Boletim 08/10/25

Para quem estava em Nárnia nos últimos tempos, a semana passada foi marcada por uma operação da Polícia Federal questionando a licitude de contratos na área da Saúde do Governo estadual, outra operação com foco no Judiciário e agronegócio (falemos disso depois) e mais alguns episódios isolados de agentes públicos e pessoas politicamente expostas envolvidas em controvérsias públicas e privadas (estou falando daquilo que você está pensando).
O boletim vai organizar as perguntas que estão no ar e responder com o máximo de sinceridade possível (ênfase no “possível”. O objetivo final da colunista, claro, é passar a mensagem… mas faço muita questão de que não matem a mensageira! Só se der).
Leitor: Vão ter novas operações?
Resposta: Sempre vão ter novas operações. A questão é o “time” (tempo) e o onde (lugar). Várias operações num mesmo segmento político passam de “investigação” para serem interpretadas como “ofensiva”. Uma “ofensiva” pede uma “resposta”. Uma “resposta” leva a uma “réplica”, e ao infinito e além. Às vezes os jogadores desse sistema não querem escalar tanto assim. Às vezes respostas técnicas enquadram, às vezes são respostas políticas que urgem. Enquadro hoje, para todos os efeitos, que uma mistura das duas é eficiente.
O lugar para onde o mundinho da política está olhando hoje (atenção aqui) não é necessariamente o local onde a ação vai acontecer (me cobrem depois sobre isso). E não é porque algumas pessoas não estão falando de determinados temas que eles estão fora do radar do sistema investigativo. O passado sempre volta.
Como dizem por aí: a gravidade não é apenas uma boa ideia, ela é uma lei.
Leitor: Qual o impacto disso na popularidade do governador Rafael Fonteles?
Resposta: Um governo com mais ou menos 80% de aprovação popular parte de uma posição simbólica robusta. O número pode ser traduzido da seguinte forma: “o governo petista tem forte adesão social, legitimidade consolidada e uma base de apoio popular capaz de amortecer impactos reputacionais iniciais”. Pois é.
A confiança popular cria um “colchão de credibilidade” (esse é um conceito usado por cientistas políticos para designar a capacidade de resistir a choques políticos mantendo estabilidade). Mesmo que a operação tenha como alvos empresas privadas e não agentes políticos diretamente, a opinião pública tende a associar corrupção ao governo contratante. É inegável.
No caso do PT, essa vulnerabilidade é acentuada por um histórico de narrativas nacionais sobre corrupção (Mensalão e Lava Jato). São memórias coletivas que criam um ambiente cognitivo propício à amplificação de suspeitas. Nada bom.
Leitor: Quais os riscos então que o Governo pode sofrer nesse caso, inclusive políticos?
Resposta: Vamos lá:
1- Risco institucional: qualquer jogador razoável sabe que a abertura de CPIs, investigações paralelas ou bloqueios orçamentários geram instabilidade administrativa. Chance de zero a 100 disso acontecer: bem pertinho de zero.
2- Risco narrativo: a bem da verdade, independentemente de provas, operações envolvem vazamentos seletivos, imagens e criação de contexto com uma rede digital que a oposição tem mobilizado na internet com alguma eficiência.
Os principais atores políticos desse campo (Ciro Nogueira, Joel Rodrigues, Júlio Arcoverde), no entanto, não estão indo para o enfretamento direto, o que também é um sinal. Fora isso, o Governo tem força, se quiser, para “mudar o frame” da narrativa. As coisas ainda estão acontecendo.
3- Risco eleitoral: Contaminação de pré-candidaturas governistas, redução de margem de transferência de votos ou abertura de espaço para outsiders com discurso moralizante: baixo risco.

Alto risco de uso interno dos fatos, no entanto, dentro da própria base aliada. O boletim está falando da tentativa de impor negociar um novo candidato a vice de Rafael Fonteles em 2026: ala do MDB que ainda espera a manutenção do vice-governador Themístocles Filho, e ala majoritária do PT, que deseja um nome ligado ao ministro Wellington Dias, pensa que existe brecha para tanto (ou gostaria de criar uma). A política funciona de maneiras misteriosas.
Leitor: Deixa eu ver se entendi, a base enxerga uma brecha nesse contexto todo para reforçar a única vaga oficialmente aberta (vice) na chapa de 2026?

