O Carnaval é de todos ou só de quem pode pagar? Em Teresina, a festa escancara desigualdades entre ricos e mais pobres

“Vão trabalhar bando de vagabundo, vai para Carnaval quem tem dinheiro”, essa foi a declaração de um internauta ouvida pelo presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Teresina, Jamil Said. Ele concedia uma entrevista, após o anúncio da decisão do prefeito Silvio Mendes (União Brasil), no início do mês de janeiro, de suspender o Carnaval em Teresina devido à crise financeira que a cidade passa, quando a interação foi aberta ao público e a pérola veio de um ouvinte.

É uma declaração que ilustra bem um pensamento quase cultural em Teresina – segundo especialistas ouvidos pela Todavia, e que você verá logo a seguir: existe um Carnaval para quem é rico e outro para quem não é.

(Foto: Divulgação/ FMC)

Entrevistado, agora, pela Todavia, Jamil Said relatou que o clima é de terra arrasada entre as escolas de samba de Teresina. Segundo a percepção dele, o chamado “carnaval espetáculo” – aquele com desfiles, fantasias e sambas-enredo nas ruas – e possivelmente até o próprio Corso, que acontece na Avenida Raul Lopes, zona Leste, podem estar ameaçados de deixarem de existir definitivamente.

“A única fé que a gente tinha era no Sílvio, eu tinha certeza que o Sílvio ia fazer o Carnaval, porque ele é corajoso. Ninguém passa por cima dele, mas, dessa vez, passaram. A mesma coisa que aconteceu com o Elmano, com o Firmino, e com o Pessoa. Era a única esperança que tínhamos, porque o Sílvio já tinha feito Carnaval, dois dos grandes, ele tinha sido o melhor prefeito para o Carnaval e, agora, estragou isso, virou a cara”, lamentou Jamil.

Silvio Mendes e Jamil Said (Foto: Reprodução/ Instagram)

Já foi o maior!

A verdade é que, independente, das gestões o Carnaval em Teresina já passou por muitos altos e baixos: a capital já foi para o livro dos recordes em 2012 – o Guinness Book – com o maior desfile de carros enfeitados do mundo nas prévias carnavalescas. Foram 343 veículos e mais de 150 mil foliões, quase 1/3 da população da cidade, motivo de orgulho, na época, para a maioria dos teresinenses.

Em seu auge, Teresina também teve oito escolas de samba atuantes com pelo menos 10 mil pessoas trabalhando durante grandes eventos. Hoje, resistiram sobretudo três: a Skindô, Parque Piauí e Brasa Samba.

Teresinense tem horror a pobre?

Para o professor Claudio Moura, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), doutor em Teoria Literária, o que vemos na festa popular mais amada do país é o reflexo de uma divisão social e econômica muito mais profunda que atravessa a capital piauiense.

“Tira-se o Carnaval, tira-se o Corso, mas, a classe média alta de Teresina vai continuar comprando abadares para ir a grandes shows, vai pra Bahia, vai viajar pra fora do Brasil, vai fazer o que for. A pessoa que tem dinheiro, ela não vai ser afetada por isso. A gente tem todo um ingrediente de ‘aporofobia’ (aversão ou rejeição a pessoas pobres), essa coisa de não querer se misturar. Então, no momento em que a coisa populariza, ela perde muito do seu encanto para esse público”, argumentou.

Claudio Moura (Foto: Arquivo pessoal)

Carnaval sempre foi marcado pela desigualdade em Teresina

Artigos e livros que analisaram o passado do Carnaval em Teresina (e que foram consultados pela Todavia) apontam que essa divisão não é de agora e era até pior no passado: até as décadas de 1920 e 1930, o Carnaval de Teresina era uma festa elitizada, limitada a clubes e residências privadas. Foi apenas com o tempo que as ruas da cidade passaram a ser palco dessa festa popular. Um carnaval para todos, mas que, ainda assim, não foi capaz de apagar as marcas da desigualdade.

A historiadora Andreia Andrade, da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSM), concordou com essa análise. Ela lembrou que, desde cedo, o Carnaval de Teresina foi moldado por um público seleto, e que com o tempo, isso se consolidou: “Existia até uma cor de roupa, um traje específico para estar nesses lugares”, observou.

Andreia Andrade (Foto: Andreia Andrade)

Quem tem o direito de celebrar?

Mas o que talvez seja mais interessante dessa história é perceber como, apesar de toda essa divisão, o povo sempre encontra seu lugar. Essa é a reflexão central de Andreia Andrade: “O Carnaval voltado a um público específico, que consome e compra, muitas vezes não está acessível a todos, principalmente pelo custo, porque muitas pessoas não poderiam arcar com esse valor. Mas isso significa que a maioria da população vai deixar de ter o seu Carnaval, vai deixar de festejar? Não. A população vai, à sua maneira, encontrar formas de consumir e festejar o Carnaval também”, frisou.

O grande dilema, portanto, não é se o Carnaval de Teresina deu certo ou não. A pergunta relevante é: a quem pertence o Carnaval? A resposta, em sua complexidade, é uma mistura de todos os teresinenses, dos que têm acesso aos luxos da festa, aos que constroem sua própria festa nas ruas e nos blocos dos bairros. É dilema, que não vai acabar agora, sobre o que celebramos e quem tem o direito de celebrar.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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