
Nas últimas semanas, o movimento cristão Legendários ganhou destaque nas redes sociais após receber nomes de famosos como Thiago Nigro, o “primo Rico”, o ex-BBB Eliezer e até o pai do jogador de futebol Neymar. Mas, no Piauí, o movimento já tinha chamado a atenção e continua a crescer há bem mais tempo que isso.
O primeiro encontro de “legendários” piauienses formados contou com a participação de pelo menos seis homens e aconteceu em junho de 2024, segundo apontam as imagens postadas no perfil de Instagram “Legendários Piauí”. O grupo prega um “reencontro com a fé e a essência masculina” com o “legendário 001” que seria Jesus Cristo, a partir de atividades ao ar livre, a maioria, subindo uma montanha.
E, embora no Piauí ainda não tenha a organização dessa subida a uma montanha própria para realizar o desafio tradicional, que consiste em uma caminhada de três a quatro dias em meio à natureza, um grupo já formado de legendários organiza encontros mensais, quem eles chamam de RPM (Reto Pelo Mês). Esses encontros são momentos de oração e reflexão, geralmente realizados nas primeiras horas da manhã, em locais como o Zoobotânico da cidade.
Na filosofia do grupo, o esforço físico e emocional é usado como metáfora para “conquistar a sua montanha” pessoal.

Em Teresina, os participantes também se reúnem para fazer a arrecadação de cestas básicas em movimentos solidários. Os posts na página oficial do Legendários Piauí, são invariavelmente pautados por passagens bíblicas e slogans de autossuperação e buscam fazer de cada seguidor um potencial “guerreiro de oração”, expressão usada com por eles.
Inscrição para Legendários pode custar até R$ 1,8 mil

A formação como Legendário exige a participação em um dos desafios oficiais, chamados de “top”, que acontecem em outros estados. Segundo a Todavia apurou, a cidade de Imperatriz, no Maranhão, mais de 600 km de distância de Teresina, é a referência mais próxima para os piauienses, abrigando o primeiro TOP do Nordeste. O TOP (a subida na montanha) aconteceu no Vale das Mesas no estado vizinho e contou com 168 homens.
Homens são aguardados por famílias ao retornarem do desafio no TOP do Maranhão:
Os interessados precisam ficar atentos às aberturas de inscrição dos eventos que acontecem em todo o país e são extremamente disputadas. Devido à alta procura e ao número limitado de vagas, muitas vezes os formulários de participação se esgotam em questão de minutos.
Além da disputa por vagas, é necessário se preparar financeiramente para o desafio. O valor para participar de um top varia de acordo com a organização local. Alguns evento podem custar em média entre R$ 1,1 mil e R$ 1,8 mil por pessoa e outros até R$ 81 mil.
O “TOP Pantanal” custa R$ 81.490. Já o “TOP Rio de Janeiro” teve inscrições abertas, pelo valor de R$ 81.590.
Há opções mais em conta, como o “TOP Warriors”, uma experiência para solteiros de 18 a 30 anos “que nunca tiveram relacionamentos/uniões conjugais”. A inscrição custa R$ 1.490.
Esse custo cobre despesas como estrutura de apoio, alimentação e materiais utilizados durante a formação. O investimento, segundo os participantes, é visto como parte do compromisso com o propósito de transformação pessoal proposto pelo movimento.
Em uma das publicações, um dos pioneiros do movimento no Piauí, o empresário Thalyson Camilo Dias, fez um vídeo convidando participantes para uma ação que aconteceu no Maranhão e falou sobre o que o Legendários representa.
“O Legendários é um movimento que vem transformando o caráter, a honra e o amor de vários homens em 13 países. E pela primeira vez vai acontecer no Nordeste”, falou ele em maio de 2024. “Você que é homem aqui de Teresina, existe muito caráter a ser melhorado, muita honra, muita integridade. E o papel do Legendários é isso. Devolver para a sociedade, para as nossas famílias, para os nossos filhos, para as nossas igrejas, para a nossa cidade, para o nosso estado, para o nosso país a configuração original de todo homem”, disse em tom de convite aos seguidores.
Ajuda com vícios e recuperação em crises de casamentos
Ainda em meios as publicações feitas no Instagram, há relatos de legendários que contam como o movimento ajudou em alguma área da vida deles. A maior parte cita problemas com vícios e crises no casamento. “Naquele dia subiu um menino e desceu um homem para honrar a minha família e minha esposa”, pontua um dos homens em uma das postagens com depoimentos.
A coluna Todavia tentou entrevistar três membros do grupo Piauí, mas não obteve nenhuma resposta. Pouco se fala sobre o que exatamente acontece “nas montanhas”. Em parte, porque os participantes se comprometem a não divulgar detalhes das atividades. A narrativa oficial enfatiza apenas que é uma jornada de superação, fé e reencontro pessoal.
“Legendário 001: Jesus Cristo”
Ao se formarem, cada um ganha uma farda laranja e boné com um sua identidade e um número que segue o 001, que tem o nome de Jesus Cristo. Uma das bases filosóficas do movimento é o Manifesto dos 24 Nós, uma lista de compromissos espirituais e práticos que reafirmam a fé cristã e valores tradicionais de honra, coragem e liderança. Um dos “nós” mais citados resume bem o espírito do grupo: “Nós cremos que Jesus Cristo é o Senhor e a Bíblia é a nossa bússola”.
Embora tenha ganho popularidade recente, o Legendários surgiu há mais de uma década na Guatemala, pelas mãos de Chepe Putzu, ex-pastor da Igreja Casa de Deus. Hoje, o Brasil está entre os países com maior participação com mais de 10 mil homens inscritos, segundo o próprio site do movimento. Um dado curioso obtido pela coluna: cerca de 30% das inscrições são feitas pelas esposas dos participantes.

