O que pensam as mulheres que gastam R$ 450 por um bebê reborn com “certidão de nascimento” em Teresina?

Bebês Reborns da loja de Virna (Foto: Arquivo pessoal)

Virna Carolina de Sousa Cardoso começou o sonho de ter a sua loja, pela internet, há mais de cinco anos, com um pequeno catálogo: alguns itens de enxoval, babadores, sapatinhos e, como um experimento, uma única bebê Reborn: bonecas hiper-realistas, feitas à mão, que imitam a aparência, o peso e o tamanho de um bebê recém-nascido.

A primeira boneca da futura coleção que faria sucesso na loja não foi vendida. Encontrou o afeto em Virna que, àquela altura, ainda não era mãe e decidiu guardá-la para si como uma lembrança de como tudo começou. Anos depois, já com dois filhos, a boneca virou herança de mãe para filha caçula, Maria Olívia.

“A primeira bebê reborn que eu trouxe foi para conhecer o produto de perto, ver de perto, se eu realmente gostava e se daria certo vender. Mas assim que ela chegou, decidi que não iria vendê-la. Fiquei com ela pra mim. Naquela época, eu ainda não tinha filhos, estava apenas começando nesse universo infantil. Guardei a bonequinha com carinho. Mais tarde, veio meu primeiro filho, um menino, e continuei com ela guardada. Quando tive minha segunda filha, uma menina, resolvi passar a boneca para ela. Hoje, com um ano e cinco meses, ela já brinca com a sua reborn. Tem afeição por ela”, contou à Todavia.

Virna com a filha, Olívia (Foto: Arquivo Pessoal)

Virna Carolina hoje é dona de uma loja física em Teresina, na zona Leste de Teresina. As vendas das bonecas reborn, afinal, foram um sucesso. Elas são vendidas na loja por valores que variam de R$ 399 a R$ 450. O público alvo na capital piauiense ainda é, em maioria, de crianças de quatro até 14 anos. A fila de espera já chegou a ser de 15 pessoas.

“As versões com corpo de tecido costumam ter um valor mais acessível, enquanto as com corpo todo em silicone, que podem ser molhadas e têm um acabamento mais realista possuem um preço mais elevado. O valor também varia conforme os acessórios que acompanham a boneca, algo que mães e meninas costumam perguntar bastante. Em geral, cada boneca vem com uma roupinha de recém-nascido, um casaquinho, fralda, mamadeira, pente e outros itens”, explicou.

Reborns saem da loja com certidão de nascimento

Loja dá certidão de nascimento para bonecas (Foto: Paula Sampaio)

Na loja, também saem junto com as reborns peças de enxovais e um diferencial: uma certidão de nascimento personalizada, com o nome da “filha” e das “mães” ou “avós” da “recém nascida”.

“É o nosso diferencial”, explica Virna. “As crianças saem empolgadas com a certidãozinha”, acrescentou. “A gente oferece como um brinde especial, as vezes uma roupinha da loja para escolherem, e tanto as crianças quanto as mães adoram. Mandamos fazer um modelo personalizado, onde é possível preencher o nome da boneca, o nome da mãe, do vovô, da vovó… É um detalhe simples, mas que dá ainda mais significado ao produto que a gente vende”, destacou.

A empresária também observa toda a repercussão que as bonecas reborn tem ganhado com o fato de que, além do público infantil, muitas mulheres adultas procuram as Baby Reborn.

“No caso das mães, das mulheres adultas que compram, eu entendo que é uma forma de apoio emocional. Às vezes é uma mãe que está naquela fase de tentante, então ela compra a boneca para sentir, para se preparar para aquele momento. Outras vezes, é uma mãe que teve uma perda inesperada e encontra naquela boneca, naquele bebê, um apoio emocional também. É muito mais do que um brinquedo, vamos dizer assim”, descreveu.

Em Teresina, a loja de Virna, especializada em produtos para o público infantil, é um dos poucos estabelecimentos da capital que comercializa bonecas Reborn. Como constatou a Todavia, alguns consumidores também tem encomendado os modelos diretamente de fora do estado. A artista “Erica Real Babies” mostrou no TikTok, por exemplo, uma das encomendas que mandou direto para Teresina.

Algumas Reborns chegam a custar até R$ 10 mil, valor justificado pelo trabalho artesanal envolvido: é possível personalizar traços, pele, cabelo e até expressões faciais, basta enviar uma foto e descrever como deseja o “bebê”.

Reborn vira trend nas redes sociais

Nas redes sociais, especialmente no TikTok, as bonecas Reborn viraram protagonistas de vídeos que acumulam milhares de visualizações. São principalmente mulheres adultas que compartilham desde o momento da compra até a rotina de cuidados com as bonecas como dar banho, trocar fraldas, montar enxovais e até sair para passeios. Os vídeos misturam afeto, fantasia e cotidiano, e muitas vezes revelam uma relação emocional profunda com os bonecos, que são tratados como filhos. Esse fenômeno ajudou a popularizar ainda mais o universo das Reborns, ampliando o público para muito além das crianças.

A influenciadora “Aqui é a Yas” viralizou ao contar que levou o seu bebê reborn, o Bento, no hospital ao perceber que ele estaria doente. O bebê super realista abre os olhos ao ser estimulado, toma leite em uma mamadeira e tem até documentação. Ao receber uma enxurrada de críticas ela fez uma gravação se pronunciando: “Não sou doente mental e muito menos desempregada, sou colecionadora com muito orgulho”, resumiu.

