A esquerda “endireitou” no Piauí? Uma breve análise sobre a incoerência e perda de discurso
(Leia antes de prosseguir: Posso expressar algumas opiniões fortes nessa coluna, mas não me considero partidária. Você vai encontrar críticas a todos os espectros ideológicos por aqui e esse boletim contém mais algumas delas.)
A colunista quase não consegue escrever essa coluna por conta da nuvem de fumaça advinda de velas e incensos dos novos e fervosoros católicos, misturada com o som de marchas policiais que pedem ordem (esqueceram do progresso?). Mas vamos em frente, como sempre.
A política é, muitas vezes, o teatro em que se diz aquilo que se acha que o povo quer ouvir. E os políticos do Piauí, especialmente os que se dizem de esquerda e centro-esquerda, fizeram claramente uma inflexão para a direita nos atos e discursos.
Sendo assim, se todo mundo (estamos falando de políticos competitivos) está surfando na direita… quem ocupará o espaço da esquerda piauiense? Alguém no fim do túnel? Alô? Tum, tum, tum… Sua chamada foi encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita…

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A esquerda já é minha, agora eu quero a direita
Se o governador Rafael Fonteles e o secretário estadual de Segurança Pública, Chico Lucas, estão investidos em trazer para si a pauta de direita (com o projeto Pacto pela Ordem), ou se os políticos do Piauí pouco falam de economia e geração de emprego e renda (não dá like) e sim de platitudes inconstitucionais que geram alto engajamento virtual, é porque esse é um caminho para alcançar um fim: a vitória. Como o eleitor piauiense médio é lulista de carteirinha (o estado deu 76,84% de votos para o petista em 2022), não há que se perder tempo com o jogo ganho. É hora de ir em busca do eleitor do outro lado.
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Vencer, vencer e vencer
Um partido é uma equipe de indivíduos que procuram controlar o aparato de governo através da obtenção de cargo numa eleição, disse há algumas décadas o cientista político Anthony Downs. E como esses sujeitos conseguem isso? Convencendo as pessoas, ora bolas. É pelo discurso. Assim, não sejamos ingênuos, todas as ações dos políticos visam à maximização dos votos. As políticas públicas são simplesmente um meio para alcançar esse fim.
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Quem domina oratória, sempre cai de pé
Pode-se tirar algumas singelas conclusões pegando os três últimos projetos apresentados por dois vereadores de direita e um de esquerda na Câmara de Teresina: Dudu (PT) quer mudar o nome da Guarda Municipal para Polícia Municipal; Samatha Cavalca (PP), deseja multar os maconheiros que pratiquem o ato em locais públicos em até R$ 1518 e Pedro Alcântara (PP) acha que os imigrantes que quiserem voltar para suas terras e sair de Teresina devem receber passagem e ajuda do município.
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Senta que lá vem história
Na Revolução Francesa, os favoráveis à monarquia ficavam à direita na Assembleia Constituinte, enquanto os defensores do liberalismo/democracia, sentavam-se à esquerda. À direita, os conservadores, à esquerda os progressistas. Era assim. Era. Os políticos respondem à opinião pública e o país se tornou nos últimos anos pós-Bolsonaro, definitivamente, mais à direita. O atual presidente da República, Lula, é de centro-esquerda, mas foi eleito em uma coalizão de centro. A onda ainda é de direita e ninguém quer deixar de surfar por falta de prancha, compreensível.
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Você tá falando em relação a que referencial?
Vamos recuar um segundo. Não existe direita e esquerda definitivas, essas posições são ocupadas em relação ao partido ou grupo do poder naquele momento. Lula, por exemplo, foi eleito estando à esquerda do PSDB. Sílvio Mendes, prefeito de Teresina do União Brasil, foi eleito localizado à direita do então prefeito Dr.Pessoa (PRB) e do governador Rafael Fonteles (PT).

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A direita ficou cool e a esquerda virou chata?
Como tenho certeza que você sabe, historicamente a esquerda buscava mudanças via revolução, já a direita queria manter, conservar a ordem das coisas. Os primeiros defendem igualdade e a competição, os segundos, liberdade e cooperação.
O quadro inverteu-se: a direita é muito mais punk, prometendo a quebra do status quo e a ascensão de um outro modelo que, mesmo que não seja factível, permite o sonho (e o que é a vida se não a eterna busca de realizar desejos?). A esquerda ficou hipervigilante, não soube lidar com o poder, acuou-se ao virar o que combatia: “o sistema”.
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São todos iguais?
O que está mais claro são duas coisas: primeiro, que um bom governo precisa ter elementos das duas vertentes. Sem uma economia forte, não há riqueza para dividir, nem igualitariamente nem desigualmente. O cuidado social é imprescindível, assim como serviços e produtos mais baratos e eficientes.
Segundo, que o eleitor sente o cheiro do oportunismo e quando vai na feira, sabe que se laranjas estão pintadas de melancia, ainda assim não são melancias. Se a centro-esquerda abandona completa ou parcialmente a defesa dos seus princípios básicos, se não forma quadros e não defende, na esfera pública, os valores que diz ter, é um ponto a se questionar: são todos iguais?
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Eu nunca ouvi falar de alguém rejeitar voto
Pós-coluna de ontem (leia aqui) um interlocutor do alto escalão do PSD mandou a seguinte resposta para o pessoal (e bote gente aqui) chateado com o deputado Georgiano Neto (MDB) a ponto de querer trocar o candidato ao Senado, tirando Júlio César (PSD) da dobradinha com Marcelo Castro (MDB):
“Oposição de quem disputa cargo a nível estadual é contra o Governo e não a prefeitos da base. Esse medebista aí, será que só se elege com votos que votam no governador? Jamais! Ninguém rejeita apoio. Não existe um político no Piauí (cito como exemplo deputados) que tenha só apoio de prefeitos ou políticos que estão na base”, defendeu o aliado de Georgiano. O boletim segue aberto para as tréplicas.