Resposta: Como uma reles, humilde e simples cronista da política piauiense, tenho alguns pensamentos sobre isso. E acontece que eles encaixam com os fatos.
Um rio é diferente de um lago. Ambos possem água, mas o rio tem correnteza. E remar a favor da correnteza é bem mais fácil do que ir contra. Quando você deseja mudar o curso de um rio, pode construir uma barragem, por exemplo, mas esse é um negócio caro e pode ter falhas.
A sabedoria diz que é melhor nadar com a correnteza. Ou então cavar um canal, que vira uma corrente e depois, quem sabe, um rio. Wellington Dias (o Índio, como é conhecido na política) tem raízes indígenas. Talvez ele saiba alguma coisa que a gente não sabe sobre o tempo das coisas.
A política é feita de pessoas inquietas que sempre buscam a ação e sabem como farejar as brechas. Só que a turma jovem também tem suas armas tecnológicas e futuristas…
Leitor: Até onde a oposição pode ir?

Resposta: A vida nesse lado do globo é sobre maximizar retornos e minimizar riscos. Se você não se importa em fracassar, pode apostar mais. Mas poucos fazem isso. O grupo do senador Ciro Nogueira (PP) tem um tiro certo: a manutenção da cadeira dele ao Senado. Não existe outra coisa.
Como uma defensora da liberdade, acredito que a oposição pode ir até onde bem quiser e entender. Como uma realista, sei que todas as árvores competem por luz, mas apenas uma chega a se tornar a mais alta. Permita-me dizer que todos os problemas da oposição se resumem ao fato de que narrativas e histórias bem ancoradas ainda precisam de uma coisa chamada “alternativa de poder”. Ou seja, um candidato viável para bater de frente com Rafael, com estrutura e tudo o mais. Eles não estão tendo, leitor.
Podemos encontrar várias opiniões sobre a questão, mas o forte consenso é de que assim como todo o jogo do PT piauiense é sobre 2030, todo o jogo da oposição também é para 30 (chances maiores de reeleição de Lula => Rafael Fonteles podendo ser ministro já em 2027 – alguns apostam que da Educação no lugar de Camilo Santana => o vice, se eleita a chapa, seria desde já o governador => como ficaria a cadeira de senador de 2030 com Wellington Dias precisando renovar o mandato e um governador rafaelista sentado no trono com poder total de decisão?).
Internamente, o grupo oposicionista se dá como vencido por Rafael em 2026, disputando pra valer apenas o Senado. Não há espírito de luta. E isso não é uma opinião. É uma apuração.
Câmara dos Deputados: 4, 3, 2, 1 ou 3, 4, 2, 1?

A colunista é péssima em Matemática e odeia pedir ajuda, então o leitor absorva como quiser as seguintes informações. Com o retorno da bancada federal piauiense à sua formação original de 10 deputados, há três apostas rodando no momento:
1) PT elege 3 federais
PSD elege 4 federais
PP elege 2 federais
Republicanos elege um federal
2) PT elege 4 federais
PSD elege 3 federais
PP elege 2 federais
Republicanos elege um federal
3) PT elege 3 federais
PSD elege 4 federais
PP elege 2 federais
Chapinha do PDT/Solidariedade elege um federal
Avisando aos incautos que não é questão de múltipla escolha e nem concurso do CNU (para a turma evitar tentativa de fraude, sabe como é…)
Ou seria mesmo 4, 4, 1, 1?
Uma águia de Brasília, boa em contas, diz a interlocutores que não é nada disso e sim o seguinte:
PT elegeria 4 federais (se Wilson Martins ficasse na sigla)
PSD elegeria 4 federais
PP elegeria 1 federal
Republicanos elegeria 1 federal
Convém sempre ouvir os mais experientes…
Já que perguntar é de graça

As dúvidas são as seguintes:
1) O delegado Charles Pessoa vai para o Republicanos ou o PSD (essa é a diferença para o PSD fazer quatro e não três parlamentares?)
2) O deputado estadual Franzé Silva fica no PT, onde tem história, ou vai para outra sigla (chapinha), onde pretende ter mais do que história, e sim um mandato em Brasília?
3) Os nomes são… O PSD tem dois puxadores de voto, filhos de senadores (Georgiano Neto e Castro Neto), sendo a terceira vaga preferencial de Marcos Aurélio Sampaio com a quarta vaga (se tiver) com o ex-governador Wilson Martins (ou uma surpresa, Charles Pessoa?). No PT, Zé Santana, Flávio Nogueira e Francisco Costa (nessa ordem). No PP, Júlio Arcoverde e Átila Filho. No Republicanos, Jadyel Alencar.
4) Wilson Martins fica no PT? Vai mesmo pro PSD, conforme anunciou? Anunciar é diferente de se filiar? E se filiar é diferente de permanecer? Não custa perguntar…
Para ler, ver e ouvir

