(Estava pensando em um assunto que eu entendesse um pouco mais do que a média para poder comentar. O problema é que eu vivo e respiro essas coisas de política, coitada. Alguns pensamentos mais coerentes pela manhã, depois de duas viagens e um galão ou mais de café).
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O jogo das agências de publicidade: a disputa para saber quem manda na Comunicação do Piauí e de Teresina
Após anos de evolução (para quem acredita em Darwin, o que é definitivamente meu caso), a vida na selva se resume a interesses conflitantes e diferentes indivíduos e grupos competindo por poder ou recursos finitos. Na política também. Na comunicação, idem. 1
A colunista recebeu o seguinte alerta de um ex-secretário de Comunicação da capital, quando buscou com ele informações para confeccionar este boletim: “Tem certeza de que vai falar disso? São umas coisas muito delicadas que ninguém tem noção do quanto elas são decisivas. É coisa de louco…”. Foi aí que a colunista decidiu: escreverei sobre isso. Vamos nessa?
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As do Pessoa, não; as do Governo, não
Por razões de oferta e demanda e um fluxo interminável de conversas com espuma e sem substância, não é tão difícil falar dos jogos de poder na administração Sílvio Mendes (União Brasil) em Teresina. O complicado mesmo é cravar alguma coisa em tempo real (é exatamente o que estou tentando fazer).

Falemos das agências que têm possibilidade de estarem na futura licitação da Prefeitura de Teresina, prevista para o segundo semestre deste ano: “Por eliminação, as que estão no Governo estadual não são e as que estavam na gestão Pessoa também não. Restam umas quatro ou cinco habilitadas e com os laços certos”, resumiu um ex-secretário de Comunicação ao boletim.
Estamos falando de quanto? Na época em que Claudia Brandão era secretária de Comunicação do município, a licitação estava na casa dos R$ 17 milhões anual, com Fernando Said chegou nos R$ 20 milhões, permanecendo assim com a chegada ao poder do grupo de Dr.Pessoa (PRB). Mais do que valores, essa é uma partida de informações privilegiadas e influência.
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BR, Pulse e…
Historicamente, são uma média de quatro vagas para agências de publicidade cuidarem das contas de uma capital ou do Estado. Menos do que isso pode parecer direcionamento de licitação, o que é crime, atentai bem. No mundo das agências, as bem cotadas em Teresina (e certificadas com o CEMP, um registro específico para licitações) para a futura gestão Sílvio Mendes são essas (até o momento citadas pelos pares, publicitários e gente do mercado da comunicação):
Agência BR – Era produtura e virou agência esse ano, funcionando no mesmo local onde foi estruturada a última campanha de Sílvio Mendes. “Nos bastidores, quem pode comandar é a Stefânia Oliveira, que trabalha há anos com o Ciro Nogueira (senador do Progressistas), é de confiança. O publicitário e coordenador é o André Pontes, um cara de São Paulo, que fez grande campanhas lá (Eduardo Campos e Marina Silva são cases de André) e que foi o marqueteiro do Sílvio (Mendes) em 2022 e 2024”, conta um interlocutor privilegiado.

Pulse Propaganda: Dos sócios Paulo Braga e Rafael Paixão, dois ex-SA Propaganda. Informalmente, já fizeram a nova logomarca da Prefeitura de Teresina. “Trabalharam com o Siqueira (Campos da SA) por muito tempo e sempre buscaram espaço como agência. É a equipe que trabalhou na campanha do Sílvio também”, pontuou um publicitário ao boletim.

Surpresa: “Há possibilidade de uma terceira ou uma quarta surgirem por aí…”, disse um insider, questionado pelo boletim a respeito das agências mais comentadas para assumir a missão. Ele não chutou nomes… Mistério!
Perguntando sobre por quê a agência com grife e bem cotada no passado em gestões tucanas, a Plug Propaganda, do publicitário George Mendes, não estava na lista, a fonte bem informada aponta que trabalhos da agência para políticos de esquerda terminaram afastando-a do novo núcleo de poder na capital. O caso é ilustrativo de todos os pontos que essa coluna apresenta, total ou parcialmente, sobre o mercado publicitário no Piauí.

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Eles são os caras das ideias
Paralelo ao trabalho das agências, há os consultores de comunicação, que mesclam a expertise de décadas de experiência com opiniões também de estratégia política. “São caras com ou sem agência e que são vistos como fornecedores de ideias, insights”, pontuou um ouvinte dos conselhos de um dos consultores. Mas, quem são eles?
“O Helder Eugênio (dono do tradicional portal 180 graus), com essa característica, o (jornalista e empresário, dono do Lupa 1), Tony Trindade, tem muito disso também. Siqueira Campos (sócio da SA), também, mas bem mais discreto. E dos novos, o Alexandre Nolleto (empresário do mercado de comunicação visual, especialista em Marketing Digital e irmão do secretário de Comunicação do Estado, Marcelo Nolleto), que não é formalmente de nenhuma agência, mas tem sido bem buscado”, elenca o político, em reserva. Saber o rumo do vento é um dom para poucos?

