul na roupa. Foi de vermelho e brincou: “Gente, vocês deviam ter me dito que era para vir fardada”. Mesmo se tivessem avisado, a colunista acredita que a vereadora seguiria de vermelho. Apoios, apoios, ideologias a parte?
_______________
Discordo de ti, mas te cumprimento
O prefeito Silvio Mendes foi o primeiro a chegar, pontualmente, sendo recebido pelo anfitrião. Sílvio bateu papo, comeu e repetiu (pelas contas da abelhinha, foram três pratadas, no mínimo). Já o vice-prefeito e secretário municipal de Governo, Jeová Alencar e o filho vereador, Samuel Alencar, chegaram na sequência. Curioso: o vereador Petrus Evelyn, crítico ferrenho do vice-prefeito (mesmo sendo aliado do Palácio da Cidade), foi visto sentado ao lado de Jeová após um breve (porém respeitoso) cumprimento entre as partes.
_______________
Ciro curtiu, Joel puxou a ficha de filiação
Ciro demonstrou se divertir com os vereadores, especialmente o pessoal mais jovem, como os vereadores Dragalana, Roncalinho, Juca Alves e Daniel Carvalho que, a propósito, foram os últimos a sair. Ah, não faltaram doses muito bem servidas de uísque e cerveja.
Já Joel Rodrigues se divertiu menos, exceto se o leitor considerar como “diversão” o presidente estadual do PP puxar ficha de filiação para uns três vereadores (destes mais jovens) para se candidatarem em 2026 pelo Progressistas. Assinaram ou prometeram para depois?

_______________
E tchau
Vereadores como Pedro Alcântara curtiram a sequência de músicas anos 70, clássicos do rock, como Elvis Presley… até que alguém teve a infeliz ideia de pedir: “toca um Natanzinho Lima aí”. Foi a senha para o próprio anfitrião pedir para se retirar.
Ciro Nogueira se despediu antes de finalizar a própria festa. Alegou que tinha uma agenda intensa no dia seguinte pelo interior do estado e foi dormir. Antes, avisou que as conversas particulares seriam marcadas com cada vereador. Era ou não era o que todo mundo estava esperando ouvir?
_______________
É melhor perder o que tem no Governo ou ganhar com Ciro?
Ecumênico e eclético, um vereador que foi para o evento, vota em Ciro Nogueira e Júlio César (PSD) para o Senado, apoia a reeleição do governador Rafael Fonteles (PT) além de se declarar da base de Sílvio Mendes (pois é…).
Ele relata um dilema: “Será que não vai chegar uma hora em que vamos ter que decidir entre perder o que a gente tem o Governo depois ou ganhar com o Ciro agora? A gente não sabe se o Rafael vai cobrar mais na frente pra não votarmos no Ciro. Só que se ele fizer esse movimento agora vai aumentar a conta dele (Rafael), né?”. A política é mesmo uma ciência… inexata!

_______________
A gente faz logo é os dois
Opinião pinçada de um petista que leu o último boletim (volte e leia aqui): “Em relação a disputa pelas duas vagas para o Senado, cabe lembrar que salvo engano na reeleição do Lula para presidente ele juntamente com então o governador Wellington Dias derrotaram dois candidatos que estavam disputando reeleição (Mão Santa e Heráclito Fortes), lembro esse fato para dizer na minha modesta opinião que a reeleição do senador Ciro é pouco provável de acontecer. Acredito que o governador que hoje tem mais 80% de apoio popular, junto com o Lula irão eleger os dois próximos senadores pelo Piauí”. Apostas abertas!
_______________
Se você for pequeno, bata
Antigo dono da revista “Istoé”, Domingo Azugaray, tinha a seguinte filosofia para justificar a linha editorial do semanário: “Só os grandes, como a Globo e a Veja, podem ser dar ao luxo de serem governistas. Uma publicação pequena, como a Istoé, quando adula, só irrita. O pequeno tem que dar um chute na canela do poderoso para ser percebido; o pequeno não pode errar; se os grandes têm tanques e canhões, eles fazem um estrago geral; o pequeno só tem um revólver com uma bala só e tem que acertar o tiro na testa do poderosos”. Isso serve para outros negócios além das revistas.
Consta registrar que a reportagem da Istoé foram cruciais para o impeachment de Collor. O trecho foi retirado do livro “Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor”, do jornalista Mario Sérgio Conti.
_______________
Se conselho fosse bom
Dite o tom desde o primeiro dia. Se você tolerar um mínimo de desrespeito, as pessoas irão escalar gradualmente. Aceite ceder um centímetro e, em breve, tomarão um quilômetro. Apenas tome cuidado para não ferir o ego de alguém que esteja acima de você: se você ferir o ego deles, eles ferirão o seu, com muito mais potencial de danos. Nunca aumente conflitos a menos que você tenha algo concreto a ganhar com isso. Nem tudo merece uma resposta sua. Só entre em confronto se houver algo a defender ou ganhar. Caso contrário, deixe os cães latirem.
_______________
Cifrada da Continuação de Trás pra Frente
Num reino muito, muito distante, havia um cavaleiro ousado, conhecido como Acelerado, cujas manobras de trás para frente deixaram um buraco de mais ou menos 70 milhões de estalecas nos cofres reais. Confrontado pelo rei, que quer tudo preto no branco, o cavaleiro Acelerado disse que iria conseguir resolver o imbróglio com ajudas de emendas do andar mais de cima ainda.
A ajuda não chegou até o momento, o que tem ocasionado uma contraofensiva das dezenas de cavaleiros, inimigos declarados de Acelerado. Agora, os cavaleiros estão oferecendo aos prefeitos das vilas quitar as contas das obras de Acelerado com as construtoras reais em troca de um apoio sincero num pleito futuro. Quem pagar a fatura, leva?
_______________
Foto do dia
Para ser candidato a um cargo nacional, o postulante deve, obviamente, ser conhecido nacionalmente. Não é o caso do governador do Piauí, Rafael Fonteles, que ainda não furou a bolha nordestina para se alçar como uma figura de projeção para a sucessão do presidente Lula no futuro, quem sabe. Mas tem potencial e trabalha para isso, outro fato. Rafael será o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira, transmitido às 22h e comandado pela jornalista Vera Magalhães. O programa fala com a massa crítica, os formadores de opinião, portanto, sua importância é qualitativa e não quantitativa.

Mas, para projetar uma imagem nacional, Rafael precisa ir além dos números positivos em indicadores sociais e econômicos, especialmente porque o Piauí ainda é um estado economicamente marginal. É necessário ser um anti-alguma coisa: como o ex-presidente Fernando Collor saiu do Governo de Alagoas para o Palácio do Planalto sendo o anti-marajá, Fernando Henrique Cardoso foi o anti-inflação, Lula foi o anti-fome e Bolsonaro o anti-PT. Rafael não pode ser apenas “pró-tecnologia” (em que pese o fato de que isso importa): política é história. Toda história precisa de um confronto. Fonteles deve buscar o seu.
_______________
A frase para pensar
“Ingenuidade a partir de uma certa idade é mau-caratismo”, Fernanda Young (1970-2019), roteirista e escritora brasileira
_______________
Música da semana
Seria um erro não começar a semana com “Coming Home” de Leon Bridges (erro que não cometeremos). Uma ode sobre conexão, entrega e pertencimento num estilo de soul clássico dos anos 50 e 60. Ouvir Bridges no permite pensar que a simplicidade está ao alcance de quem sabe o que quer, com clareza. A doce sensação de “voltar para casa” e baixar as armas: “The world leaves a bitter taste in my mouth, girl. You’re the only one that I want”.