Pare o que tiver fazendo e veja a série “M, o Filho do Século”, disponível no Mubi. A série é uma adaptação do romance histórico de Antonio Scurati reconstruindo aascensão de Benito Mussolini com um olhar minucioso sobre a manipulação política e emocional que marcou o nascimento do fascismo italiano. Tem uma fotografia e ritmo quase teatral, retratando como Mussolini constrói sua figura pública por meio de discursos incendiários e exploração do medo social.
Conclusão temporária (ainda estamos assistindo): Mussolini não é um “monstro isolado”, mas sim alguém que soube ler o espírito de seu tempo e organizar forças dispersas em um projeto autoritário. Além de tudo, ele dominava a arte de encarnar múltiplos papéis simultaneamente: o líder forte, o homem do povo, o intelectual e o provocador, etc. Era o que fazia com que diferentes públicos projetassem nele suas próprias expectativas.
A comunicação é um capítulo a parte, porque a série enfatiza o papel dos jornais fascistas como instrumentos de guerra cultural e a criação de rituais coletivos (as marchas, saudações, coreografias políticas) que reforçam pertencimento. Uma aula de política, porque o presente repete o passado tantas vezes, que é bom ser escaldado, leitor.
Se conselho fosse bom
Se você não faz o que você quer, quando quer e com quem quer, então não há liberdade. Se você tem esse tipo de independência, mas não possui um propósito maior do que você, então você também não é livre. É muito difícil imaginar alguém tendo uma boa vida se ocupando do que outras pessoas fazem ou acham de você. Entenda que concorrentes, inimigos e oponentes são apenas seus professores. Considere normal absorver lições de pessoas de quem você não gosta.
É natural que o caminho difícil teste sua coragem diariamente. Separe a emergência deles da sua, afinal, se tudo é importante, na verdade, nada é. Nem tudo merece seu tempo. Lembre-se de que tudo que você não tem (talento, família, carreira, riqueza ou autoestima) vem do fato de que você também não teve a coragem necessária para comprometer-se e assumir mais responsabilidades na vida. Perguntar: “E agora, o que acontece?” é muito diferente de questionar: “E agora, o que eu vou fazer?”.
Cifrada do Toc, Toc, Toc Parte 2
No reino do Sol Quente, o antigo rei Strong Coffee fez o que pode para tocar o barco, mas entre os marujos, muita gente também fez o que podia, e o que não deveria! Fato é que a turma dos Templários, que fazem a segurança do reino como um todo, começou a investigar… e de um fio que se puxou, segredos e mistérios se desenrolaram numa intricada trama que pode desaguar em Sol Quadrado, Angelus Caído e outras situações pra lá de chatas… É bom a turma ficar ligada no rumo da Távola Redonda Municipal também? É só uma sugestão, aliás!
Foto do dia

Na Ciência Política, realpolitik é um termo de origem alemã (real = “realista”, politik = “política”) e significa uma forma de atuação baseada em interesses concretos versus princípios ideológicos. Guarde isso, leitor, pois esse é um conceito central para entender a mudança de postura de Donald Trump em relação ao Brasil. Ao aceitar dialogar diretamente com Lula (ligação de 30 minutos, com direito a mais “química”) e sinalizar disposição para rever medidas restritivas, Trump segue a mesma lógica transacional que marca sua gestão nos Estados Unidos e nos negócios: aliados são úteis enquanto entregam benefícios concretos.
A verdade é que a tarifa de 40% sobre produtos brasileiros imposta num momento de tensão passou a ser disfuncional para setores exportadores norte-americanos, especialmente os vinculados ao agronegócio e à indústria de base que dependem de matérias-primas brasileiras. Se não bastasse isso, o mercado brasileiro de 200 milhões de consumidores permanece estratégico para empresas americanas, principalmente num cenário em que os EUA buscam contrabalançar a crescente presença econômica chinesa na América do Sul.
Como todo mundo sabe, o Brasil é peça-chave na infraestrutura de influência de Pequim no Sul Global, via BRICS, com acordos de investimento e cooperação tecnológica. Ignorar o Brasil significaria ceder terreno a um rival geopolítico, a China. Para Trump, a sinalização de afago a Lula é um gesto paralelo ao eleitor norte-americano: ele deixa claro que topa negociar acordos vantajosos mesmo com governos ideologicamente distantes. É a realpolitik, estúpido!
A frase para pensar
“A abundância de algo, mesmo bom, faz com que isso não seja estimado”, Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), escritor espanhol.