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Cada um por si
Com a ausência de licitação na comunicação da Prefeitura de Teresina ou no momento em que o Estado puxa o freio de mão das contas públicas, a situação atual dentro das gestões é de comércio a granel do trabalho de mídia. Explica-se: “É tipo cada um por si, hoje está assim. Quem quer valorizar seu próprio passe, tira do bolso. São montadas estruturas paralelas de comunicação…”, observa um gestor municipal.
Já um interlocutor estadual, por sua vez, completa: “Tem algumas coisas que saíram totalmente do prumo. Todo mundo vivendo como se o mundo fosse acabar, querendo um aparecer mais do que o outro”. Ihh, gente!
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Big Brother
Para quem acha que tudo isso é besteira e dinheiro jogado fora, vale lembrar que não dar publicidade aos atos públicos fere até um princípio constitucional. Favor não confundir prestação de contas com autopromoção: uma obra nova, um programa social ou uma reforma educacional só existem de verdade quando a população sabe que eles existem, como funcionam e quem está pagando a conta.
A comunicação (transparente!), nesse sentido, é o primeiro passo para o controle social. Se o poder emana do povo, como diz a Constituição, então o povo tem o direito de saber – em detalhes – como esse poder está sendo exercido.
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Chroma e Eclética
Como deu para notar, o mercado está dividido na polarização política. Dentro da divisão, existe a subdivisão.
Resumo da ópera, no Governo do Estado, trabalham a Chroma (de Denise Almeida Martins), que foi forte nos governos Wilson Martins (PSB) e Zé Filho (MDB), já atendeu a OAB-PI, e hoje tem atuação significativa no setor S; a Eclética, do publicitário Paulo Viana (e que tem proximidade com o ex-secretário de Comunicação do Estado nas gestões Wellington Dias, Allisson Bacelar), cujo trabalho tem ganhado espaço especialmente na comunicação política, com fluxo crescente de prefeituras, entes governamentais e deputados.

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Entre SA e ADV6
O jogo de gigantes está entre a SA Propaganda e a ADV6. A SA ainda é o maior player, a agência histórica dos governos Wellington Dias (PT), e chegou a trabalhar com Ciro Nogueira em 2018, então aliado do PT. Os sócios Siqueira Campos e Boni têm como desafio injetar combustível para fazer a virada da digitalização da SA. O ponto forte segue sendo as leituras políticas aliadas ao trabalho de ponta da comunicação em si.
E a ADV6? “Hoje é uma das mais fortes, principalmente porque faz as redes sociais do Rafael Fonteles (governador) e outros secretários. Forte no digital. À médio e longo prazo, tem tomado espaço”, pontua um interlocutor que trabalha do ramo. Com networking jovem e estrutura, a agência é dos empresários Caio Napoleão e Paulo Solano, que é filho do desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí e presidente do Tribunal Regional Eleitoral, Sebastião Ribeiro Martins.

Uma das duas prevalecerá. É assim na selva.
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Oráculo de Delfos
Apostas para o futuro, depois de 2030 no estado? “Não duvido se de repente o Wrias (Moura, ex-diretor do grupo Meio) e a Ativa (agência de Wrias) entrarem. Chance dele entrar em grande”, especula um entendido no tema a respeito das agências não citadas e que também estão no jogo. Mas esse é assunto para outra coluna…

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Na época do Pessoa era assim
A título de contextualização, pelo menos nos três primeiros anos da gestão Pessoa, as agências licitadas eram a Nova (do publicitário Alex Nastácio, que atua bem politicamente em diversos núcleos e inaugurou recentemente uma nova sede com estrutura, exibindo agora mais trabalhados para grandes players do mercado privado), Dallas (Zé Maria), Interativa e Três Propaganda (de Tony Trindade, a quem antigos aliados apontam que Dr.Pessoa respeitava as opiniões em comunicação, mesmo que eventualmente não as seguisse).

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Quem subiu
Após decisão do Tribunal de Contas do Estado, cai essa licitação e chama-se uma nova. Entram: Mídia Theresina (agência tradicional, de Adriana Raquel, esposa do diretor Paulo de Tarso, do grupo Meio), Vende (Cândido Gomes Neto, que foi secretário do governo Hugo Napoleão) e Duplo Alpha (de Ricardo Portela, dono do portal Central Piauí, que foi administrador na TV Antena 10 assim como Thesco Silva, ex-secretário municipal de Comunicação, que hoje atua na parte de relacionamento no grupo Meio).