Recentemente, famosos como Gracyanne Barbosa, fisiculturista e ex-BBB também aderiu ao seu próprio Reborn: “Como já disse anteriormente, meu sonho é ter um filho. Podem me julgar, no começo eu achei estranho. Mas Benício me trouxe felicidade”, escreveu na publicação.

Gracyanne Barbosa adoda bebê reborn (Foto: Montagem)

A espécie de “trend” viralizou ainda mais quando o jornalista Chico Barney mergulhou no universo das bonecas Reborn no documentário Bebês Reborn Não Choram, lançado em abril deste ano. Com pouco mais de 30 minutos de duração, o filme acompanha encontros de colecionadoras em parques públicos e revela como essas bonecas ultrarrealistas se tornaram objeto de afeto, consolo e até maternidade simbólica para mulheres adultas.

Com seu estilo irônico e observador, Barney evita julgamentos diretos e deixa que as próprias protagonistas  conduzam a narrativa. O documentário está disponível gratuitamente no YouTube e gerou repercussão nas redes sociais, com debates sobre os limites entre fantasia, terapia e afeto.

Vinculo com reborn é subjetivo e deve ser analisado em cada contexto, diz psicóloga

Segundo a psicóloga Ester Pinheiro, formada pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), com especialização em Saúde Mental e em Psicanálise com crianças e adolescentes, o vínculo que se forma com os reborns é profundamente subjetivo.

“Nem todo mundo vai se relacionar da mesma forma. Alguns vão usar como brinquedo, outros como companhia emocional, e há também os colecionadores. Vai depender do sentido que a pessoa atribui àquele objeto”, descreveu.

Psicóloga Ester Pinheiro (Foto: Arquivo pessoal)

Ela lembra que prática não é nova. Nos Estados Unidos, o movimento reborn existe há mais de 25 anos, sendo utilizado até em contextos diversos como o de oficinas de arte a treinamentos para pais. Entre as funções possíveis atribuídas aos reborns, uma das mais delicadas é a de suporte emocional para mulheres em processo de luto gestacional ou que enfrentam dificuldades para engravidar.

“Para algumas pessoas, pode sim ter um efeito terapêutico, pode ser interessante. Para outras, pode não fazer sentido. Vai depender muito do que se espera desse vínculo. O reborn não interage, então, ele pode ajudar a reduzir a solidão, mas não vai haver troca de afeto. É preciso cuidado: ele não pode ser visto como substituto de alguém que não está mais aqui. É importante analisar que tipo de expectativa vem junto com esse bebê. Ele não demanda como uma criança real, mas pode evocar o desejo da maternidade. É uma forma de se aproximar dessa experiência”, avaliou.

Terapia do reborn ajuda idosas com Alzheimer (Foto: Reprodução)

Em alguns contextos, no entanto, o uso dos reborns tem amplo respaldo. Uma pesquisa divulgada no X Congresso Internacional de Envelhecimento Humano, acompanhou pacientes e indicou que a chamada “terapia do reborn” pode ajudar no resgate de memórias afetivas em pacientes com Alzheimer.

Mas por que uma criança — ou um adulto — se apega tanto a uma boneca? Para a psicóloga, o realismo dos reborns é justamente o que intensifica esse vínculo.

“Pode estar ligado à função emocional que o objeto assume. Diferente dos brinquedos comuns, os bebês reborn se destacam pelo realismo — são bonecos que imitam a realidade, que nos aproximam da experiência de ter um bebê, mas sem a exigência de um bebê real. É um tipo de relação que pode ser controlada. O reborn não exige, não frustra, não confronta. É de “fácil cuidado”, e isso pode gerar uma sensação de conforto e segurança para quem o possui”, pontuou a psicóloga.

Mesmo nos tempos mais artificiais, seguimos procurando formas de cuidar

Os bebês reborn seguem causando tanta curiosidade, quanto estranhamento. Talvez porque desafiem o senso comum do que é brincar, do que é normal, do que é emocionalmente legítimo. É uma boneca, sim. Mas também é uma forma de arte e uma tentativa de realismo tão intensa que beira a ilusão: veias pintadas à mão, peso equivalente ao de um recém-nascido, cheiro de talco infantil, fraldas trocadas como se fossem de verdade.

Há quem encontre neles um conforto emocional. Há quem só os veja como um objeto de ostentação em tempos de hiperconsumo, onde vale tudo para estar no “hype” do momento. E há ainda quem encontre neles um lugar para elaborar ausências.

Bebê reborn ultrarrealista vendido por R$ 1,8 mil em loja na internet (Foto: reprodução)

Conforme apurou a Todavia, isso não é, por si só, patológico. Mas precisa ser entendido dentro de cada contexto.

Não se trata de demonizar ou ridicularizar a prática. Mas de perguntar: qual é a função desse objeto para aquela pessoa? Que papel ele está cumprindo naquele momento de vida? Ele está a serviço para aproximar ou para ser um instrumento de fuga de lidar com algo? O reborn pode ser um espelho de desejos, de fantasias, de traumas mal resolvidos. E como tal, deve ser olhado com a mesma seriedade com que olhamos o afeto humano. Vivemos em uma sociedade onde o afeto, muitas vezes, é terceirizado. Os reborns podem ser o sintoma disso ou o sinal de que, mesmo nos tempos mais artificiais, seguimos procurando formas de cuidar. Mesmo que o outro seja de silicone.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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