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Continuem com suas estratégias “inteligentes”!
Já no Progressistas, a possibilidade de troca de Júlio César, mesmo que remota, foi comemorada com fogos de artifício: “Seria excelente o PT apostar suas fichas no Flávio Nogueira (deputado federal do PT) contra o Ciro, kkk. O movimento ‘inteligente’ da base jogaria Júlio (César) e Georgiano no lado da oposição. Se eu fosse o CN (senador Ciro Nogueira, do Progressistas), daria a suplência para o Júlio e atrairia o PSD”. Bom, para “dar a suplência” para alguém primeiro tem que saber se a pessoa quer, né?
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Tem que saber comprar o que está sendo vendido na feira
Um(a) leitor(a) da coluna, que costura por dentro da política regional, defendeu ontem a turma do PSD a respeito das críticas dos pares: “Acredito que todo este motim seja uma resposta dos incomodados com Acelerado. Insatisfação justificada pela tomada de lideranças/prefeitos/votos. Mas os Insatisfeitos têm que lembrarem da gestão diferenciada de Acelerado durante os quatro anos (não diz um não, acessível, disponível). A turminha da Insatisfação gosta de aparecer no mercado só a cada quatro anos. Acelerado vai ao mercado e a todas as feiras como um grande negociante. Sabe comprar e vender”
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Se conselho fosse bom
Ansiedade significa “contradição interna”, o que acontece quando seus instintos sabem que você está dividido. É a lacuna entre o que você conseguiu e o que você acha que deveria ter alcançado. Assuma que o vazio generalizado vem de buscar distrações rápidas e evitar a dor necessária para crescer. Assumir riscos é uma terapia. Quando a vida segue seus próprios termos, a ansiedade morre.
Se você é educado e inofensivo, todos lhe conhecerão como alguém “legal”. Mas a vida é justamente o caminho oposto ao do conforto. A vida é rasa quando você não paga o preço pelo que quer. Nada de bom vem da evitação. O estado ideal é aquele em que não há ansiedade sobre o futuro ou arrependimento sobre o passado. Você vive apenas com a energia do presente e acredita, inabalavelmente, no seu próprio destino.
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Cifrada do Paredão da Casa das Províncias
Dois cavaleiros disputam com chances concretas o direito de sentar-se em uma das dez cadeiras na Casa das Províncias. O “Triturador de Oposições”, governara com mão de ferro e discursos de fogo. Após duas derrotas amargas, o cavaleiro costurou para si um manto de humildade. Agora, mais sábio e ungido com leite caipira, Triturador avançava. Seus antigos aliados duvidavam: “Pode um leão velho aprender a rosnar de novo?” Mas os servos lembravam de que, em seu auge, ele soube vencer resistências ainda maiores para sagrar-se rei.
Do outro lado, o outrora Diretor das Finanças do Grão-Duque sorria com a tranquilidade de quem já contava os assentos antes mesmo da eleição. Sua vantagem vinha dos Colégios Eleitorais de Lysandra, uma ex-cavaleira que agora ocupava o Conselho do Tribunal de Contas do Reino. Com sua rede de influência, ele assegurara o apoio dos mercadores, magistrados e da plebe e estava perto, muito perto, de chegar lá.
Embaixo da Grande Árvore dos Sussurros, onde, dizia a lenda, verdades eram expostas pelo vento, a pergunta que não quer calar: quais dos dez cavaleiros com assentos firmes em pilotis, serão eliminados no paredão do próximo eclipse?
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Foto do dia
A informação consome a atenção das pessoas. Mas não é qualquer tipo de informação que nos prende. Quando a notícia vem embutida com o ingrediente “emoção”, as coisas ganham novas proporções. Nesse quesito, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é craque. Ele foi intimado ontem durante sua internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital DF Star, em Brasília. Tudo filmado pela equipe de Bolsonaro. A intimação trata do processo no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre uma trama de golpe de Estado.
Se um fato tem 22 vezes mais chances de ser lembrado caso esteja embrulhado em uma história, é inegável que Bolsonaro sabe contá-las. Seja a ausência de pudor de mostrar as fotos do seu corpo entre cirurgias, seja fazendo uma live para vender capacetes, participando de uma entrevista ao vivo no SBT ou sendo intimado pelo STF: não faltam fatos novos embrulhados em emoções (torcida ou repúdio, não importa). Numa boa história, o herói tem um desejo e um obstáculo para alcançá-lo. Está bem claro qual é o desejo de Bolsonaro (anistia) e qual é o obstáculo (STF, “sistema”). O desfecho, segue aberto.

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A frase para pensar
“A mediocridade provavelmente foi – e ainda é – uma doença mais grave do que a aristocracia, a oligocracia e a plutocracia. Eu tenho medo dos medíocres. Primeiro, porque eles são em maior número. Segundo, porque eles vivem mais. E terceiro, porque fingem mais. A gente pode achar que eles não estão por perto, mas sempre estão”, José Sábato (1938-1995), físico argentino.