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Eles são ouvidos
No cerne da campanha, Dr.Pessoa ouvia especialmente nomes de fora das agências, como o ex-secretário de Comunicação do governo Wilson Martins, o professor da Universidade Federal do Piauí, Fenelon Rocha ou ainda, no último ano, o publicitário e jornalista Fábio Sérvio, que não apareciam mas eram vistos atuando no segmento de estratégia de comunicação e política nos bastidores.

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Esquenta de Picos
Para quem duvida (alguém duvida?), o prefeito de Picos, o ex-deputado Pablo Santos (MDB), trabalha forte na pré-candidatura da esposa, Anyara Ayres à Assembleia Legislativa do Piauí. Dá para medir: desde a semana passada, Picos recebeu dezenas de prefeitos para o São João da cidade. A ideia é transformar politicamente a tradição junina em uma festa que movimente o turismo da cidade e coisa e tal. Na prática, foi o lançamento político, com pompa, de Anyara.

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Se conselho fosse bom
Sempre que estiver em dúvida sobre como agir, pergunte a si mesmo: “O que uma pessoa comum faria?” Então faça exatamente o oposto. “Nenhum profeta é aceito em sua terra natal”, dizia o apóstolo Lucas. Isso é claro: se você seguir um caminho diferente do povo de mente pequena que lhe rodeia, será julgado e criticado. Afinal, quem você pensa que é? Seu crescimento ameaça a mediocridade da vida que eles levam.
Nunca aceite ser jogado no mesmo saco que todos os outros esforçados que não têm nem ideia do que estão fazendo. Geralmente é assim: a sociedade lhe dá um rótulo e você vive o nível desse rótulo. Identidade é uma gaiola. Saia dela. Não tema: o diferente é notado. Pague o preço.
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Cifrada dos Reinos do Litoral e da Princesa do Sul
Longe da capital, dois reis de cidadelas no interior do Reino Central estão envoltos em seus próprios conflitos. Para alguns, o mais sagaz de todos, para outros, mais perdido do que cego em tiroteio, o Rei do Litoral irá para onde, agora que a Princesa dos Mares decidiu cair pra dentro do Palácio Tech com o rei Harry Potter? No oráculo, sacerdotisas dizem que o destino dele será o mesmo que o dela: com Potter. O maior sempre engole o menor. Será?
Já no Reino da Princesa do Sul, a briga é outra. Cavaleiros da Távola Redonda local chiam questionando tanto a liderança do cavaleiro desafiante no último pleito, que consideram “inábil” nas costuras políticas, como do ex-rei, que saiu mas deixou um aliado (que agora não é mais tão aliado assim… Os dois estão se estranhando!). Um cavaleiro federal está no meio da parada, patrocinando o caos. Guerra branca!
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Foto do dia
Escuta-se um sussurro aqui e ali no mundo político, que diz mais ou menos o seguinte: “Já está demais”. Demais o que? Para os sussurrantes, o tempo de prisão da vereadora de Teresina, Tatiana Medeiros (PSB), presa há quase dois meses no Quartel da Polícia Militar do Piauí. “Ela não tem motivo para tá presa até agora, qual a periculosidade? Não é crime de tráfico que ela é acusada. É crime eleitoral e de todo mundo que fez o mesmo que ela, incluindo o X e o Y (políticos), ela é a mais vulnerável!”, opinou um jurisconsulto ouvindo pelo boletim e que entende do caso em questão.
A vereadora tem recebido atendimento médico com frequência devido a problemas de saúde mental, com quadros de depressão e ansiedade. É fato que as acusações que pesam sobre Tatiana são graves (corrupção eleitoral, lavagem de dinheiro, peculato e falsidade ideológica e envolvimento com organização criminosa) e precisam de punição, se comprovadas. Tudo em seu tempo e sua medida. Nem abaixo nem acima.

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A frase para pensar
“O novo na arte, ciência, política, causa sempre incômodo aos espíritos vulgares”, Cândido Portinari (1903-1962), o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional.
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Música da semana
Ora, ora, parece que aqueles que nasceram no final dos anos 80 (cof, cof!) têm alguns comportamentos em comum, tais como a apreciação de músicas de bandas de rock muito específicas. Quando Steven Tyler pede em “Crazy”(Aerosmith): “Girl, you got to change your crazy ways (Garota, você tem que mudar esse seu jeito louco), You hear me? (Está me ouvindo?)”, eu quase fico convencida. Quase.
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- “Entre os cidadãos que gozam de direitos políticos, o número dos que realmente se interessam pelos assuntos públicos é insignificante. Entre a maioria, o significado das relações íntimas existentes entre o bem individual e o bem coletivo está muito pouco desenvolvido. A maior parte não tem a mínima ideia das influências e consequências que os assuntos desse órgão que chamamos de Estado podem exercer sobre seus interesses privados, sobre sua prosperidade e sobre sua vida”, Robert Michels, sociólogo alemão. ↩︎