Movimento cresce e conquista simpatia e críticos
Com a explosão nas redes sociais, vieram também as críticas. Muitas delas questionam a cobrança elevada e acusam o movimento de transformar a fé em produto para poucos, uma elitização do que deveria ser espiritualidade acessível. Setores progressistas apontam ainda o reforço de uma visão conservadora e tradicionalista de masculinidade.
Incidentes também lançaram dúvidas sobre a segurança da proposta. Ainda neste ano, o participante Fábio Cherini, de 44 anos, morreu em Mato Grosso do Sul, durante uma trilha de 72 horas, levantando questionamentos sobre o preparo dos organizadores para emergências em áreas remotas.

Entre os críticos, há ainda quem aponte que, embora o movimento estimule a superação pessoal, questões mais complexas enfrentadas pelos participantes — como problemas de fidelidade conjugal ou vícios — demandem acompanhamento psicológico mais profundo, para além das experiências intensas promovidas nos retiros.
Dos homens do sertão aos homens da montanha
No Piauí, a busca por uma identidade masculina não começou agora, nem nas redes sociais. Desde o século XIX, quando os meninos piauienses, ainda em uma sociedade rural, aprendiam a andar na mata antes mesmo de escrever o próprio nome, a construção da masculinidade na terra quente do sertão era um ritual que exigia dureza: era esperado que fossem fortes, resilientes, incansáveis. A honra familiar passava pelo peso de suas ações e, sobretudo, pela capacidade de impor respeito.
O artigo “Entre a História e a Memória: Práticas Masculinas no Piauí Oitocentista” do historiador da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Pedro Vilarinho Castelo Branco, mostra que a masculinidade tradicional no Piauí se formou baseada na força física, na capacidade de dominação, na resistência às adversidades e na manutenção da hierarquia familiar e social.
O que o Legendários faz ao pregar o “resgate da essência masculina”, a “superação pelo esforço físico” e o “reconhecimento de um papel de liderança familiar” dialoga diretamente com essa tradição histórica piauiense de que ser homem é resistir, liderar, proteger e provar seu valor através de ações concretas, físicas e públicas. É como se o Legendários atualizasse, com linguagem cristã moderna e marketing de superação pessoal, valores muito antigos da masculinidade já existentes.
O mercado da masculinidade: medo da perda de status impulsiona movimentos , afirma pesquisadora
O crescimento de movimentos como o Legendários em todo o país, ainda que embalado por slogans de fé e superação, não pode ser lido de forma isolada. Segundo a economista e pesquisadora da UFPI, Kellen Carvalho de Sousa Brito, ele faz parte de um fenômeno social mais amplo conhecido como “backlash anti-gênero” ou “refluxo anti-gênero”.
“Esse resgate da masculinidade é uma reação à conquista de direitos por mulheres e grupos minoritários”, explica Kellen. “Homens que antes ocupavam naturalmente posições de liderança passam a se sentir ameaçados e tentam restaurar ou ter uma retomada dessas normas tradicionais de gênero”, avaliou.
A dinâmica, no entanto, não se resume apenas a uma questão de nostalgia cultural. Kellen aponta que o neoliberalismo, modelo econômico predominante na atualidade e que baseia sua lógica na individualidade, também desempenha seu papel na popularização destes movimentos.
“O neoliberalismo que faz com que os papeis, as responsabilidades sociais sejam transferidas para o individuo que passa a ser o único responsável por suas vitórias e fracassos, não existe uma ideia de coletividade, ela é diluída. A masculinidade dentro do neoliberalismo passa a ser um produto, que é muito vendido por coaches e influencers e, assim carrega um viés mercadológico e meritocrático, que é vendido como modelo de superação e conquista em que podem recuperar esse lugar que um dia foi deles, muitas vezes, sem avaliar uma masculinidade tóxica que pode existir”, pontuou a pesquisadora.

Para a professora, que estuda relações de gênero, essa busca frenética por superação acontece em um contexto de precarização do trabalho, incertezas econômicas e um crescente vazio de pertencimento social. Por fim, Kellen alerta que a perpetuação desse modelo de masculinidade não só pode prejudicar as mulheres, mas também os próprios homens, em alguns casos.
“A dificuldade dos homens em lidar com suas emoções, em reconhecer fragilidades e buscar apoio, seja familiar ou profissional, contribui para a formação de uma masculinidade tóxica, que afeta tanto as mulheres quanto os próprios homens. Esse fechamento emocional impede que eles elaborem seus sentimentos de maneira saudável e gera impactos profundos nas relações afetivas. Muitas mulheres, hoje, demandam parceiros mais abertos emocionalmente, que compreendam que perder o status de provedor ou não ser o único responsável pelo sustento da família não diminui o valor da relação. ‘Aquela mulher está com ele porque ela quer ele e não porque ele provê ela’”, resume Kellen.
No fim das contas, o esforço de conquistar a montanha parece dizer menos sobre a trilha física e mais sobre o terreno instável da própria identidade masculina nos dias de hoje. Movimentos como o Legendários oferecem aos homens uma narrativa de superação, de reconquista de um espaço que sentem ter perdido. É importante que a sociedade como um todo, sobretudo, os homens busquem preencher essas lacunas. No entanto, a travessia mais difícil talvez não esteja na mata fechada, nem nas ladeiras íngremes, mas dentro de si mesmos, no enfrentamento das próprias fragilidades que a vida moderna tem imposto.





